Cineasta indígena é tema de documentário

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Foto: Internet

O que é ser mulher indígena cineasta? O que as imagens produzidas por uma mulher indígena podem causar, combater ou afirmar? Essas foram algumas das perguntas que nortearam o caminho da pesquisadora e artista visual goiana Sophia Pinheiro em direção a cineasta Patrícia Yxapy, de Mbyá-Guaran, em São Miguel das Missões, mais de 700 km de Porto Alegre (RS). O encontro resultou em uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e em um documentário sobre o elo artístico entre a pesquisadora e a cineasta. O vídeo “A imagem como arma” será exibido hoje (16) no Museu Antropológico da UFG, às 19 horas.

Sophia Pinheiro é pesquisadora e artista visual. Patrícia Yxapy é professora na aldeia e cineasta. Ao construir narrativas audiovisuais, Patrícia ficcionaliza sua história e exerce um espaço de liderança por meio de seu trabalho, afirma Sophia. Para a pesquisadora, as suas semelhanças, mais do que as suas diferenças, foi a grande surpresa da pesquisa. “Ela tem uma questão com o corpo meio crônico, quase uma doença, e eu também. Percebemos que as nossas trajetórias de vida são muito parecidas. Criadas por mães solos, pais ausentes, somatização de doenças nos corpos. A partir desse encontro eu fui acessando também a minha espiritualidade e o meu processo de cura”, conta.

Para fazer a pesquisa, Sophia deixou um celular com Patrícia para que se comunicassem por meio de vídeos e imagens. “Como estávamos longe, essa era uma forma de me aproximar dela, por meio de textos, desenhos, fotos, vídeos”. Os diálogos presenciais e virtuais resultaram na pesquisa que discute o cinema realizado por mulheres indígenas, e também possibilitaram a produção de um documentário sobre o vínculo estabelecido entre elas. “O nosso filme é a nossa relação. Ela me filma, eu a filmo, trocamos impressões e imagens. A gente se constrói na relação. Foi um caminho também artístico”.

Pesquisa

Ser mulher indígena e cineasta, as particularidades da produção audiovisual indígena feminina e suas consequências, assim como a diferença em relação à produção indígena masculina foram debates levantados pela pesquisa da UFG. Assim como explica Sophia Pinheiro, uma mulher indígena cineasta resiste e ultrapassa um cenário não favorável às mulheres e ainda mais às indígenas. “Ser mulher indígena cineasta é conseguir conciliar o tempo junto as suas demandas cotidianas, é vencer a intimidação, o medo, a vergonha”.

Trata-se de uma produção audiovisual extremamente ligada à identidade étnica, explica a pesquisadora. “É muito importante que elas estejam nesse lugar, produzindo filmes e material artístico, porque elas trazem luz a algumas questões básicas, que são colocadas como segundo plano pelas narrativas hegemônicas”. Entre os temas, a casa, a gravidez, a maternidade, a criação dos filhos, o corpo, a alimentação, e os rituais feitos apenas por mulheres. “Normalmente, vídeos realizados por homens indígenas discutem a espiritualidade, a política, a confraternização social. As produções de mulheres mostram um outro lugar que a gente não conhece tanto sobre o universo indígena”, afirma.

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