Eles não param

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LADO A LADO Registro histórico de Irapuan, Marconi, Iris e Maguito juntos, nos jardins do Palácio das Esmeraldas

Daniela Martins

Experiência não falta no cenário político goiano. Consagrados nomes permanecem como protagonistas. E as novas lideranças?

Ela não é muito de falar sobre política. Vê o recém-empossado Irapuan Costa Júnior confidenciar, na tevê, que aceitou o convite ao cargo de secretário da Segurança Pública do Estado pelo ‘sentimento de dever’, e puxa pela memória:

– Ele foi governador quando eu era criança.

O tom é de surpresa. Aquele nome… Walquíria Brito, 40 anos, confeiteira, de repente volta no tempo. Quando Irapuan era governador de Goiás, entre 1975 e 1979.

Mas os tempos não são outros?

Iris Rezende Machado, 84 anos, prefeito de Goiânia. Irapuan Costa Júnior, 80, secretário de Segurança Pública do Estado. Agenor Rezende, 74, anos, prefeito de Mineiros. Maguito Vilela, 69, recém-saído da prefeitura de Aparecida de Goiânia. Quatro nomes. Quatro destinos que se encontram na dobra dos últimos anos na política goiana. Cinco, se acrescentarmos aí Marconi Perillo, 55, atual governador que está prestes a deixar o cargo, dia 7, para ser candidato a senador. Seis, se consideramos que Alcides Rodrigues, 68, se prepara para disputar mandato este ano.

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Em comum, todos já estiveram – Marconi ainda está – na cadeira do mais alto cargo do Executivo goiano. Todos percorreram uma longa trajetória na vida pública, deixaram legados, e permanecem na ativa, como protagonistas da vida política em Goiás. Quando a palavra da vez é ‘renovação’, em Goiás a experiência segue com força, ocupando espaço de destaque na política. Caminhamos por aqui na direção oposta?

A resposta para essa questão é plural. Não surgiram novas lideranças. Não há preocupação em se formar jovens líderes. Quem sabe jogar o jogo político permanece em campo e não quer largar a bola. Especialistas e pesquisadores explicam esses porquês.

“Eles ocupam espaço por não ter lideranças com o vigor necessário. E talvez a gente possa questionar o fato de não terem se preocupado em construir sucessores”

A permanência de velhos personagens na ceara política significa que não surgiram lideranças com consistência e condições para substituí-los. Esse é o primeiro ponto destacado por Paulo Faria, jornalista e psicólogo com ampla experiência em campanhas políticas.

PAULO FARIA “Pessoas com ideias devem ser resgatadas pelas gestões”

“Eles ocupam espaço por não ter lideranças com o vigor necessário. E talvez a gente possa questionar o fato de não terem se preocupado em construir sucessores”, levanta a questão, para completar que a renovação não se faz só por pessoas. “Não faltam novas lideranças, faltam novas ideias, novos projetos de política, novos projetos de gestão”.

Há um desafio para os gestores mais experientes, reforça Paulo Faria, que é aceitar mudanças, incorporar lideranças que não alcançaram o espaço público para voar sozinhas. E podem ser lideranças, gestores, técnicos, enfim, pessoas que têm algo a trazer para essa nova política.

Não só Goiás sofre a deficiência de uma nova política. O país inteiro precisa restaurar o padrão ético capaz de preservar o bem público, avalia Paulo. A sociedade brasileira vivencia um modelo em que a corrupção é alta e o retorno é muito baixo. Modelo de uma corrupção entrenhada,que vem da ocupação do país, da colonização, e agora se intensifica. “Ultrapassamos o ‘rouba, mas faz’. A gente rouba e não faz”, ressalta.

Práticas enraizadas

ADEMIR LIMA Saber a regra do jogo facilita manter o protagonismo na política

Enfático, o marqueteiro político Ademir Lima afirma que o problema é um só. Historicamente, no Brasil, a renovação é para pior. E ele exemplifica: nas Assembleias, há quatro legislaturas, as discussões, os temas, os conteúdos em pauta eram mais “palpitantes”. “Os parlamentares eram mais bem preparados”.

O marqueteiro explica que, apesar da pulverização de faculdades, não há uma preparação para a vida pública. País capitalista, aqui a formação é voltada para o lucro. Não há preparação para o pensamento político, estratégico.

