O fator Maguito

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Vassil Oliveira

Ao centrarem fogo no ex-governador, caiadistas do MDB abriram a guarda para o avanço de Daniel, que já tem apoio de Iris a comemorar

Segunda-feira, 18. Maguito Vilela faz, na hora certa, o discurso que acerta em cheio o MDB dissidente. Ronaldo Caiado (DEM) faz o discurso certo, mas na hora errada para um MDB dividido. Daniel Vilela, com palavras medidas, fala sobre coisas positivas, dá notícia boa para a população goiana, mais que para o partido.

Resultado: a unidade nas oposições, já difícil, vira campo minado, até se revelar, por ora, impossível. O fracasso das conversas de conciliação reconhecido na sexta-feira, 23, pelo prefeito Iris Rezende, escolhido mediador do entendimento, foi o último ato de uma semana de fúria entre aliados não tão aliados assim.

Semana começou com dissidentes do MDB declarando apoio ao senador Ronaldo Caiado…
…e terminou com Daniel Vilela comemorando a definição de Iris Rezende por seu nome

Na definição de Iris, deu a lógica: emedebista histórico, ele decidiu ficar com o MDB, logo, com o deputado federal Daniel Vilela. Como havia dito, como havia anunciado, como havia sinalizado ainda no ano passado, quando sugeriu ao senador Ronaldo Caiado filiar-se ao MDB. Na soma dos fatos, Daniel ganhou o MDB; Caiado, uma dissidência do MDB.

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Daniel terá de explicar o motivo de não conseguir ter toda a legenda com ele. Caiado terá de justificar o estímulo à guerra interna na legenda amiga, evidenciada na sua decisão de participar do evento dos dissidentes. A presença do democrata, em vez de sinalizar pacificação, provocou mais turbulência, o que foi reconhecido depois por aliados que eram contra sua ida mas acabaram vencidos no debate interno.

Na segunda, o palanque dos dissidentes virou comício de posicionamentos definitivos, e de lançamento de expressões explosivas. Porém, menos contra Daniel e muito mais em direção a Maguito. Bom para o deputado. Maguito não é candidato; é um pai lutando pelo direito do filho ser candidato.

O ex-governador disse no mesmo dia, em O Popular, que os incomodados na legenda deveriam sair. Esta  faísca dominou o evento dos dissidentes, que reagiram com palavras de ordem unida, e de fogo cruzado. Poupado, e até elogiado por quem mirava seu pai, Daniel ignorou tudo, para fechar o dia com algo maior que disputas partidárias: o anúncio da assinatura que cria em definitivo as universidades federais de Catalão e Jataí.

Imagem por imagem, Daniel, em contraponto às fotos dos dissidentes com Caiado, publicou foto sua com Michel Temer, anunciando a boa nova. Calculadamente com Temer, que não aprova aliança do MDB goiano com Caiado. Decididamente assumindo uma posição partidária, de sintonia com o presidente da República.

Maguito previu na quarta que movimento a favor de Daniel faria Iris decidir apoiar Daniel para o governo

Caiado bem que tentou dizer outra coisa diversa daquela que seu gesto evidenciava: que estava ali para juntar o MDB, e não para reforçar a divisão. Outro ponto a trair a ideia de unidade veio com a verdadeira intenção, revelada com a proposta apresentada como solução para o impasse: a chapa Caiado governador, Daniel vice e um emedebista para o Senado. Chapa ideal – para Caiado.

“Hoje demos um primeiro passo”, falou o democrata, em tom ponderado, calmo, diferente do que normalmente usa nos palanques. Garantiu: o governo, caso vença, será tocado a quatro mãos – ou seja: DEM e MDB juntos. Por fim, a chapa: “Eu asseguro que o MDB terá o vice-governador e um senador para ajudar a governar.”

O ato, realizado na Assembleia Legislativa com presença de lideranças de várias partes do interior do Estado, foi apresentado pelos dissidentes como a prova de que não estavam brincando quando diziam que o partido não está unânime com Daniel, e quando afirmavam que os descontentes teriam, sim, coragem de assumir posições. Assumiram. Fizeram barulho.

Mas o ato foi também comemorado por Daniel ao mostrar, segundo seus apoiadores, o tamanho da dissidência, liderada verdadeiramente por 5 prefeitos e o deputado José Nelto. O mesmo tamanho que tinha como começou – o que significa dizer limitada nos mesmos e conhecidos nomes. E por mostrar outra coisa: a intenção oculta do mais ativo dos militantes da dissidência, Adib Elias (Catalão): ser vice.

Faltou aos dissidentes um ‘Maguito’ para combater Maguito, que ocupou espaços para defender o filho na guerra interna

Na decoração do auditório, o cartaz de fundo, à frente da mesa principal, anunciava: “Adib e Caiado, juntos para mudar Goiás”. Difícil articulação. Para isso acontecer, Adib teria – ou terá – de renunciar ao mandato de prefeito até dia 7, e vencer depois Daniel, na convenção.

