Entrevista | “Os prefeitos que apoiaram Caiado nem deveriam estar no partido”

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Clécio Alves – Vereador

Fagner Pinho

O vereador Clécio Alves, ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, soltou, literalmente, os cachorros contra os prefeitos emedebistas Adib Elias (Catalão), Ernesto Roller (Formosa), Paulo do Vale (Rio Verde), Renato de Castro (Goianésia) e Fausto Mariano (Turvânia), e contra o deputado José Nelto (MDB), que anunciaram publicamente apoio à candidatura do senador Ronaldo Caiado (DEM) ao governo estadual. Para ele, o posicionamento do grupo foi inoportuno, uma vez que o partido conta com um candidato próprio, o deputado federal Daniel Vilela. Clécio, que confirmou sua candidatura à Assembleia neste ano, defende a saída dos prefeitos e do deputado da sigla nesta entrevista concedida à Tribuna do Planalto. Confira.

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Tribuna do Planalto – Qual o balanço do seu mandato, que está terminando? O Senhor vai se candidatar a deputado?

Clécio Alves  – Olha, estou no exercício do quinto mandato consecutivo de vereador de Goiânia. Em um momento político muito decepcionante que o povo vive diariamente, seja na política federal, estadual e municipal, considerando também que de 35 vereadores de Goiânia apenas 13 foram reeleitos. Fui um dos 13 mais bem votados. Poderia ter assumido o cargo de deputado estadual na Assembleia. Tive 18,499 votos em 2014. Com a eleição de Ernesto Roller [prefeito de Formosa] abriu minha vaga, mas optei por continuar aqui na Câmara como vereador, com vencimento 130% menor, com gabinete dez vezes menor, porque entendi que Goiânia precisava mais de mim e como, de fato, está precisando. Porque Goiânia está em uma situação muito difícil. Agora, entendo que o momento político nunca foi tão bom, mas tão bom para se fazer política boa, quanto este momento. O político que não tem sujeira em seu passado, o político que não tem nenhum arranhão em suas ações políticas, o político que não virou as costas para o povo, o político que tem uma sintonia com o povo, que o povo tem afinidade e ligação com ele de forma facilitada, acredito que ele será um diferencial este ano nas eleições. Com relação a nossa pretensão de disputar mais uma vez a candidatura de deputado estadual, eu sou, sim, pré-candidato. Naturalmente, a convenção do partido que vai decidir, mas nós estamos conversando, ouvindo as pessoas e buscando aliados e apoiadores para que possamos ser vitoriosos nesse projeto, que, na verdade, meu projeto principal é ser prefeito de Goiânia. Sempre falo: ainda vou ser prefeito. Aliás, já fui prefeito de Goiânia, só dez dias, mas fui, substituindo o prefeito institucionalmente. Mas para isso, é preciso ter as etapas e eu estou trabalhando com toda a convicção para que este ano a população decida aquilo que for melhor para a política.

“Sou contra a penalização, seja de aumento de IPTU, seja pela criação de qualquer taxa. É por isso que Iris está meio aborrecido comigo, porque me posicionei contra e vou continuar contra isso”

Em 2014, um dos pontos que o sr. apontou como fato de ter ficado com suplência na Assembleia foi a questão do IPTU, que o sr. colocou como votação, e Marconi teria se aproveitado…

Na verdade, não coloquei projeto de IPTU para votar. O governador Marconi Perillo, covardemente, se aproveitou do último debate do primeiro turno das eleições, onde já não tinha mais propaganda eleitoral e horário eleitoral, para imputar a mim uma acusação irresponsável. No debate com o prefeito Iris, à época candidato a governador, ele disse: “Olha, Iris, você precisa falar para o seu líder maior, o vereador Clécio Alves, para não fazer o que ele fez, o presidente da Câmara, aprovar na calada da noite um aumento de 400% no IPTU para o povo de Goiânia pagar. Não faça isso”. Primeiro, não tinha projeto de aumento de IPTU aqui. Ele faltou com a verdade. Segundo, se tivesse projeto, eu não votaria, eu era presidente. Então, isso me custou o mandato que eu tinha garantido. Só em Goiânia, deixei de ter uns dez mil votos.

Mas hoje o sr. trabalha contra o IPTU por conta daquele episódio?

Não, eu já trabalhava contra o aumento lá mesmo, antes da eleição de deputado. Eu era presidente aqui. Aliás, isso só não foi aprovado porque eu não deixei, bati na mesa à época e tudo. Depois que deixei a presidência, o ex-prefeito, falecido Paulo Garcia, comprou os vereadores, pagou, pagou preço, dando unidade de saúde para indicação de vereador, montou uma base de negociação, transformou a Prefeitura em um balcão de negócios, e montou uma base aqui e a base pagou o preço. Porque só 13 conseguiram se reeleger, 22 não foram reeleitos. Sou contra a penalização, seja de aumento de IPTU, criação de qualquer taxa. É por isso que Iris está meio aborrecido comigo, porque me posicionei contra e vou continuar contra esse tipo de coisa aqui na Câmara.

