E agora, Marconi?

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Vassil Oliveira

Quatro vezes governador, o tucano pode ganhar a política nacional e perder a política local. A não ser que se renove. De novo

No dia 5, Marconi Perillo (PSDB) foi a Inhumas inaugurar a duplicação e iluminação do trecho urbano da GO-070. Um de dezenas de atos que marcaram os últimos dias de seu quarto mandato de governador. No dia seguinte, já estava marcada sua renúncia, para as 20h, na Assembleia Legislativa. Marconi estava emocionado. Olhando para o deputado federal Roberto Balestra (PP), falou com sinceridade: “Um amigo de longas datas.”

Vinte anos antes, neste mesmo momento, Balestra era sem ser de fato candidato a governador de Goiás, pela oposição. Marconi corria para garantir a reeleição de deputado federal. Balestra era candidato porque tinha brigado e vencido a disputa interna. Não era porque a sua campanha não deslanchou, e ele vivia o ocaso do sonho de disputar o governo.

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Foi com a renúncia de Balestra como candidato oposicionista que abriu-se a oportunidade para Marconi surgir como a alternativa em grupo de lideranças políticas que, depois de brigar tanto, em anos anteriores, parecia esgotado na disposição de ir para o confronto com o MDB, principalmente contra um mito: Iris Rezende, com mais de 80% de intenções de voto.

Marconi topou com a arrogância dos jovens que não fogem à luta. Negociou bastante, com os companheiros, organizou-se como pode para abrir picada no momento em que a campanha oficial começasse e não parou mais. Marconi foi apresentado ao povo goiano por nomes mais conhecidos como Ronaldo Caiado e Lúcia Vânia – que tinham disputado o governo em 94 e perdido para Maguito Vilela -, porém foi essa arrogância o combustível diferencial a puxar a vitória.

Arrogância. Petulância. Determinação. Coragem. Força. Todos esses adjetivos se encaixam na trajetória do tucano. Como pontos positivos, mais do que marcas negativas. Desde então, o mesmo Marconi se reinventa. O mesmo Marconi vence a si mesmo em seguidas eleições. O mesmo Marconi entra e sai do governo. Agora, está saindo. Aos 55 anos, poderá imaginar que não há tempo para a volta?

No mesmo dia em que esteve em Inhumas, ele visitou a Cidade de Goiás. Também emocionado, em clima de despedida, no final do discurso ele abriu o coração. Adeus? “Vou dizer até breve. Continuarei sempre presente, solidário, parceiro, amando o povo desta terra.” Tantas emoções na alma revelada. “Deixo a todos um beijo de paixão, de carinho, de respeito, de amizade e de eterno compromisso”.

Há um Marconi para cada eleitor goiano. Amá-lo ou adiá-lo é uma disputa constante. É neste momento, depois dos vinte anos de mando no Estado, os sentimentos opostos parecem mais latentes, a ponto de se ver na eleição de outubro, mais que uma disputa entre Ronaldo Caiado (DEM), Daniel Vilela (MDB) e o governador que o substitui e tentará a reeleição, Zé Eliton (PSDB), um combate sobre o seu legado.

A maratona de vistas, além de despertar a emoção, como nas mais calorosas despedidas, é também um rush de campanha. Ele é candidato a senador. Porque Marconi chora, fala alto, sorri, bate e rebate, e não muda: vai e vem. O tempo novo que começou com mote de campanha e virou marca de governo, e antes acima de tudo um Estado interior. Marconi não sobrevive sem respirar poder.

Desta vez, o desafio não será mais vencer o ‘imbativel’ Iris. Mas vencer a si mesmo. Derrotar a fadiga de material depois da longa exposição no topo das disputas políticas em Goiás, na definição de marqueteiros. Reinventar-se, para não ser vencido pelo novo. Ele já esteve no Senado. Foi eleito em 2006, após também renunciar ao governo em abril. Voltou ao governo em 2010, depois de renunciar a seis anos de mandato em Brasília.

Tanto naquela época quanto agora, o objetivo era o Senado como porta de entrada para a política nacional. Com a diferença de que, passados quatro mandatos no governo, uma repetição de estratégia não seria novidade. Seria uma velha saída. Como acabou se revelando para Iris a candidatura de 98, na onda positiva como ministro da Justiça, porém no rastro de um voo nacional frustrado, quando tentou ser candidato a presidente da República e perdeu na preliminar: para Ulisses Guimarães, dentro do PMDB.

Desta vez, o desafio não será mais vencer o ‘imbativel’ Iris. Mas vencer a si mesmo. Reinventar-se, para não ser vencido pelo novo.

