Entre o mito e o real

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Jorge de Lima
Jorge Monteiro

Algumas percepções sobre o cenário político Brasileiro da atualidade

Hoje assistimos os fatos narrados por inveracidades, os conflitos entre discursos políticos, judiciário, na guerra entre oratórias. Brasil dividido entre militâncias em plena cisão arquetípica, na falta de diálogo, no acirrado jogo de interesses. De um lado, a pseudo militância da outrora esquerda; do outro, forças ocultas que tramam ardilosamente… Mas quem são estas forças ocultas tão anunciadas destituídas de nome próprio?

A cisão arquetípica vivenciada nos meandros da política não é nova, outrora foi anunciada no radicalismo das militâncias que transformaram opositores em inimigos de morte, o que é um risco para a democracia na proporção que selam, no ambiente político a dificuldade de diálogo e de organização da oposição ao poder vigente. E a serpente sucumbe ao próprio veneno…

mito se anuncia desvelando a tragédia anunciada, e o drama arquetípico exige seu quinhão. A arte imita a vida. O estudo dos mitos serve como um oráculo dos fatos vindouros. Nossa  realidade evidencia o surgimento do arquétipo do bode expiatório, do ser sacrificado, do herói vítima, o traído que se traiu em conluios, conchavos, a vã tola inocência inadmissível nos meandros da corja política. A tolice de dar a cara a bater e reclamar depois do tapa posto.

Falo do drama atual que em um momento transforma seres humanos em divindades, caso do ex-presidente Lula, eleito como o salvador da pátria, e que agora passa de salvador ao papel de bandido… julgado, sentenciado e talvez executado. Mas como cantava Renato Russo: “quem é o inimigo? Quem é você?”.

Os mitos nos ensinam sobre a vida e a temática da traição vem da serpente e Eva no banimento do paraíso; enamora Caim e Abel no enlace da inveja; vitimiza Sócrates e o gole de cicuta; beija Jesus por 30 moedas; e relembra dentre vários mitos e lendas, em especial a querela de Otelo, o Mouro de Veneza, de Shakespeare, em  1603. O tema arquetípico atual da política brasileira é o da traição, vingança, disputa de poder, ódio elevado pelo amigo inimigo com quem se deita, janta, se prostitui, se vende e ao virar as costas, é facada.

Quem é este ser que encena o papel de inocente, tolo, o último que sabe que será traído? Quem nega a própria sombra? Quem é que se deita com o inimigo esperando vantagens? Quem  foi que traiu a própria ideologia outrora de esquerda? Quem traiu os discursos, como o da proposta de distribuição de renda, reforma tributária, administrativa, política, eleitoral, do judiciário?

Quem é que diariamente trai o povo e suas necessidades? Quem pode vestir a carapuça de Caim ou de Iago nesta atualidade?

No drama arquetípico de um bode expiatório, um elemento mítico se deflagra: uma vítima será sacrificada para conter a ansiedade coletiva, que hoje é anunciada na recessão, na ânsia de ética, no ajuste de contas entre o prometido e não cumprido, no esfacelamento e distanciamento dos movimentos sociais, no descumprimento de um processo ideológico vendido ao neo liberalismo de forma escancarada.

A conta esta posta à mesa. Recessão, inflação, aumento do combustível e das tachas de energia e água, desemprego, destituição dos direitos trabalhistas, explosão da violência urbana, elevação de toda carga tributária e endividamento da população com o exorbitante lucro de banqueiros, de grandes grupos financeiros, montadoras, empresas de telefonia. No Brasil pequenos grupos lucraram muito nos últimos 20 anos, efetivando uma distribuição de renda na qual ricos ficaram bilionários e classe média e baixa endividadas.

O drama mítico não se esvai por oratória ou discursos por que existe uma forte tensão no ar advinda do inconsciente coletivo. A tensão social existente entre crenças e a necessidade de um deus redentor, que venha para nos salvar – projeto do estado brasileiro que denota nossa infantilidade – mingua por que o rei posto é o mesmo que se trai e nos remonta ao drama de édipo, ou é revisitado em Otelo… A vivencia da peste econômica nos exige o sacrifício do rei, do arauto do poder, que será imolado pelo ímpeto de suas próprias ações. O preço a se pagar pela disputa de poder… uma tragédia anunciada um drama Getuliano revisitado de fim em roteiro previsível… A redenção social no alívio por um sacrificado que antes de se trair, trai sua própria ideologia…

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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