Opinião: Sorria você está sendo coitado…

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Jorge de Lima
Jorge Monteiro

Você nem se deu conta que aprontaram contigo e que você foi o último a saber! Já sei, gosta de levar na cara? Curte ser humilhado? Sim, você gosta…

Hoje vamos discorrer sobre a arte da vida do masoquismo anunciada pela filosofia nas práticas do Marques de Sade, rediscutidas superficialmente por Freud. Masoquismo é prática de vida mais comum do que imaginamos… Todo brasileiro é um masoquista Chorar sorrindo esquenta os tamborins, vamos comemorar nossa miséria humana com uma dívida pública de meio trilhão!

Nossa cultura do teatro – Nelson Rodrigues, do cinema – Glauber Rocha, literária – Machado de Assis, todo parnasianismo – Aluísio Azevedo, evidencia o tradicional choro como forma melodramática de existir. O ser vítima, senzala, destituído de identidade, recheado de discursos superficiais, tragicômicos.

A arte de sofrer é tema de músicas do bolero, do samba de roda, das canções infantis, da jovem  guarda, da MPB – cantou Caetano: “mora na filosofia: pra que rimar amor e dor”? –, foi  celebrada no rock nacional, no sertanejo, no pagode… É a malandra de Anitta da atualidade.

Enfim, por estas bandas existe um amplo e cultural culto à tristeza, à dor de corno, ao curtir tapão na cara, dedada no olho. É a idolatria ao sacana que vai aprontar contigo – por meio de um consentimento inconsciente, a reverência das ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos, ou melhor dizendo, a ode à miséria seja esta intelectual, emocional, ética, espiritual, afetiva ou política. Sofrer por aqui é cult, sempre foi. Nada de novo perpassou o Brasil colônia, e aqui está na republiqueta dos bananas…. Aceita uma dentada ou prefere apanhar de chicote? Você gosta?

O masoquismo rege boa parte da estrutura política do povo brasileiro, em especial na idolatria, subserviência, acomodação, feita pelo voto. Você gosta de sofrer? Sorri quando é sacaneado? Em quem foi mesmo que você votou nas últimas eleições?

Brigamos para defender o bandido que comprovadamente vai espoliar os cofres públicos, que é condenado judicial, é bandido e vai lhe causar problemas enormes. E este indivíduo, você reverencia é seu dono, mentor, amado torturador. Seu mestre sádico que lhe algema, amordaça, escraviza, com você beijando seus pés, vestindo coleirinha ajoelhado, serviçal… pedindo mais…

No Brasil, uma boa parte das pessoas é masoquista por que escolhem bandidos para nos representar, seja este um vereador, prefeito, deputado, governador, senador, presidente. Fazemos isto há décadas, brigando pelo ladrão, jurando que ele é gente boa, honesto, que tudo não passa de intriga da oposição, foi golpe…

E o projeto Ficha Limpa, o que foi feito dele? Povo na miséria, políticos na vida abastada… Natural na estrutura social de masoquismo, encontrarmos oligarquias no poder há mais de um século, vide o proprietário reverenciado do Maranhão, José Sarney, que até hoje diz quem pode o quê e quando… O mentor sádico, dono da coleirinha…

Você vai ser militante nas próximas eleições para qual bandido? Título de eleitor é brevê de otário?! Nosso povo adora sofrer, resmungar, reclamar mantendo a mesma atitude em um profundo auto boicote…

Percebemos temas gritantes e absurdos, fingindo que eles não existem – que são intriga da oposição – e mantendo o hábito de eleger o sacana, estelionatário, corrupto, o mesmo bandido de sempre pra continuar reclamando que as coisas não mudam e só pioram… Bate, você gosta? Lembra em quem foi que você votou… o que ele tem feito?

No campo do simbólico, aprofundando este aspecto psicológico, encontramos nesta estrutura perversa a identificação da identidade coletiva com a Sombra – postulado teórico de C. G. Jung, que assume o status de Persona. Travestimos que o Brasil é alegre, celebrando nosso subdesenvolvimento. E, para o justificar, mantemos no poder o pior tipo de indivíduo em um complexo coletivo de auto boicote intenso.

Adotamos a Persona de sofredores, mantendo a atitude coletiva de reclamar e ficar apáticos dentro de uma indignação passiva. Acabamos coletivamente por fazer o inaceitável, fazendo da ideologia política um jogo infantil de projeção de culpa, negação, alienação ou, o pior da atualidade, o fanatismo sem consciência crítica. Justificamos o sofrer constante nos colocando como pessoas boas, pacíficas, serenas. O povo, coitado, enrabado por corruptos que fazemos questão de manter no poder por nosso próprio voto: masoquismo! Aceita uma dedada?

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Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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