Aliada ao despreparo está a falta de aptidão. Não é possível fazer, fabricar lideranças. Liderança, reforça Ademir, é nata. A consequência, diz, é a manutenção do poder. “Rotineiramente voltam os mesmo nomes”, observa o marqueteiro.

Ademir vai de encontro ao senso comum. Não acredita na capacidade das redes sociais de mudar a política para melhor. Às vezes, salienta, nos arranjos partidários, até surgem um ou outro nome. “Mas esses nomes não são líderes. Tanto que logo desaparecem do cenário”, critica, apontando “fenômenos” como Deputado Valdir, Jorge Kajuru, “elementos alheios à política” e que, enfatiza, em “nada melhoram” a vida pública.

Saber manter-se em campo é outra vantagem do líder experiente, além, claro, do pode econômico. Assim, o sistema político brasileiro corrobora com sua permanência. Temos um sistema de práticas já enraizadas, conclui Ademir. “Eles [políticos experientes] jogam com a regra do jogo”. E permanecem ou retornam facilmente ao protagonismo público.

Rejeição e medo do novo

Especialista em marketing eleitoral, Marcos Marinho responde à Tribuna três questões sobre a permanência de figuras consagradas na política goiana. Marinho é goiano e está em Portugal, onde faz doutorado em Ciências da Comunicação, com pesquisa em Comunicação Política.

Tribuna do Planalto — Por que velhos nomes permanecem como protagonistas do cenário político em Goiás?

Marcos Marinho – A força política de um personagem reside, em grande parte, na sua capacidade de influenciar o contexto político, mobilizar e engajar a militância, e, cada vez mais, atrair a atenção do eleitorado. Estes pontos, e em especial o último, dependem da consolidação de sua imagem, o que ocorre durante sua vida política e por meio de sua atuação. Por se tratar de um jogo de poder, o ambiente político sempre contará com figuras detentoras de imagens consolidadas, que lutarão para manter o poder; e figuras que buscam se consolidar e conquistar o poder. Sendo assim, o jogo político, assim como o jogo de poder, é difícil, truncado e até agressivo porque o poder nunca é cedido, mas demanda ser conquistado. Quem consegue exercer o poder sempre lutará para mantê-lo.

Fala-se muito na necessidade de renovação na política. Goiás está na contramão?

Hoje avalio este “desejo por renovação” muito mais como um slogan bem vendido do que, de fato, uma demanda clara na mente dos eleitores. E isso ocorre não só em Goiás. O conceito de renovação que está alojado na mente dos eleitores ainda é muito difuso e opaco. Querem pessoas novas, novas posturas, novas formas de participação política ou o quê? Há aí um paradoxo, que é a vontade do novo em oposição ao medo da novidade, do diferente. Esta questão é ainda bastante complexa, na minha visão, porque a maioria do eleitorado não tem clareza sobre a política e seus processos, sobre a inseparabilidade do acompanhamento constante dos eleitos em relação ao momento da decisão do voto, e mais uma série de coisas. Para que a política seja renovada é preciso que as pessoas, de fato, entendam o que ela é, saibam o que ela poderia ser, e, aí, escolham o modelo que acreditam ser o melhor. Não há escolha certa quando as referências são ruins ou inexistentes. Atualmente, o embate está entre a rejeição do que se tem e o medo daquilo que poderá o substituir. Tal situação pode tendenciar o votante a optar por manter o ‘mal’ que ele já conhece para evitar um pior.

Lideranças experientes e jovens lideranças devem estar juntos no cenário político?

Acredito que o processo político evolui em fluxos e refluxos, acertos e erros, e por isso a troca de experiências sempre é positiva. Há na política, em relação aos atores políticos, um ciclo de vida que precisa ser entendido por todos que participam desta seara. O problema que percebo como o mais grave reside nas estruturas partidárias que, francamente, são, na sua maior parte, nada democráticas internamente. São poucas as siglas que se dedicam à preparação de suas lideranças, que investem na renovação

MARCOS MARINHO, especialista em Marketing Político

e capacitação de seus quadros. Desta forma, também por se tratar, como disse anteriormente, de um complexo jogo de poder, a ascensão das novas lideranças acabam por perpassar a derrocada das antigas, o que torna o partido, ao invés de um ambiente saudável e unificado em prol de um projeto comum, num espaço de luta e fragmentação interna.