Ensaio | A política da poeira

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Eliton, Caiado, Daniel vivem turbulência na formação de alianças. Mas é preciso ver além de outubro – e do visível eleitoral

Vassil Oliveira

Em julho, com as convenções, a poeira terá baixado e, entre mortos e feridos no campo de guerra das negociações, saberemos quem está com quem, e quem ficou contra quem. Até lá, o que há é poeira. E este talvez seja o ápice da poeira revolvida: todos estão buscando caminhos, e se estão buscando é porque estão sem direção, não sabem para onde ir.

PSDB e a oposição em Goiás, representada por DEM e MDB, têm candidato a governador em Goiás. Pela ordem: Zé Eliton, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela. Mas não têm certeza de nada. Os três lutam pela mesma causa, e ela ainda não é a conquista do governo: é a causa própria da conquista do direito de ser candidato.

Zé Eliton tem a vantagem de despontar há muito como nome de uma base forte, a governista. E, como adicional competitivo, contabiliza o fato de assumir, em abril, o governo, o que lhe dará mais visibilidade e mais poder para costurar alianças. E só. O resto é caos.

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Sua base partidária está em convulsão estadual e nacional. PTB, PSD, PSB, PR e PP, os partidos médios da aliança, ostentam em comum a absoluta coerência com o objetivo eleitoral, com o pragmatismo das urnas. O que abre porta com todos, esquerda ou direita, pouco importando o detalhe ideológico.

E o mesmo princípio prevalece na oposição. Ronaldo Caiado conversa com praticamente todas as legendas, e o parâmetro de aliança segue o princípio básico da necessidade de se eleger deputados como forma de permanecer vivo em Brasília a partir de 2019 (a cláusula de barreira é só um dos pontos fora do curva), e da trincheira mínima para o mesmo fim: outubro.

Daniel Vilela segue perfeitamente a sina dos novos que, para sobreviver e avançar no jogo político, precisam manusear com competência e zelo as velhas armas da velha política, sob o risco de serem afogados no discurso da renovação que nunca reflete, na prática, o exercício tático das urnas.

A poeira encobre a visão de uns, cega outros, e serve para a manobra que, já sem ela, é de bastidores por essência: a organização da disputa com a configuração dos grupos de jogadores. Mais objetivo do que buscar clareza no que acontece, está em observar como o pó se ajeita. Como ele assenta, e onde, e como.

Aos poucos, é possível perceber não a acomodação de tudo, mas os contornos de como ela vai se estabelecendo. Por que este partido ficou com o governo; por que o outro foi para a oposição; por que esta e aquela aliança se formaram. Isso importa porque é o que mostra o horizonte verdadeiro da política, aquele que vai além de outubro.

Revela como será feita a distribuição do botim. Os verdadeiros ganhadores ou derrotados são os que perdem espaços de poder, e não os que eventualmente ‘deixam de ganhar’ no voto. Eleição não é retilínea nem cristalina. É retrato com poeira encobrindo as verdadeiras intenções.

Essa outra disputa é que define tudo, da política do pré-sal à economia do sal no coxo, na mesa, no sanduíche. Só se torna visível quando se divisa o invisível no jogo de interesses.

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