Eleições 2018 | Um é o outro

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Marconi Perillo e José Eliton

Na campanha e no governo, os tucanos Marconi Perillo e Zé eliton estarão juntos para o que der e vier. Não há como separar agora o que a aliança uniu e o tempo consolidou

Vassil Oliveira

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Marconi é Zé Eliton, Zé Eliton é Marconi. Duas eleições formando chapa, oito anos governando juntos no discurso e na prática, o governador que está pra renunciar e o vice que está pra assumir traduzem um projeto de poder e uma visão de Estado há 20 anos em andamento. Marconi Perillo e José Eliton (ambos PSDB) são indissociáveis. Um é o outro até as urnas. Depois, quem sabe.

Quando, no início do ano passado, Marconi colocou na rua a pré-campanha de Eliton, antecipando em mais de ano o processo de escolha do nome na base aliada para 2018, estava apenas dando mais um passo na estratégia iniciada um pouco antes, na troca que o vice fez do PP pelo PSDB.

Movimento que pode ser considerado simples, natural, porém que se revela bem diferente na forma e no conteúdo em relação ao que ele mesmo, Marconi, fez em 2005, quando tirou Leonardo Vilela, deputado federal, igualmente do PP e o colocou no seu partido para ser o seu candidato a governador.

O plano, lá atrás, não deu certo, porque o vice de então, Alcides Rodrigues, que era do PP, bateu o pé e exigiu ser candidato à reeleição, já que assumiria o governo, como Eliton vai assumir, em abril. Marconi, que não queria Alcides, ficou de mãos atadas lá atrás por idêntica razão que viverá daqui a poucas semanas: fora do governo, será candidato ao Senado; neste caso, como romper com o sucessor? Fala mais alto o pragmatismo eleitoral.

Quando, no ano passado, colocou na rua a pré- campanha de Eliton, Marconi estava apenas dando mais um passo na estratégia iniciada um pouco antes

Marconi Perillo não fez campanha antecipada para Alcides como tem feito para Eliton. (Entrou na reta final e fez a diferença: a disputa por pouco não foi decidida no primeiro turno.) Mas tanto lá atrás quanto este ano, a ligação era, como é, inevitável (por ser inegável) e fundamental (para ajudar a eleger). A ponto de Alcides ter usado em seu jingle uma frase de comando que pode muito bem ser repetida por Eliton: “Alcides é Marconi, Marconi é Alcides.”

A forte sintonia entre o governador e o seu novo vice contrasta bastante com a animosidade entre o tucano e o vice de antes, que resultou, pouco tempo depois, em rompimento político – o tucano para um lado, o petista para outro em 2010. Uma questão substantiva: ex-prefeito de Santa Helena, Alcides tinha vida política própria, antes de chegar ao poder; advogado de partido, sem jamais ter vivido o chamado teste das urnas, Eliton chegou quase por acaso, e desde então constrói projeto político colado em Marconi.

A favor de Alcides Rodrigues, em 2006, estava a avaliação do governo, com aprovação em alta. O chamado ‘tempo novo’, motor da virada política de 1998 sobre o PMDB, ainda rodava com combustível suficiente para puxar mesmo uma candidatura longe de ser favorita. Naquele ano, todas as apostas eram de vitória do peemedebista Maguito Vilela (como hoje todas as apostas são de vitória para o senador Ronaldo Caiado).

Bônus e Ônus

Em 2018, Marconi Perillo tem sobre seus ombros o desgaste (ou ‘fadiga de poder’) de quem está há 20 anos no governo. A este fato histórico devem ser somadas duas crises: a do País, com um governo sem rumo, e a de um partido, o seu, também sem direção certa, depois de ter sido decisivo para a chegada deste governo ao comando do País.

Significa que Zé Eliton vai herdar, de Marconi Perillo, os pontos positivos, mas também os negativos. Em geral, os dois têm mostrado afinação irrestrita, embora aliados deem notícias, nas últimas semanas, de choques pontuais entre eles. Nada de novo: o que se tem por choque nada mais é do que a refrega das costuras para a formação do novo governo.

Para Eliton, montar um governo de nove meses, e para tentar a reeleição, com a sua cara é um desejo, mas não é uma realidade. Antes de tudo, o seu governo precisa manter a base de Marconi, porque é ela que vai carregar a sua campanha. Neste jogo de forças nos bastidores, com distribuição das fatias de poder, nem todos ficam contentes, embora romper, de fato, ninguém queira.