O tom do encontro foi de combate. Os discursos de sempre, de exaltação das chances de vitória de Caiado e de desconfiança na capacidade de Daniel, estavam lá. Estava também a afirmação de que o grupo é a “verdadeira oposição”, acompanhada da reiterada ‘denúncia’, repetida em entrevistas e discursos, de que Maguito e Daniel estão afinados com o governador Marconi Perillo (PSDB).

Esse ponto do discurso foi inclusive o que ganhou mais força nos dias seguintes, com divulgação de vídeos e fotos mostrando Maguito no Palácio tomando vinho, e outros, em resposta, apontando o prefeito Ernesto Roller (Formosa) rindo com o tucano em evento público, e lembrando o discurso do governador há poucos dias dizendo que José Nelto tomava vinho com ele no Palácio.

Chamado para o centro do ringue, a partir da provocação no jornal, Maguito fez sua parte no jogo de bate e rebate. Ele ocupou espaços em jornais, site, rádios, onde pode, para dar sua versão dos fatos, e diminuir o efeito da dissidência. E fez a previsão na quarta, 21, na Rádio Sagres 730: a movimentação dos dissidentes vai fazer o Iris declarar apoio a Daniel.

Com um porta voz conhecido em todo o Estado e falando bastante em defesa do partido, Daniel ficou à vontade para manter-se ao largo da guerra, ao mesmo tempo em que se posicionava como partidário. Tudo para passar a mensagem de que o que desune é a dissidência, e não a busca de candidatura própria.

Combatendo Maguito, o que se ouviu foram vozes duras em favor da disputa interna, e não paz. Vozes menos conhecidas que a do ex-governador, e bastante reconhecidas pela disposição para a luta. Com várias lideranças relevantes, porém sem expressão estadual, faltou ao grupo um ‘Maguito’ para combater o falante Maguito pró-Daniel.

Nesse clima de radicalização de posições, Iris tentou uma última vez desarmar os ânimos, com nova reunião entre Daniel e Caiado. Em vão. A sua declaração na sexta, de apoio ao nome do partido, não era nova, no entanto chegou com ingrediente novo: dando por impossível o entendimento, estava decididamente definido com Daniel para governador.

O posicionamento de Iris terá consequências dentro e fora das oposições. Dentro, ficam dúvidas objetivas. Os caiadistas, que acreditavam em seu apoio, continuarão no Paço? Haverá rompimento geral com o prefeito, ou em parte? Iris vai participar mais da campanha de Daniel? Será fiador do fortalecimento da candidatura do partido?

Caiado tentou mostrar tranqüilidade. No Facebook, publicou: “O prefeito Iris tem minha admiração e respeito. Lutei muito para que ele fosse candidato a prefeito de Goiânia e vencesse, por acreditar em sua liderança. Nada mudou e faria de novo. E repito novamente que não cabe a mim interferir em ações de partidos aliados. Vamos agora buscar ainda mais o diálogo, com humildade e respeito, para a união da oposição. Devemos estar aliados aos goianos que tanto desejam mudar Goiás!”

O tempo corre contra o senador. A fase de consolidação das alianças partidárias começará mesmo a partir de 7 de abril, com o fim da janela para transferências e com a posse do novo governador, Zé Eliton (PSDB), pré-candidato à reeleição e que também luta para manter unida sua base. É quando o jogo, para os personagens da política, passará de “para onde vou” (escolha de partido) a “quem vai garantir a minha eleição” (com qual candidato ficar).

Nessa nova fase, ter o apoio do presidente da República e do prefeito da capital ajuda muito. Duas máquinas. À parte o desgaste de Temer, e sua impopularidade, há a tinta na caneta de um Executivo disposto a ajudar seus candidatos na hora das conversas com as legendas necessárias. Temer já mostrou que está ativo, não será coadjuvante nestas eleição.

Resta à oposição a esperança de unidade no segundo turno. Um já declarou apoiar o outro. Mas dá pra confiar?

A Caiado, fica o apoio de uma parcela do MDB e a promessa, dessa parcela dissidente, de muito trabalho para multiplicar o seu tamanho. A disposição dos que o apoiam em vencer a guerra interna contra os apoiadores de Daniel não pode ser ignorada. Mas igualmente fica vagando o fantasma de que poderá ter não mais do que já tem, ou menos do que já tem, quando a pressão das convenções chegar.

Resta a esperança aos oposicionistas de um encontro de Daniel e Caiado no segundo turno. Caiadistas reclamaram de falta de declaração de apoio de Daniel, em caso de o senador apenas seguir na disputa. Mas não é real. Em entrevista à PUC TV, no início deste ano, Daniel afirmou claramente que, caso seja derrotado na primeira fase, apoiará Caiado na segunda. Caiado já disse o mesmo. Então, compromisso feito.

