Entrevista | O futuro da educação na mira do G20

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Valdinei Valério

Representante de entidade surgida em Goiás prepara pauta de assuntos educacionais para ser discutida pelos presidentes do G20

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Superintendente de Operações da Rede Pró-Aprendiz, Valdinei Valério da Silva coordena o C20, um dos sete grupos independentes formados por organizações da sociedade civil que vão preparar pautas de discussões para o encontro do G20, reunião dos 20 países mais desenvolvidos do planeta, que será realizado em novembro, em Buenos Aires. O objetivo do grupo é buscar assegurar que a posição em temas importantes como educação, trabalho e inclusão seja tomada pelos líderes das nações participantes. Os debates do C20 giram em torno de temas de relevância global, como emprego decente, capacitação e atualização profissional e contínua, desenvolvimento local sustentável para a promoção do trabalho, fortalecimento da seguridade social, acesso, inclusão e permanência na escola, acompanhamento da trajetória educativa, financiamento à educação de qualidade e justiça educativa. “Em um mundo sem fronteiras, uma educação equânime ou mais horizontalizada é importante para todos os países”, afirma. Por meio de parcerias visando inclusão social e promoção da cidadania, a Rede Pró-Aprendiz é uma entidade que promove a inserção de jovens no mundo do trabalho a partir de programas de socioaprendizagem, surgida antes da Lei da Aprendizagem, de 2000. (Entrevista foi concedida à Rádio Sagres 730 AM e editada por Manoel Messias Rodrigues)

Tribuna do Planalto – O que é o C20 e o que está sendo planejado para reunião do G20 em Buenos Aires este ano?

Valdinei Valério – O G20 é o grupo dos 20 países mais desenvolvidos do mundo que se reúnem todos os anos a fim de que assuntos importantes, de impacto mundial, sejam tratados a partir desses países. O C20 representa organizações da sociedade civil, que prepara os temas, propõe soluções e faz propostas para que possam ser discutidas na reunião. A reunião acontecerá em novembro e, desde agora, estamos trabalhando em alguns temas, no sentido de pautar os presidentes do C20, para que os temas estejam mais amadurecidos e sejam debatidos e discutidos. E soluções políticas saiam da reunião dos presidentes.

Quais os temas mais emergenciais?

Vários são os temas estabelecidos pelo G20. Alguns deles são a anticorrupção, arquitetura do sistema internacional, meio ambiente, clima e energia, inversões e infraestrutura dos países, gênero e saúde global e a nossa parte ficou para pautar educação, trabalho e inclusão. Então, já estamos trabalhando com esses temas, envolvendo pessoas do mundo inteiro em uma plataforma onde colocamos os temas, debatemos, discutimos e extraímos ideias. E aqui vamos resumir um documento até novembro e vamos apresentar aos presidentes do G20.

Nesse documento, há preocupação de mostrar o elo que deve existir entre educação, qualificação e inclusão no trabalho?

A preocupação é em discutir a educação de uma maneira ampla e como a educação e o trabalho se conversam e como elas se convergem. É importante que possamos discutir e estabelecer soluções e propostas para que o processo educativo, também, possa vir a conversar com o mercado a partir desses novos mercados que estão surgindo, porque hoje o processo educativo não consegue acompanhar a evolução e o desenvolvimento do mercado.

E em que momento isso deve ocorrer na vida do educando?

Deve ocorrer desde o princípio da formação. Hoje se discute, sobretudo no Brasil, que tem se apoiado muito nos últimos anos no sistema de formação universitária, se esquecendo do processo de formação do ensino médio e da primeira e segunda fase do fundamental. Então, esquecemos que essas duas fases são fundamentais para que se tenha um universitário, ou aquele que pretende chegar a uma universidade, com um pouco mais de qualidade. Porque o que enxergamos, me incluo como professor de universidade há muitos anos, é a percepção daquele público que chega à universidade com uma dificuldade impressionante de interpretação de texto, por exemplo.

