Esfera Pública | Retrato da psicose

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Por que somos um povo alienado? Por que a animosidade, belicosidade, a crise de ideologia, as distorções de valores ocorrem no Brasil?

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Estes dias li uma pesquisa internacional que pontua que o Brasil é o segundo maior país do mundo em alienação. Delírios, fantasias, fuga da realidade. Um cataclismo anunciado há décadas no destrato com a educação e a cultura, cujos índices estatísticos são caóticos. Temos a segunda população mais fora da realidade do mundo.

Minha crítica tem início na experiência como professor universitário, pesquisador e formador de profissionais na área de saúde mental e na observação da precariedade da educação, na forte e consistente crise do analfabetismo funcional. Tenho lidado sistematicamente com alunos formados e em formação superior que não sabem ler, interpretar ou compreender a subjetividade de um texto. Alunos com enorme dificuldade para atender um paciente ou tratar uma doença mental porque não sabem lidar com sua própria subjetividade.

Pessoas que não compreendem metáforas, analogias, significados. Não entendem poesia, literatura, arte. Pessoas que se formam, fazem mestrado e doutorado, mas não têm cultura, apreendem conhecimento técnico específico, mas têm profunda dificuldade de articular tal conhecimento com a vida, a realidade social, o lidar com os outros. É a socialização comprometida, a ignorância certificada.

Viraram moda, o grito, o berro, a bestialidade e a reprodução em larga escala de  conteúdos superficiais e arcaicos de conhecimento, sem sua transposição para a realidade. Estudos sem relevância social. Virou cenário de auto-importância e fantasia intensa, a criação de um pequeno mundo interior isolado. Psicose é isolamento, dificuldade de percepção da realidade, viver fora de tempo e espaço delimitados e definidos. Vivemos em um universo repleto de pessoas anacrônicas, velharias, cheias de si, que mostram ao mundo sua ignorância.

O mesmo ocorre com o meio da cultura no qual o valor da arte, e da subjetividade se perde diante dos instintos. Cultura sucateada há décadas. Arte que perde seu valor de formação intelectual, critica de valores passando a ser produto vazio, fachada.

Este cenário que cito do meio acadêmico e artístico migra para as ideologias, partidos, religião, práticas sociais, vida afetiva. As fantasias proliferam em vários “achos”, nos quais a vida instintiva assume o controle,  gerando este retrato de belicosidade complicada no qual não há dialogo. O mundo do saber, da academia, das artes vira materialista, árido, com poucas ou raras perspectivas para o simbólico, o sutil, a dialética e a troca. No lugar surge uma epidemia visceral de doutores e proprietários da razão de profunda ignorância presos apenas a sua própria instintividade sem reflexão crítica construtiva. A ordem social é a desconstrução, o descaso, a superficialidade e o materialismo instintivo

O inconsciente por sua vez em uma busca desenfreada de equilíbrio torna frequentes delírios, mania de perseguição, fantasias, megalomania e o vitimismo, com significativas rupturas dos valores, das ideologias, do sentido de vida. Instala-se na sociedade um caos no qual as fantasias tornam-se agenciadas como políticas de Estado, rompendo o tecido social de forma cruel, transformando uma nação em uma bacia de almas perdidas.

Muitas epidemias de transtornos de ansiedade ou depressão têm início no amplo agenciamento de uma vida provisória em fantasia, distante de uma realidade construtiva. Tentativas ou  suicídios têm início quando uma pessoa percebe a distância entre sua vida real e a do mundo que criou.

Quantas milhares de pessoas não existem apenas em fantasia? Quantas não têm enorme dificuldade em lidar com dinheiro, trabalho, carreira, aprendizado e estudo, com a vida afetiva e espiritual? Quantas não vivem apenas uma fachada, um personagem, uma “personalidade inventada” para agraciar um determinado grupo? Lidamos com isto em consultório, auxiliando pacientes a reencontrar sua essência, consciência, realidade, equilíbrio diante de uma construção social de alucinação.

Jorge Antônio Monteiro

A doença instalada no Brasil graças ao agenciamento de várias políticas de Estado tem progressão geométrica. Não é por acaso que os consultórios estão abarrotados. A insanidade é forma naturalizada de ser pelo distanciamento do ser humano de sua própria essência. O retorno exige esforço para decantar fantasia da realidade, uma consciência sobre sua autobiografia e os dons naturais, os limites do mundo exterior e interior e muita força de vontade para crescer e sair de uma intensa apatia, em um cenário de percepção de mundo e homem distorcidos – aspectos que tenho  descrito em meus artigos nos últimos 15 anos. Na terra do delírio quem tem consciência pode fazer a diferença… e sobreviver.

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG.

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