O desenrolar da pré-campanha e a campanha é que definirão o futuro das oposições em Goiás. Caiado e Daniel vão se unir, em algum momento, ou vão reeditar 2004, quando Lúcia Vânia e justo Caiado, na oposição, perderam para Maguito, o candidato de Iris? Repetir a história, ou escrever uma nova história, eis o desafio, eis a espada apontada para a cabeça daqueles que, vivendo pela razão, podem perder mais uma eleição.

Unidade?

Um dos pontos mais curiosos dos discursos de aliados de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela está na defesa da unidade como pressuposta de vitória. “Se nós construirmos a unidade das oposições, o governo será nocauteado”, ressaltou o senador no evento de apoio dos dissidentes do MDB.

No final, ele chegou a destacar que todos tinham pregado exatamente a necessidade de união, ao longo do evento, em uma sintonia natural, não combinada. Unidade é o que Daniel também ressalta o tempo todo como caminho para o sucesso nas urnas.

Caiado e Daniel, portanto, concordam neste ponto. Detalhe: concordando em tese, eles discordam definitivamente na prática. Porque a unidade que defendem tem endereço certo: a que converge para o seu nome como candidato ao governo.

Para eles, não há unidade com desprendimento próprio; apenas com o sacrifício alheio. Foi nessa pedra no meio do caminho que o prefeito Iris Rezende tropeçou. Como juntar quem não admite senão o recuo do outro?

A outra guerra

Daniel Vilela posta foto com Michel Temer.

A oposição está desunida, e a base governista também está. Não há unidade fácil para nenhum dos lados. Em andamento, cada vez de forma mais contundente em Goiás, há um reordenamento de forças políticas, em um ambiente de cada um por si.

Significa que partidos e lideranças podem oscilar de lado a lado da balança governo-oposição sem que isso signifique definição antecipada da disputa, ou desequilíbrio definitivo no jogo. Neste realinhamento, o equilíbrio das candidaturas caminha para se estabelecer nos novos interesses, e não nos velhos acordos.

Daniel pode juntar menos partidos ao seu lado do que gostaria. Zé Eliton (PSDB) pode não ter a abrangência de grupos que almeja e que já vai se reunir em torno do governo em outras eleições.

Contraponto à movimentação Adib-Caiado

Caiado pode não sustentar perspectiva de vitória por tempo suficiente para amarrar sua candidatura. Contra o senador está ainda o histórico de polarização no Estado, entre governo e MDB.

Na luta a partir do dia 7, depois da dança das cadeiras das filiações, a briga não será mais por legenda, e sim para se eleger, custe o que custar. Daqui até as convenções, o que importa não é o que passou, mas o que virá.

Nessa hora, o raciocínio político é objetivo. Foco no resultado das urnas. Os fins justificam os meios. O feio é perder. A luta continua.

E agora, Caiado?

Não há novidade na definição de Iris Rezende por Daniel Vilela como candidato a governador. Novidade haveria se ocorresse o contrário: Iris preferindo Ronaldo Caiado a Daniel.

Este ano, o prefeito completa 60 anos de vida pública, no MDB. Marcaria a data com declaração de apoio a um nome de outro partido? Quando Iris sugeriu a Caiado filiar-se ao MDB, lá atrás, deu a senha. Só não viram isso os cabalistas que não quiseram.

E mais claro ficou o que ia acontecer no instante em que Daniel apontou a convenção como instância única para possível redefinição de rumo do partido. Até os dissidentes sabem que ele controla os votos do diretório. A dissidência se estabeleceu, por sinal, porque Daniel reafirmou isso, em entrevista recente. Foi quando entenderam que ou iam à luta para vencer em parte agora, ou completamente derrotados ficariam no meio do caminho.

Os caiadistas não entenderam os sinais, ou quiseram acreditar. Montaram então uma estratégia centrada em Iris. Contra qualquer observação em contrário, a reação era enérgica: quem falava o que não queriam ouvir, estava a serviço do governo ou de Daniel. Na sexta, o clima entre os aliados do senador com cargos no Paço era de susto, e desânimo.

Confirmado o inevitável, os caiadistas terão de recalibrar a mira. Rever caminhos. A eleição não está perdida, mas o apoio do MDB, tudo indica, sim. Caiado, que dizia que não seria candidato sem o MDB, terá como primeiro passo responder a isto: mantém-se na disputa ou desiste, em nome da unidade?

O seu recado nas redes sociais aponta que não jogou a toalha, mas que também ainda não sabe o que fazer. Por ora, a candidatura irreversível parece ser a de Daniel.

Imagem que poderá não se repetir na campanha, depois da deflagração da guerra total.

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