Entrevista | “Nunca a oposição teve tanta chance de ganhar (em Goiás)”

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Elias Vaz – Vereador por Goiânia

Vassil Oliveira

Clique aqui para ler a entrevista em PDF
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O vereador Eliaz Vaz é de um partido da base do governo estadual, mas defende apoio a um candidato a governador da oposição. O PSB não só está na estrutura de apoio ao governador Marconi Perillo (PSDB), como vai integrar o novo governo, que está sendo montado pelo vice, José Eliton (Marconi anunciou que renuncia em abril), desde já candidato à reeleição. Tudo como parte de um trabalho de bastidores que tem como foco assegurar à sua presidente, a senadora Lúcia Vânia, espaço na chapa majoritária da base como candidata à reeleição. Elias antecipa outro apoio que bate direto com os interesses da base governista: a Jorge Kajuru como candidato ao Senado. Nesta entrevista, ele fala também sobre a administração do prefeito Iris Rezende (PMDB) e o pedido de afastamento do presidente da Câmara, Andrey Azeredo (PMDB). Acompanhe.

Tribuna do Planalto – O PSB está na base do governo estadual, de Marconi e Eliton, mas líderes do partido dialogam com Daniel e Caiado e há a possibilidade de formação de uma frente de esquerda com PT. Na eleição para governador, para onde vai o PSB?
Elias Vaz –
Com relação à candidatura da base do governo, capitaneada pelo governador Marconi Perillo, há um esgotamento claro do ciclo. Qualquer nome que esse bloco lançar está fadado a ser derrotado. Já em relação ao senador Ronaldo Caiado, há uma performance momentânea com certa força, mas não tem consistência, ele deve entrar no processo eleitoral com queda do percentual de intenção de voto. O Caiado não tem musculatura, não tem nem a máquina governamental nem estrutura partidária. É uma candidatura frágil, que não representa a tradição do povo goiano de votar em candidatos mais de centro e não de direita. Com relação ao PT, o melhor desempenho do partido em Goiás, na época da onda do Lula, não passou de 17% do total de votos. Depois de toda a crise que o PT enfrentou nacional e regionalmente, com a prefeitura de Goiânia, que foi muito questionada, é muito difícil o partido se destacar nessas eleições. Defendo que o PSB aprofunde o diálogo com Daniel Vilela (MDB). Não comungo de todas as posições políticas do deputado Daniel, mas é uma candidatura que significa oxigenação da política goiana. Tudo tem dono, esses grupos que ficam muito tempo vão se apropriando da estrutura governamental, então é preciso ter renovação, faz bem para o Estado.

E se o PSB for noutra direção?
Tenho conversado bastante dentro do partido e respeito muito a trajetória dos dirigentes do PSB, particularmente da senadora Lúcia Vânia, uma senadora que respeito, com uma história inquestionável e que vou apoiar se for candidata a governadora ou à reeleição, que é a tendência. Mas nunca fui base de sustentação do governador. Quando entrei no PSB, o partido estava lançando a candidatura do Vanderlan, contra esse governo. Continuo com a mesma posição.

O PSB no governo significa que Lúcia Vânia será candidata ao Senado junto com Marconi?
É muito cedo para dizer isso. A senadora nem tem obrigação de se posicionar agora, acho que o partido vai esperar um quadro mais consistente para tomar uma posição. Eu gostaria que o PSB caminhasse em outro sentido, mas é uma possibilidade concreta até pela relação histórica de alguns dirigentes com o governo atual. Mas isso ainda não está fechado.

O momento é de virada política no Estado?
Penso que sim, a sociedade quer mudança e nunca a oposição teve tanta chance de ganhar as eleições. Embora Caiado seja uma referência de oposição, não é novidade, então ele não consegue atender esse quesito que vai tensionar muito até o dia das eleições. Por isso considero a candidatura do Daniel Vilela a que tem mais chance de sair vitoriosa nesse processo.

Há previsão de disputa forte para governo. E para o Senado?
A eleição está indefinida, ainda nem sabemos quem será candidato. Apoio Lúcia Vânia, que tem toda a autoridade para continuar sendo senadora, se decidir isso. E defendo também renovação. Jorge Kajuru se cacifa com condições reais de ganhar a eleição e, se for candidato, terá o meu apoio.

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O sr. planeja ser candidato este ano?
Há uma possibilidade real de que eu saia candidato a deputado federal. É uma discussão que estou fazendo internamente, com a própria senadora, com o Vanderlan e com amigos.

Iris será bom cabo eleitoral este ano?
O melhor cabo eleitoral é o cansaço do governo Marconi, é o esgotamento desse ciclo do PSDB. Se a oposição souber se apropriar com inteligência dessa situação, esse vai ser o grande cabo eleitoral. O Iris está enfrentando grandes dificuldades em Goiânia, mas o PSDB também tem um desgaste enorme na capital.

A Câmara de Goiânia cria problemas para Iris? Está sendo muito dura? Ou não?
O papel da Câmara de Vereadores é de independência. A administração do Iris tem sido pífia. E falo isso porque comparo o Iris com o Iris. Fui vereador com o Iris em 2005, tive divergências, como quando ele acabou com o Cidadão 2000 e em outras questões, mas sempre reconheci publicamente que ele fez uma boa gestão. Mas Iris não está conseguindo reproduzir essa administração. Por mais que ele queira jogar a culpa no falecido ex-prefeito Paulo Garcia, passou um ano e muita coisa piorou, como a Saúde, o transporte, a Educação. As ruas estão tão esburacadas quanto antes. Essa administração continua patinando.