A maior parte dos partidos da base defende e busca espaço na chapa majoritária (governador, vice e Senado), mas almeja outra coisa: mais espaço no governo atual e depois, em caso de reeleição. Esses espaços são decisivas nas campanhas de deputado estadual e federal, que por sua vez vão garantir que os acordos sejam cumpridos. É a roda viva da prática política.

Marconi é o fiador das negociações. O garantidor. Sabe disso e faz sua parte, cobrando o seu quinhão: que a máquina garanta a sua vitória para o Senado e se mantenha sob seu comando indireto, já que deixará o comando direto em abril. Eliton se equilibra nessa balança: agradar ao máximo, desagradar o mínimo ao montar um governo que possa chamar de seu para ter uma campanha que não tenha dúvida de que seja sua.

Por maior que seja a tensão nestes dias, a tendência é de apaziguamento na base quando os interesses forem atendidos. Porque, se não forem, os ecos serão estridentes e públicos; as consequências, notórias e barulhentas. Quanto a Marconi e Eliton, a união faz a força; a desunião, a possibilidade de derrota mútua.

Daqui até as urnas, um precisa do outro. Para Zé Eliton, manter Marconi como cabo eleitoral motivado em favor de sua candidatura é essencial. Para Marconi, segurar a lealdade de Eliton é manter vivo o discurso que o sustenta, de governador que implantou um tempo novo em Goiás, e coeso a seu favor o grupo que o carrega de eleição em eleição. Em tempos difíceis, isso é fundamental.

Como no final do ano, com as rebeliões nos presídios do Estado, uma viagem à praia fora de hora e a troca de farpas com o ministro da Justiça por conta de verbas federais destinadas a Goiás e não aproveitadas pelo governo. E como nas denúncias que apontam uso de dinheiro público da Saneago em campanha do PSDB.

Nesses dois episódios, o esforço para defender o governador e o governo foi grande, e conjunto. O que deixaram claro: se Eliton é herdeiro político de Marconi para o bem, é na mesma medida quando os fatos vão mal; se um precisa do outro para pedir voto, o outro precisa do um, com o governo em mãos, para defendê-lo e sustentá-lo numa guerra em que estará em jogo não os nove meses que virão, mas os quase 20 anos que se foram.

Na campanha, a expectativa é esta: a disputa não será Zé Eliton contra Caiado, Daniel Vilela (MDB) e/ou outros nomes, e sim todos contra Marconi e o seu legado. Zé Eliton terá de defender este legado, mas pode ser que tenha, ao mesmo tempo, de se defender dele. Os dois estão juntos e misturados. Pra ganhar… ou não.

Marconi e Eliton: se um precisa do outro para pedir voto, o outro precisa do um, com um governo nas mãos, para defendê-lo numa guerra em que estará em jogo os quase vinte anos de poder e seu legado implantado em Goiás
Marconi e Eliton: se um precisa do outro para pedir voto, o outro precisa do um, com um governo nas mãos, para defendê-lo numa guerra em que estará em jogo os quase vinte anos de poder e seu legado implantado em Goiás

Ironia ou fatalidade?

Zé Eliton era advogado do Democratas quando o partido esteve com um pé na chapa do PMDB de Maguito Vilela para o governo, em 2010. Seria o fim da base aliada do governo, que só não aconteceu porque o então senador Demóstenes Torres, no auge de sua popularidade, forçou um acordo com o candidato Marconi Perillo (PSDB), levando junto o deputado federal Ronaldo Caiado. Para ficar, Caiado indicou o vice, Zé Eliton, e foi fazer campanha à parte.

Já então Caiado sonhava ser governador. Ironia – ou fatalidade: antes dele, chegará ao governo quem ele indicou. Mais que isso: pode este mesmo indicado ser aquele que o impedirá de realizar o seu sonho. Caiado e Eliton se distanciaram quando o senador, em litígio político com Marconi, quis que o vice rompesse, em seu favor, com o titular.

Eliton considerou que fora eleito por ação do próprio Caiado para ajudar a governar, e não para fazer oposição. Ficou. Foi para o PP e, depois, para o PSDB. Demóstenes, cassado, está de volta à base governista e também longe de Caiado. Este ano, mais que a disputa DEM/MDB X PSDB, poderemos ver nas urnas o encontro entre criatura e criador.

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