O ano da superação

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Fotos: Mônica Salvador

Fabiola Rodrigues

Escola conta com apoio de psicólogos, pais e comunidade para voltar à normalidade

Após quase seis meses do ataque a tiros acontecido no Colégio Goyases, no Conjunto Riviera, em Goiânia, onde um adolescente de 14 anos matou dois colegas de sala e feriu outros quatro, a escola tem conseguido, por meio do acolhimento, animação e interatividade, fazer com que os estudantes prossigam a jornada escolar, desde a retomada das aulas, no final de janeiro. A confiança e seriedade do trabalho são dois pontos fundamentais que a equipe pedagógica priorizará ao longo deste ano.

Nos primeiros meses do ano o semblante no rosto dos estudantes estava marcado de esperança e desejo de ir à escola, sentimentos bem diferentes daquele trágico 20 de outubro de 2017, marcado por choro, medo e tristeza – sensações que perduraram até o encerramento do ano letivo, em dezembro. A tentativa de retorno à normalidade, no novo ano letivo, acontece com apoio de psicólogos, pais e comunidade.

Adolescentes aproveitam a hora do recreio para se divertir em roda de música, com voz e violão / Fotos: Mônica Salvador

A diretora da escola, Roseli Rizzo, diz que o novo ano letivo é momento de fundamental importância para os estudantes, por ser início de um novo ciclo escolar. Ela ressalta que estruturar as emoções deles será um trabalho cotidiano.

“Nos prepararmos para voltar às aulas desde o início de janeiro. Tenho visto quanto os professores amadureceram após a triste experiência que vivemos. Isso traz tranquilidade para as famílias, porque o trabalho de todos os colaboradores da escola está sendo feito com ajuda de profissionais da educação e psicólogos, que nos orientam a melhor maneira de ensinar e desenvolver habilidades emocionais das crianças e adolescentes, para que o aluno amadureça com autonomia”, relata a diretora.

Diretores e coordenadores se reúnem diariamente.

A comunidade da região onde o colégio é localizado relata que nos 25 anos de existência da escola todos da direção sempre priorizaram fazer do ambiente escolar um espaço de aprendizado, recebendo e atendendo as crianças com atenção e carisma. Atualmente é perceptível que este cuidado aumentou, os estudantes apresentam estar mais unidos, juntando forças para dar seguimento aos sonhos de cada um deles, que por um momento ficou interrompido devido ao abalo emocional generalizado no fim de 2017.

“Estamos conseguindo transformar o ambiente escolar em um lugar aconchegante. Priorizamos a união da família, pois ela forma o caráter do ser humano” Roseli Rizzo

A presença dos familiares neste momento no ambiente escolar é imprescindível. A escola passará a promover palestras para pais, filhos e comunidade. A finalidade é evitar que haja conflitos e falta de diálogo entre as famílias e com isso proporcionar mais envolvimento de todos nas atividades escolares. Sabendo dessa necessidade, a diretora observa que a prioridade é manter a interatividade como um dos meios de reestruturação na vida emocional de cada estudante.

Os alunos já voltam a sorrir durante as aulas, deixando no passado o trauma causado pelo trágico episódio que chocou a todos / Fotos: Mônica Salvador

É com essa unidade e incentivo que Roseli Rizzo pretende motivar os alunos a terem liberdade de expressão, respeitando as diferenças e combatendo o bullying, porque o estudante que matou os colegas alegou ser vítima de preconceito, situação que não relatava para os pais nem para a escola.

Segundo a diretora, toda a fase dolorosa que a escola passou vai se resignificando em um momento de reflexão, amadurecimento e superação.

“A forma carinhosa de tratar o estudante só melhorou, recrutamos nossos quase 30 professores para dar mais suporte ainda, indiferente da necessidade que ele tenha”, ressalta.

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A coordenadora Pedagógica do Colégio Goyases, Eloisa Silva, conta que tem acompanhado de perto a entrada e saída de estudantes desde os primeiros dias de aula e percebe que os pais têm acompanho os filhos, dando a eles total apoio incentivando a permanecerem em sala de aula.

“Os familiares estão confiantes que a nova jornada escolar está sendo de tranquilidade, paz e de muito ensinamento. Esse sentimento é o mesmo que passamos aos alunos, acreditamos que a confiança e motivação serão nossas aliadas, durante o ano inteiro”, frisa a coordenadora.

Ministério Público intensifica prevenção

Promotora de Justiça Liana Antunes: a campanha incentiva o estudante a ter postura ativa

Para evitar conflitos e mau comportamento de estudantes no ambiente escolar, este ano o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) programou várias ações a serem trabalhadas nas escolas. A primeira é a campanha contra o bullying, já implantada nas escolas da rede municipal, estadual e particular de todo o Estado, destinada a esclarecer à comunidade escolar o que é preconceito e como proceder quando identificado. A campanha incentiva os próprios estudantes a assumirem postura ativa, incentivando o protagonismo juvenil.

Coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação do MP-GO, a promotora de Justiça Liana Antunes diz que este ano a campanha será intensificada de forma preventiva, com foco em ações de combate a qualquer tipo de agressão física ou verbal entre crianças e adolescentes dentro ou fora dos muros da escola.

“A prática do bullying pode gerar consequências graves para a saúde, a formação e o desenvolvimento da vítima, do agressor e o do indivíduo que testemunha o ato, como depressão, dificuldades de relacionamento interpessoal, baixa autoestima, agressividade, tensão, insegurança, morte e até suicídio. E para combater e prevenir as diversas formas de violência no ambiente escolar o envolvimento e a participação ativa dos estudantes em palestras e campanhas sociais são fundamentais”, observa.

Para que a campanha tenha melhor resultado nas escolas é necessário que a família esteja acompanhando a rotina escolar do filho, permanecendo atenta às atividades escolares e pessoais dele.

“Todo governo precisa fomentar as práticas de paz, assim como oferecer assistência psicológica e social, mas a família exerce papel fundamental na formação da criança e do adolescente e deve participar ativamente da educação deles. Nosso engajamento social acontece de forma coletiva”, frisa a coordenadora.

A fachada da escola ganhou novas cores para receber carinhosamente os estudantes, que já conseguem interagir normalmente entre si. / Fotos: Mônica Salvador

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