O G20 pode levar esses assuntos, que são mais específicos de países como Brasil, para o debate?

Hoje vivemos um fenômeno mundial do fim das fronteiras, sobretudo para os jovens entre 16 e 29 anos, que é uma faixa etária que pouco para, que se desloca com certa facilidade. Um problema de educação num país acaba refletindo no outro. Ele, fatalmente, atinge o outro país porque a população migra com todo o histórico de problemas. Hoje o processo educacional não é mais um problema apenas local, embora os países em desenvolvimento têm muito mais problemas. E hoje os países que recebem essa imigração recebem pessoas com pouca, com abaixa qualidade de formação. Daí temos uma situação que vai se permeando no mundo inteiro. Em um mundo sem fronteiras, uma educação equânime ou mais horizontalizada é importante para todos os países.

Como isso pode ser efetivado posteriormente, como isso retorna para os países em forma de políticas públicas?

O papel do C20 é colher informações, formular propostas, apresentar essas propostas junto à reunião do G20 para, ali, sim, se decidir as políticas. Então, o papel que estamos fazendo, através de uma plataforma online, é nos relacionarmos com lideranças, com formadores de opinião, líderes da sociedade civil, educadores do mundo inteiro. Provocar esses educadores, no sentido de colocar questionamento nas plataformas e mobilizar essas informações, copilando essas informações e apresentá-las para o grupo de presidentes.

Próximo do Brasil, o Chile conseguiu chegar a uma educação de qualidade. Como elevar a qualidade geral da educação no Brasil?

Esses é um grande desafio. O fato é que defendemos, enquanto grupo da sociedade civil, que a educação é o direito dos direitos. E que ela tem que ser igualitária, e quando falamos que ela tem que ser igualitária, não interessa se ela é da iniciativa privada ou pública. Os governantes têm que cultivar, necessariamente, um processo de qualidade que chegue à igualdade entre o público e o privado. Não há uma fórmula mágica, o que estamos fazendo é um processo de fomentar e de alimentar esses presidentes com ideias.

Está na pauta do C20?

Porque além de ser o direito dos direitos, a educação é o alicerce dos alicerces. Está sim. É o alicerce dos alicerces, é aquilo que promove a possibilidade da inclusão em todas as outras áreas.

Também está na pauta a diminuição das grades curriculares, que muitas vezes têm disciplinas desnecessárias e que alongam demais os cursos?

Isso também está na pauta. E essa discussão vai um pouco mais adiante, ela versa também sobre aquilo que é o ensino técnico e aquilo que é o ensino superior. Onde se precisa de mais apoio, onde estamos precisando mais de mão de obra. Porque temos que linkar essas questões às novas tecnologias de mercado e ao novo mercado que está surgindo. Outro problema que vamos debater é que muitos estudantes hoje estão se formando para uma profissão que estará declinada daqui há dez anos, que não terá possibilidades de mercado. Quantos aos cursos técnicos, se discute qual o momento devem acontecer, se é após ou dentro do ensino médio. Tem esse debate em pauta.

Quando o C20 fecha o documento com sugestões aos líderes do G20?

O C20 utiliza uma plataforma online para se conectar a todos os países. E teremos uma reunião em Buenos Aires em abril outra para apontamento do fechamento em Genebra em junho. Então a partir deste momento fecharemos essa documentação de todos os debates que aconteceram. Não é uma discussão simples, porque o que se discute na Índia e no Brasil às vezes as perspectivas são um pouco diferentes. Então temos que montar um documento que contemple todas essas questões, que, pelo menos no primeiro momento, seja transversal a todos esses temas para que sejam apresentados para os presidentes.

Efetivamente que tipos de experiências da Rede Pró-Aprendiz aqui no Brasil podem ser colocadas nessa reunião, nas metas do C20?