O que falta a Iris?
O grande problema dessa administração é não ter montado uma boa equipe de governo. Se você for comparar o secretariado que o Iris teve na gestão anterior como prefeito, era uma equipe muito mais eficiente. Esse negócio de falar que o prefeito é bom e o secretariado é que não presta é uma falácia porque quem forma o secretariado é o prefeito e, se ele não consegue montar a equipe, ele não sabe governar. O Iris é muito centralizador e não tem mais o mesmo vigor. A postura centralizadora dele acaba contribuindo para emperrar a máquina. Converso com muitos secretários que reclamam que decisões não são tomadas, para gastar mil reais precisa ter autorização… E isso atrapalha muito. A dinâmica de uma cidade que tem quase 1,5 milhão de habitantes não pode seguir essa lógica ultrapassada.

Porque o sr. e outros vereadores pediram o afastamento do presidente Andrey?
A Câmara Municipal aprovou no fim do ano passado uma lei que impedia a continuidade dos aumentos de IPTU e a prefeitura conseguiu uma liminar contra a lei, que precisava ser referendada pela Corte do Tribunal de Justiça. Dois dias antes da sessão, eu procurei o presidente e ele garantiu que haveria a defesa. Conversei com a Procuradoria da Câmara e chegamos até a discutir uma linha de defesa. Faltando meia hora para a sessão, recebi uma mensagem do presidente informando que a procuradora chefe queria conversar comigo com urgência. Ela me disse que não haveria sustentação oral. Achei absurdo porque a procuradora do Município fez a sustentação e a posição da Câmara ficou prejudicada. O presidente está alegando que estava afastado na época, mas qualquer ato administrativo deve seguir o princípio da publicidade e não vi esse documento publicado em lugar nenhum. Conversei com o presidente e em nenhum momento ele me informou isso. Se ele alega que quem tinha que tomar a decisão era o Vinicius (Vinicius Cirqueira, vice-presidente da Câmara), eu poderia ter tratado com ele. É muito estranho só agora surgir esse argumento. O presidente também tem dito que a Procuradoria tem autonomia. Não é assim. As procuradorias defendem os atos dos órgãos onde atuam. A procuradora do Município, por exemplo, não pode dizer que é contra o aumento do IPTU e não defender a cobrança.

Mas e o pedido de afastamento?
O presidente da Câmara foi negligente e o Regimento Interno diz que, nesses casos, cabe o afastamento por omissão. Então nós pedimos a destituição dele e ele terá que instalar uma comissão processante, formada por três vereadores escolhidos por sorteio, que vai decidir se arquiva ou aceita o pedido. A Câmara Municipal não pode ser subserviente ao Executivo. A presidência da Casa não soube respeitar a posição da maioria.

O PSB deve lançar candidato a presidente?
Tem nomes que foram colocados como possibilidade real, como o Beto Albuquerque, que é do Rio Grande do Sul, o Aldo Rebelo, que recentemente se filiou ao PSB, e o Joaquim Barbosa, que também pode sair candidato.

O Brasil era de esquerda e ficou de direita de repente?
O grande crime do governo do PT foi afetar o que é a referência de esquerda porque certamente a história da esquerda não tem como referência essa relação promíscua que foi estabelecida com o Congresso Nacional, de corrupção, essa parceria nacional que fizeram com o PMDB e que custou caro e, principalmente, na questão da política econômica que não mudou praticamente nada na gestão do PT, continuou atendendo as elites. O tratamento que os bancos receberam é um sintoma disso. O próprio Lula chegou a dizer que nunca na história desse país os bancos ganharam tanto dinheiro. Não foi pra isso que nós elegemos um governo de esquerda. Eu apoiei o Lula na primeira eleição dele. E, ao final de oito anos de governo, tivemos menos assentamentos na luta da reforma agrária que no governo Fernando Henrique, é vergonhoso. O engajamento histórico que a esquerda tinha em questões como essa foi jogado na lata de lixo. Outro exemplo é a democratização dos meios de comunicação, quando o PT reproduziu o sistema digital que a Globo queria, renovou concessão sem nenhuma exigência para depois ficar se lamentando que a Globo é golpista. O PT teve várias oportunidades de mudar um pouco esse país, inclusive na relação com o Congresso, e não estabelecer mesada por mês para ter voto contra a sociedade. Isso mexeu muito com o que é esquerda e o que é direita. Tenho como projeto de esquerda aquilo que é progressivo rumo a uma sociedade mais justa e continuo reivindicando isso.

Há esperança para Goiás e o Brasil?
A esperança sempre existe. Sou muito otimista, mas, apesar de estarmos numa situação difícil, penso que as crises servem para a gente ter renovações e sair lá na frente mais fortalecido. É preciso romper com essa mesmice que nós temos hoje. Dentro de vários partidos políticos você vai encontrar muita gente séria, coerente, que tem consistência, mas percebemos hoje que o Congresso Nacional, na sua maioria, não tem sintonia com a sociedade. O que espero é que a população perceba isso e procure renovar escolhendo pessoas que tenham esse compromisso.

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