Não preocupa o fato de Iris Rezende estar aborrecido contigo, ainda mais próximo a uma eleição?

Absolutamente. Primeiro, não sou funcionário do Iris. Sou eleito pelo povo e sou funcionário do povo. Segundo, vim para cá para a Câmara para trabalhar pela melhoria de vida da cidade, tanto que deixei de ser deputado estadual efetivo para estar aqui. Então, não me preocupo. Se o prefeito Iris Rezende não souber compreender, lamento muito.

Nesta semana, alguns prefeitos do partido junto com o líder do MDB na Assembleia, deputado José Nelto, declararam apoio publicamente à pré-candidatura do senador Ronaldo Caiado, do DEM. O sr. teceu críticas. O partido está caminhando para o lado errado?

É claro. Eu disse ontem [quarta-feira]: o deputado José Nelto, que em 2014 ficou raivoso e que queria porque queria expulsar os prefeitos do MDB que não queriam apoiar Iris para apoiar o candidato de outro partido, é o mesmo deputado hoje que está trabalhando, dizendo o contrário aquilo que ele pregava naquela oportunidade. Isso sem ouvir os aliados do MDB, como eu, que sou deputado estadual – só não quis assumir – e sou delegado nacional do MDB. Aí vem o deputado José Nelto com quatro prefeitos, que nunca foram realmente do MDB. Esse prefeito de Catalão é peemedebista, mas é um homem que toda vida foi desagregador. Esse prefeito de Rio Verde é um prefeito que é de tudo quanto é partido, menos do MDB. Nunca vi esse homem levantar o dedo para defender o MDB ou para compor qualquer interesse do MDB. Esse prefeito de Goianésia era do PT e quando o PT estava afundando, ele pulou do barco e montou na garupa do MDB. Virou prefeito de Goianésia porque o MDB é forte lá…

Mas ele já tinha uma ligação, o pai dele era filiado ao MDB…

É, mas ele mesmo não é e nunca foi. Aí, de repente, junta quatro prefeitos, liderados pelo deputado José Nelto, querendo apoiar o senador, que tem o meu respeito. Mas o MDB tem candidato, nosso candidato é o presidente do MDB, o deputado federal e segundo mais votado nas eleições de 2014, Daniel Vilela. Então, esse movimento foi uma afronta, um escarro na cara do presidente do partido e dos companheiros de partido. Todo mundo sabe e conhece as atitudes do deputado José Nelto. Não sou eu que estou dizendo, é a história dele que mostrou. Há poucos dias, o governador Marconi Perillo, na Assembleia, desmoralizou José Nelto. Que credibilidade um homem desse tem para criar um movimento desse? E o senador Ronaldo Caiado que se prepare. José Nelto está traindo nosso presidente, nosso partido, e há pouco tempo, traiu o ex-prefeito Paulo Garcia. José Nelto não tinha espaço nenhum na política, e ele deu oportunidade para José Nelto trabalhar no primeiro escalão da Prefeitura. No primeiro momento que pode, José Nelto traiu e virou as costas para Paulo Garcia. Então, é um tipo de político que não tem meu respeito por essas atitudes. É o tal do fisiologista, é o malandro esperto. Lamentei muito essa posição do deputado José Nelto, e o senador Ronaldo Caiado que se prepare.

Qual seria o critério para a escolha de Daniel Vilela como o nome da oposição hoje?

