Novo vai, novo vem

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Foto: Divulgação

Vassil Oliveira

Novo & Velho o que Ana Carla Abrão e Irapuan Costa Júnior ensinam sobre a renovação política, e como isso afeta Caiado, Eliton E Daniel

Convidada pelo governador Marconi Perillo (PSDB) para assumir a Secretaria da Fazenda, a economista Ana Carla Abrão procurou o pai, o ex-governador Irapuan Costa Júnior, para ouvir a sua opinião. Irapuan deixou claro: era contra. No início deste ano, Irapuan foi convidado por Marconi e pelo vice, José Eliton – já na preparação para assumir o governo, com a saída do titular –, para a Secretaria de Segurança Pública. O que disse a filha? Que era contra.

O episódio foi relatado por Irapuan, em tom divertido, durante entrevista à rádio Sagres 730. Conclusão: se ela, que é filha, não obedeceu ao pai, não seria o pai a obedecer a filha. Desde que assumiu, o ex-governador tem dada muitas entrevistas. Em todas, prevalece o tom ponderado, calmo, de alguém que está preocupado em ser educado, mas principalmente ciente de que cumpre ali uma missão, um dever.

“Estamos convictos de que devemos fazer nossa parte, de enfrentar os males que ameaçam o poder presente, a sociedade goiana e brasileira. Goiás, em termos de segurança, não pode se tornar um Rio de Janeiro. Como não pode o Brasil converter-se em uma Venezuela, essa nação irmã que vive seus piores momentos”, justificou ele na posse.

Cobranças a pré-candidatos ao governo estadual ocorrem também com ex-governadores

Ana Carla tem muita história a escrever. Ser secretária foi um capítulo novo em uma biografia em construção. Já Irapuan tem uma história consolidada na vida pública. Independente da idade, principalmente pelo que fez, poderia optar pelo sossego. Ao aceitar ser titular de uma pasta na qual sossego é algo que nunca bate continência, mostra disposição para a vida, muito mais que pelo poder.

Do prefeito de Goiânia, Iris Rezende, é fácil ouvir que está na vida pública como missão divina, e não como vontade pessoal. Iris não dá nem pista de que vá se aposentar. Está ativo como prefeito de Goiânia se preparando, tudo indica, para buscar a reeleição. Não há limite para ele, como não há para Irapuan, que se imaginava à parte na política, e de repente aceitou o que parecia impensável: o retorno ao governo em um cargo subordinado ao que já ocupou. Ou para Ana Carla.

O discurso contra a presença dos chamados velhos na política é comumente pautado pela exaltação do novo. Ao mesmo tempo, a experiência é cobrada quando o novo se apresenta, por exemplo, em uma disputa, como em Goiás. Onde está a renovação? No DNA, ou no olhar? Na herança e no legado, ou na proposta do incerto? Na essência como proposta de governo, ou na aparência como marketing de campanha?

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Isso fica exposto quando o jovem pré-candidato do MDB, Daniel Vilela, de 35 anos, é confrontado com a falta de maturidade para administrar o Estado. E também quando é lembrado que Zé Eliton nunca ocupou cargo público, e, portanto, não estaria preparado para tal. E no momento em que, de Ronaldo Caiado, levanta-se dúvida sobre sua capacidade para o Executivo por ele só ter, no currículo, mandatos legislativos.

O velho só é negativo quando convém. O novo, também. Deus, o que é?

Bom e velho
discurso de campanha

O discurso do novo é o Santo Graal de toda eleição. Não há disputa sem que ele apareça antes, durante e depois, para explicar vitórias ou justificar derrotas.

O novo não está no corpo. Está na alma. É o espírito da coisa, e não a coisa, que verdadeiramente importa. Quem acerta o alvo, costuma levar. O exemplo mais evidente em Goiás é o de 2018. O ‘tempo novo’ que hoje é defendido pelo governador Marconi Perillo como prática de governo que o define, foi parte de um marketing bem feito.

Conteúdo de propaganda, e não de governo. Desde 98, Marconi ganha eleição renovando o discurso, sem mudar a prática de gestão. Quem não se renova é a renovação.

Nomes como Marconi, Iris Rezende, Agenor Rezende, Maguito Vilela, Irapuan Costa Júnior, tem mais que vigor político como mérito. Eles têm disposição para a vida. Acompanhar seu tempo, em vez de sucumbir a ele.

Estão relevantes porque viver permanece decisivo, mais do que sobreviver. E é este o espírito, a alma vencedora. Não quer dizer que apenas eles têm isso. Que dizer que ele têm.

Nesta eleição, o novo será discurso disputado por Zé Eliton (PSDB), Ronaldo Caiado (DEM), Daniel Vilela e quem surgir como candidato ao governo. Mas o que definirá tudo, em termos eleitorais, não é a cara, mas a imagem e semelhança. O conteúdo.

Quem embalar melhor a candidatura, leva vantagem. Agora, quem mostrar isso na essência, aí, sim, terá atingido o sentimento do povo. Do povo que vota e define na urna.

Goiás anseia por renovação, por algo novo. É nisso que todos concordam. E este é o outro ponto. O goiano entender que tipo de novidade realmente quer, e quem a representa. Votar no novo, e não de novo, eis o segredo.

(Vassil Oliveira)