Educação transformadora

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Com as notas alcançadas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aluno de escola estadual em Itumbiara conquista vagas em instituições federais e já se prepara para estudar no exterior

Maria José Rodrigues

Mencionado como irmão de Manassés e um dos filhos de José no livro do Gênesis e no Velho Testamento,  é um nome de origem hebraica que, ao pé da letra, significa frutífero, fértil ou aquele que multiplica. Muitos não acreditam na influência do nome sobre a pessoa que o recebeu, mas no caso de Efraim Almeida Fernandes é muito difícil desconsiderar esse fato.

Em poucos minutos de conversa com o jovem é impossível não se impressionar com a sua inteligência, o poder de sua oratória e desenvoltura de sua argumentação. Ele conversa sobre tudo e demonstra um bom conhecimento do que fala, características que impressionam pela tão pouca idade.

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Efraim acaba de concluir o Ensino Médio no Colégio Estadual Damores do Amaral Medeiros, em Itumbiara, e com as notas alcançadas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) conquistou uma vaga para os cursos de Biomedicina no Instituto Federal de Goiás (IFG) de Jataí e de Engenharia Agrícola e Ambiental na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Rondonópolis.

O jovem, que em novembro do ano passado completou 18 anos, passou boa parte de sua vida entre as cidades de Itumbiara, onde moram seu pai e sua mãe, e Rondonópolis (Mato Grosso), onde reside a maior parte de sua família materna. Mas nem mesmo a constante troca de escolas na infância e adolescência foi capaz de prejudicar o processo de aprendizagem do estudante. Aliás, segundo ele, foi justamente essa imprevisibilidade que, em vez de desanimá-lo, o tornou ainda mais motivado a estudar.

“Meu pai chegou a morar na rua e depois foi trabalhar como feirante. A política dele era mudar de cidade em busca de melhores oportunidades. Por muitos anos, isso foi uma constante em nossas vidas e, com isso, eu não tinha muito tempo para fazer amigos no colégio. Foi para não me sentir tão sozinho na adolescência que eu decidi dedicar a maior parte do meu tempo aos estudos”, explica Efraim, que se prepara para integrar, em breve, uma das turmas da UFMT.

Um dos três filhos do casal formado por uma costureira e um eletricista, Efraim conta que optou por Engenharia Agrícola e Ambiental influenciado por dois motivos principais: as boas perspectivas da carreira profissional, já que o mercado do agronegócio é “gigantesco no Centro-Oeste”, e a história de sua família materna.

De acordo com o estudante, seu bisavô e a esposa chegaram ao Norte do Mato Grosso bem no início do processo de colonização. Efraim cursou o 1º ano do Ensino Médio em Rondonópolis e os outros dois no C. E. Damores do Amaral Medeiros. Foi nessa instituição educacional que ele diz ter encontrado a equipe de professores mais dedicada e comprometida de sua vida escolar. E por isso, ele faz questão de destacar o poder de mudança e transformação que um professor tem na vida de seus alunos.

“A escola foi um solo fértil para mim. Eu não teria chegado aonde cheguei se não fosse o apoio dado por minhas professoras e pela coordenação pedagógica. Foram elas que perceberam meu potencial e me incentivaram a melhorar cada vez mais. Elas faziam o melhor que podiam dentro das condições de trabalho que tinham. Em troca, eu tinha comigo que a única forma de recompensar tudo isso seria estudando e crescendo. Penso também que somente através dos estudos é que poderei dar melhores condições de vida para minha família, de origem muito humilde”.

Agente jovem de futuro

Além da dedicação aos estudos, Efraim decidiu também participar ativamente da gestão e do cotidiano de sua escola e por isso se tornou um dos Agentes Jovens do Programa Jovem de Futuro (PJF), do Instituto Unibanco. O programa reúne todos os anos, em Pirenópolis, mais de 600 lideranças estudantis – todos alunos da rede pública estadual – para troca de ideias e capacitação. Ele conta que o contato com esses jovens, com ideias e metas afins, foi uma motivação ainda maior para que ele voltasse à sua escola e fizesse a diferença.

Prestes a iniciar sua vida como universitário, Efraim revela ter um grande sonho: estudar fora do país. Em 2017, essa meta o levou a conhecer, por meio de uma rede social, um grupo de jovens de diferentes Estados brasileiros que tem o mesmo objetivo. A partir desse contato surgiu a ideia de criar uma entidade não-governamental que pudesse promover um maior engajamento dos estudantes de forma a estimulá-los a estudar mais, participar de olimpíadas de conhecimento e incentivá-los a ir atrás de bolsas de estudos no exterior.

Foi assim que surgiu a Adsumus (termo do Latim que significa “estamos presentes e juntos”), associação presidida por ele e que tem como integrantes jovens do Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. Entre eles, uma já conseguiu realizar seu sonho e hoje estuda nos Estados Unidos com bolsa.

Conforme Efraim, a previsão é começar a desenvolver o trabalho da Adsumus já neste semestre e uma das primeiras ações será estimular a maior participação dos alunos da rede pública em olimpíadas como as de robótica, física, matemática, português, astronomia, entre outras.

Sobre o que o move neste sentido, Efraim diz que seu desejo é dar aos jovens do Ensino Médio a oportunidade que ele não teve, seja por falta de informação ou de condições de pagar a taxa de inscrição. A ideia dele é buscar apoio financeiro na iniciativa privada para que um número cada vez maior de alunos possa garantir a sua participação nessas olimpíadas, onde há predominância de estudantes da rede privada.

De olho numa bolsa de estudos no exterior, Efraim já se inscreveu no projeto Aplication da Fundação Estudar, que garante a jovens de baixa renda a oportunidade de estudar fora. Para aumentar suas chances, ele diz que tem dedicado boa parte de seu tempo estudando inglês.

“Em breve serei aluno de um curso promissor em uma instituição com ensino de excelência. Me sinto cada dia mais perto da felicidade plena”.

 

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