É um jovem, já foi vereador de Goiânia, deputado estadual, segundo mais votado para deputado federal. Tem uma escola política irretocável, o pai dele já foi vereador, deputado estadual, deputado federal, governador, senador e prefeito. Então, ele tem uma escola de uma política que deu certo, e o nosso partido tem o direito e a obrigação de ter o nosso candidato. E o deputado Daniel Vilela se colocou à disposição para essa finalidade. Agora, não tenha dúvidas, entendo que não somos os donos da verdade, mas ninguém, como José Nelto e quatro prefeitos, tem o direito de, por algum interesse que ninguém sabe qual é, dizer que o MDB é obrigado a ser vice do senador Ronaldo Caiado. Não. Tudo tem o momento certo. A Bíblia diz: ‘tem o tempo para plantar, para ceifar e para colher. Tem o tempo da alegria, o tempo da tristeza e o tempo da política’. E tem o tempo das alianças, que é o segundo turno. Se for possível, prego a nossa união no primeiro turno com o senador Ronaldo Caiado. Agora, se isso não for possível, o senador Ronaldo Caiado tem todo o direito também, assim como Daniel, de ser candidato a governador. Ele construiu e trabalhou para isso. Agora, isso não tira o direito do Daniel. Daniel ser candidato também não tira o direito do senador Ronaldo Caiado. Isso é constitucional. Respeito a candidatura do senador, mas o meu candidato é o candidato do meu partido e o candidato do meu partido é Daniel Vilela, isso agrade ou desagrade quem quer que seja. Então, se houver a possibilidade de a nossa união acontecer no primeiro turno, que seja. Se não, vamos continuar cada um com suas propostas e o povo vai decidir quem é a melhor opção para Goiás. E se houver segundo turno, nós vamos com certeza estar juntos, caminhando juntos com o senador Ronaldo Caiado, com todo esse grupo que está aí, simpático a ele, assim como também sou simpático a ele, respeito a história dele, não tenho aqui nenhuma situação ou motivação que me permita dizer o contrário. Agora, somos um partido que tem capilaridade em todo o município de Goiás, nos 246 municípios, o partido com o maior número de filiados, é o maior partido do Brasil e de Goiás. Então, esse é o nosso propósito, e nós temos o melhor candidato também. É jovem, é preparado, é qualificado, já mostrou isso e vai ser um grande governador. Eu darei todo o meu apoio a ele.

Outro ponto tocado pelos prefeitos é que o governador Marconi Perillo já disse que em um segundo turno hipotético entre Daniel e Caiado, ele poderia apoiar Daniel Vilela. Isso atrapalha a candidatura de Daniel?

Entendo que em política você nunca deve desprezar apoio nenhum.

Mesmo do governador?

Mesmo. É preciso saber em que circunstâncias, em que condições viria esse apoio [do governador Marconi Perillo a Daniel Vilela em um possível 2º turno]. Se for de forma republicana, que o povo possa participar desse acordo, não vejo problema. Agora, dispensar apoio, nós não estamos em condições.

Não atrapalha a força de Daniel como candidato legítimo da oposição?

É por isso que te digo: é preciso saber as circunstâncias que viria esse apoio. Se ele vier de forma republicana, com a luz acesa, transparente como a água mineral e o povo puder participar e ter conhecimento do acordo que está sendo feito, não tenho dúvidas de que está tudo bem, não tem problema. Agora, se for um acordo diferente disso, tenho certeza que tem que ser reavaliado e pensado, e quem tem que decidir isso é o Daniel, no caso, em um momento oportuno.

O senhor defende a expulsão dos prefeitos e do deputado José Nelto do partido?

Eles não deveriam nem estar no partido. Só de fazer o que estão fazendo, a primeira coisa, antes de declarar o apoio ao senador, que eles fizeram e têm o direito de fazer, eles deveriam ter a dignidade de dizer: “Olha, estamos deixando o MDB, porque o MDB tem um candidato – e um candidato que já foi aprovado em todos os municípios nos encontros do MDB –, se somos contra isso, não temos o direito de ficar atrapalhando. Então, dá licença que vamos para outro”. Vá para o DEM, vá para outro partido, vá com Deus. Aqui não tem problema, não tem raiva de ninguém por causa disso, não. Agora, o que nós não podemos aceitar é esse tipo de jogo, esse tipo de situação que estão querendo fazer, e estão querendo fazer a gata parir em cima de quem não pensa igual a eles. Ninguém é obrigado a pensar igual a mim. Então, eles estão querendo que quem pensa que Daniel tem direito e condições de ser o nosso candidato, como eu penso, é obrigado a pensar como José Nelto e esses quatro prefeitos que, na minha opinião, não têm nada a ver com o MDB.

Com atritos com Iris Rezende, o sr. acredita que ele pode ser o único nome que pode fazer essa união ocorrer ainda no primeiro turno, entre MDB e DEM?

O prefeito Iris Rezende é o maior líder político, não só do MDB, mas do estado de Goiás, na minha opinião. Quem pensar o contrário, não entende e não sabe nada de política. Basta ver a história desse homem. Agora, acredito que ele não só tem condições de fazer isso que você está dizendo como deve fazê-lo. Tenho certeza que a partir do momento que nosso partido aprovar na convenção o nome do deputado Daniel Vilela, eu mudo de nome – olha bem o que estou falando – se o prefeito Iris Rezende deixa de apoiar Daniel para apoiar candidato de outro partido, mesmo sendo o senador Ronaldo Caiado, que tem o maior respeito da parte do Iris, como tem da minha. Iris é um homem de partido. Se o MDB é o que é em Goiás hoje é graças ao Iris, deve-se a ele, ele é o responsável por isso. Então, tudo está caminhando para que nosso partido tenha a convenção aprovando o nome do deputado Daniel Vilela. Feito isso, você verá Iris puxando a fila com a gente, seguindo as orientações e liderança dele. Eu torço e acredito por isso.

