Depressão e vida sedentária – E agora, José?

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Jorge de Lima
Jorge Monteiro

José tem depressão há mais de dez anos. Reclama muito. Diz ter dores por todo o corpo. Pontadas no peito são frequentes. Chora e cai em profunda tristeza. Vive apático. Seu “encosto” é o sofá da sala. O desânimo é permanente. Às vezes, quando alguém insiste em conversar, José balbucia, e muitas vezes não é compreendido. Vive angustiado.

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta. E agora, José?”*

Casos como os de José são comuns. Mas algo muito importante não é esmiuçado em boa parte dos tratamentos que só levam em conta o aspecto medicamentoso e a psicoterapia, a saber: o sedentarismo. Pacientes com depressão com vida sedentária tornam-se facilmente vulneráveis a depressão grave. Respondem menos a tratamentos. É o que tenho percebido em meus estudos e na prática profissional.

“Está sem mulher, está sem carinho, está sem discurso, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou. E agora, José?” *

À medida em que a nossa civilização mudou seu paradigma produtivo, à medida em que o ser humano passou a exercer menos atividades com o corpo, trabalhando ‘mais’ com a cabeça, e à medida em que se passou a usar mais a tecnologia a serviço de ‘desgastar menos’, trazendo ‘mais qualidade de vida’, nos tornamos mais sedentários. Hoje em dia gastamos muito menos energia que outrora. O esforço físico tornou-se uma ginástica de dedos.

Por outro lado, na área de saúde, epidemias cresceram avassaladoramente: obesidade, diabetes, problemas circulatórios. No campo da saúde mental, todas as patologias ligadas aos transtornos de ansiedade dispararam em número de vítimas: pânico, depressão, fobias. Seria um acaso? Teria a mudança de estilo de vida uma ligação direta com o aumento das epidemias associadas a ansiedade?

Como muitos estudos na área de saúde mental voltaram-se exclusivamente para a bioquímica cerebral, descartaram uma visão mais ampla do fenômeno de qualidade de vida na etiologia de processos psicopatológicos. A visão unidirecional jogou no lixo aspectos complementares aos tratamentos, que são de crucial importância. Dentre eles a atividade física.

“E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, minas não há mais, José, e agora?”*

Em casos de depressão ou transtorno de pânico, posso afirmar o seguinte sobre pacientes que aderem ao tratamento integrado (medicamento, psicoterapia e atividade física: melhoram de forma acentuada, enquanto pacientes de vida sedentária, que se recusam a ter qualquer tipo de atividade física, muitas vezes ficam estagnados.

Pacientes com depressão que fazem uma atividade aeróbica por 50 minutos diários deixarão de sentir, ao final de 10 dias em média, dores físicas generalizadas. Os pacientes com atividade física dormem melhor à noite, têm menos indisposição, reagem melhor ao uso dos medicamentos, ganham vitalidade e até melhoram a libido.

Em um mundo mecanizado o problema do sedentarismo não é atributo exclusivo dos pacientes com depressão ou pânico. Todavia, nestes casos as pessoas que não mudam seu estilo de vida, os que não buscam agregar atividade física aos tratamentos convencionais, dificilmente melhoram.

Independentemente de depressão, a apatia já é um atributo de indivíduos com vida sedentária. A falta de amor próprio, a preguiça, o desleixo com o corpo, o desânimo, a falta de vontade, tudo isso são atributos de uma pessoa sedentária. Todos esses sintomas agravados equivalem a um quadro de depressão.

“Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse, mas você não morre. Você é duro, José! Sozinho no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José, José, para onde?”*

Nosso cotidiano agitado, perdido na hipervelocidade tecnológica hiperestimula, por outro lado, a vida sedentária. Um paradoxo interessante. O estímulo da incompetência pela possibilidade falha da não realização do tempo.

Essa é, em parte, a base da vida sedentária: tentar para quê?

*Trechos de poema de Carlos Drummond de Andrade

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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