Essa é uma oportunidade de falar o porquê estamos lá, porque uma organização fundada em Goiás, que faz um trabalho no Brasil, tomou tal proporção, que hoje coordena um grupo de temas que será colocado à disposição dos 20 governantes mais poderosos do mundo. Em 2016 fomos convidados a participar, com a Secretaria Ibero-Americana, da Cúpula das Américas, e na ocasião foi pautado educação e trabalho, focado, sobretudo, na questão juvenil, assunto do qual somos especialistas e protagonistas no Brasil. A partir desta participação, agora, novamente, nos convidaram a participar desta reunião do G20.

Então o convite surgiu a partir do que a Rede Pró-Aprendiz faz?

O trabalho que fazemos tomou corpo porque atravessou fronteiras. É um trabalho que proporciona a permanência dos jovens na escola, que proporciona a inclusão laboral descente que é aquilo que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) vem pregando e ela realmente reconhece nosso trabalho que proporciona isso à juventude. É uma situação que gera renda, que contribui para a questão previdenciária, que hoje é um problema mundial. Então é tudo muito amplo. Falando assim parece uma panaceia, mas não é panaceia, se trata de um programa efetivo, que há 20 anos está sendo executado e cujos resultados alcançados e medidos nos proporcionaram essas questões que trabalhamos aqui. Esse trabalho atravessou fronteiras e nos proporcionou contatos com o mundo inteiro que vai desde a África até a Suíça, por exemplo. O programa Pró-Aprendiz é um exemplo para o mundo e, como exemplo, estamos colocando nossas experiências à disposição.

O Brasil gastou R$ 16 bilhões ao reprovar em 2016 cerca de três milhões de alunos da educação básica

O Brasil gastou R$ 16 bilhões ao reprovar em 2016 cerca de três milhões de alunos da educação básica, o que é equivalente a 10,6% dos estudantes da rede pública. Quer dizer, estamos perdendo não só esses recursos, como uma geração de estudantes do ensino fundamental.

Eu vou mais além: os números que tenho conhecimento dão conta que 73% daqueles jovens, das crianças que entram na escola, não concluem o ensino médio. Quer dizer que apenas 1/3 concluem e isso é um número pífio.

Tanto que em regiões periféricas a criança ou o jovem conclui o ensino médio ele diz que formou, para a família e para a sociedade ele formou. Enquanto em outras regiões da cidade as pessoas só formam depois de fazer uma faculdade.

Neste caso é uma questão de vitória, quando você conquista um novo passo. Essa que é a verdade. Quando você consegue concluir a primeira fase do ensino fundamental, sobretudo se você estiver adequando com a idade-série, é um grande passo. E após isso é um grande passo quando você consegue ingressar no ensino médio, e se você concluir o ensino médio e se esse ensino médio tiver ligado ao ensino técnico é ainda melhor. Porque você sai um pseudoprofissional. Porque não podemos dizer que hoje com os avanços da tecnologia quando você forma você sai um profissional. Mas você sai com a possibilidade maior do que aquele que não formou. Então, esses dados são muito importantes, porque temos uma pesquisa, também capitaneada pelo instituto em um determinado momento, que diz que a população que conclui o ensino médio tem 50% menos chances de ser pobre. Então de fato quando você conclui uma fase de estudos você muda, você cambia a vida das pessoas.

73% dos jovens e crianças que entram na escola não concluem o ensino médio. Quer dizer que apenas 1/3 concluem e isso é um número pífio

A educação é um fator de ascensão social?

Não tenha dúvida, por isso o que estamos tratando e sobretudo o que fazemos e o que propomos para o G20 e o C20, no princípio das discussões, é a educação como o direito dos direitos. É a educação que te dá possibilidades de acessar o mundo do trabalho. A educação que te dá possibilidade de conhecer os seus direitos, de saber sobre saúde, de saber outros fatos mundiais – de saber votar inclusive.

 

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