O momento de agir será depois das convenções?

O momento de agir é agora. É momento de diálogo, é momento de ouvir, é momento de…

“É preciso saber em que circunstância, em que condições viria esse apoio [de Marconi Perillo a Daniel Vilela no 2º turno]. Se for de forma republicana, que o povo possa participar, eu não
vejo problema”

Por que isso já não foi feito?

Essa pergunta tem que ser feita a ele. Mas ele tem feito encontros, tem feito conversações, tem se esforçado. Agora, ninguém pode querer obrigar Iris a chegar a Ronaldo Caiado, que é um senador, um deputado federal de vários mandatos, um homem com história política muito grande, e dizer: “Não, Caiado, você não pode ser candidato, tem que apoiar o MDB” ou fazer a mesma coisa com Daniel. Ele não tem condições e nunca faria um negócio desse. Ele pode ir conversando, dialogando, mostrando que unidos temos certeza que vamos ganhar o governo, absoluta. Eu te digo isso certeza, se estiverem unidos Caiado e Daniel, MDB e DEM, nós vamos ganhar no primeiro turno, isso é certeza absoluta. Agora, se nós dividirmos a chance de ganhar passa a ser menor do que a de perder. Esse é o risco. É importante ser só candidato a governador? É preciso pensar. Se for importante só se candidato a governador, então seja. Agora, se é importante ganhar o governo, vamos ter juízo, tirar a vaidade. Já vi esse filme na eleição passada. Júnior Friboi e Iris foram a mesma coisa. Os dois não cederam e no final o que aconteceu? O governador ganhou. E nós corremos o risco de acontecer a mesma coisa. Outra coisa: essa história de dizer que quem está à frente em pesquisas, por exemplo, agora no mês de março vai ganhar a eleição, Iris quando se colocou candidato tinha 85%, aí colocaram o [Roberto] Balestra que não tinha nem 2%. Ficou tentando e no meio do jogo eles tiraram o Balestra e colocaram o Marconi, com 2%. Marconi virou o jogo e ganhou do Iris. E era uma pessoa desconhecida, era um deputado federal atuante, importante, mas do ponto de vista de disputa com Iris Rezende e ele, a diferença era grande. E mesmo assim houve a inversão na decisão popular. Aconteceu isso com Maguito e Alcides Rodrigues. Alcides começou com menos de 5% e Maguito com 75%. Maguito já tinha sido governador, e bom governador, e viria a ser um ótimo prefeito de Aparecida de Goiânia. Mesmo assim, ele perdeu para Alcides. Então, é preciso que entendamos isso. Ou entendemos isso ou vamos pagar um preço muito alto.

Esse exemplo pode se repetir em 2018? Ou acha que o perfil de José Eliton é diferente?

Tenho certeza que o governador Marconi Perillo é um homem inteligente, que sabe articular e já provou isso, ninguém é governador quatro vezes por acaso. Ele vai fazer de tudo para fazer seu sucessor. Essa resposta responde a sua pergunta.

O sucessor será José Eliton mesmo ou o sr. acredita que a base ainda pode mudar?

Não sei. Eu não participo…

Digo em referência a sua experiência política. 

Veja bem, te dei um exemplo de 1998, quando o candidato escolhido da base era Roberto Balestra. No meio do jogo, eles tiraram e colocaram Marconi. Isso cabe a eles decidirem. Agora, duvido que o vice-governador hoje, que a partir do dia 7 de abril será governador, com a caneta na mão, podendo ser candidato a governador, acho difícil aceitar que ele vá abrir mão, a favor de outro projeto que não seja o dele, porque ele será o governador de Goiás. Agora, não tenho nada a ver com isso nem me interessa, porque meu candidato não é ele e não será ele em momento nenhum. Meu candidato é Daniel Vilela, e candidato do meu partido. Com isso aí eu não me preocupo. Não vamos escolher adversário. Queremos é ter força, união e sintonia com o povo de Goiás para ganhar o governo.

O MDB pretende fazer algum ato de apoio à candidatura de Daniel Vilela?

Já fizemos vários, a todo momento. Fizemos encontros em todos os municípios de Goiás. Isso aí foi um ato de apoio porque em todos os encontros, tanto os que fui quanto os que não pude ir, que os diretórios, as pessoas não tenham manifestado apoio e aprovação ao nome de deputado Daniel Vilela. Então, para mim, o ato de apoio já está sendo feito. Só quem não quer ver é cego. Se quer ser cego, aí eu não posso fazer nada.

 

 

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