Iris de novo

E nada mais emblemático que no seu último dia como governador, Marconi tenha passado um bom tempo exatamente com Iris, que aos 84 anos segue no poder, como prefeito de Goiânia. Eles se encontraram de manhã, na entrega de 1.616 apartamentos da primeira etapa do Residencial Nelson Mandela, no Conjunto Vera Cruz, região Oeste de Goiânia. Ação conjunta de dois líderes que, apesar de frente a frente em frequentes disputas, sempre surgem lado a lado quando no poder: Marconi como governador, Iris como prefeito de Goiânia também quatro vezes já.

A história se repete em pontos. Em 2006, Marconi e Iris não disputaram diretamente para o governo. Mas o cenário se parecia: o tucano buscava o Senado, o emedebista estava na prefeitura da capital e ambos tinham apadrinhados em campanha. Venceu, na época, Marconi, com seu vice, Alcides Rodrigues. Perdeu Iris, com Maguito Vilela. Hoje, outro vice tenta a reeleição, e o filho de Maguito, Daniel, é o nome do MDB.

Como candidato a senador – o que ainda não admite, sem negar -, Marconi Perillo é tido como imbatível por aliados e adversários. Por ora, ele não assume que será candidato, nem nega, repetindo velha estratégia – dele e de Iris – de só admitir na última hora, nos braços dos companheiros. Por ora, ele evita o clima de favoritismo, talvez escaldado pelos idos de 98.

Na agenda da passagem de governo, está previsto que Marconi fará a transmissão da faixa e viajará para o exterior. Ficará distante por alguns dias, para que o novo governador se estabeleça e para que defina os próximos passos. Vice-presidente nacional do PSDB, ele acena com a possibilidade de se dedicar à campanha do presidente da legenda, Geraldo Alckmin, que se afastará para disputar outra presidência: a da República.

Mas, se Marconi vai cuidar da campanha de Alckmin, quem cuidará de sua campanha em Goiás? Ou de seu aliado, Zé Eliton. Entram as especulações, que vão desde não ser candidato a nada até a ser candidato a deputado federal, eleição que, acreditam seus aliados, ganharia com um pé nas costas. As especulações em torno de Marconi fazem parte do show. Cerca de um mês atrás, provocado sobre seu futuro, ele disse apenas, mostrando seriedade e olhando para o alto: “Não sei o que vou fazer ainda. Vou decidir depois”.

Largar tudo e apostar na eleição de um Alckmin que tropeça nas pesquisas é um risco inusitado para quem sempre calcula o passo seguinte. Uma explicação para o que ele pretende fazer estaria justo na acelerada movimentação das semanas que antecederam sua saída do governo. Nesse momento, elo estava na prática antecipando a campanha ao Senado. Depois, é só dosar o ritmo local com o nacional, mantendo um pé em cada disputa. Risco para sua eleição, mas calculado.

Em aberto está a estratégia a ser adotada pelo tucano agora que deixa de ser um governador puxando seu vice e passa a ser um ex à espreita de seu aliado no poder. Toda a preparação para o vice assumir, desde o início do ano passado, foi construída em cima da reeleição de Zé Eliton quando chegasse ao Palácio das Esmeraldas. Isso tanto firmou Eliton como nome na base, quanto laçou os dois em um destino comum. Um é o outro.

Não dá pra separar um do outro, por exemplo, quando ganham volume declarações colocando em risco a candidatura de Eliton: ele vai sair para entrar o plano b. Obra de Marconi? Sendo ou não, o problema passa a ser de ambos no momento em que coloca em risco não apenas Eliton como candidato, mas o bom relacionamento entre criador e criatura. Um ajuda o outro, mas um também pode derrotar o outro.

A tensão é traduzida numa queda de braço nos bastidores que remete ao ex-governador Alcides Rodrigues. A Eliton teria sido dito que ele não pode “trair”, como teria feito o outro vice. De Eliton teria partido o contra-recado: não sou Alcides – no sentido de que não reagirá com a mesma paciência que o ex, muito menos com a mesma tolerância. No cerne da refrega está não a vontade de brigar, mas a mensagem que lealdade se paga com lealdade. E de que o discurso criado contra Alcides ontem é motor de conflito na transmissão do cargo hoje.

Marconi é Zé

Em palavras trocadas, Marconi Perillo e Zé Eliton se entendem bem. Em Formoso, no dia 16, o primeiro disse publicamente o que pensa do segundo: “É competente e comprometido com esse projeto de governo”. Dia 19, falando ao Fórum Empresarial, as referências foram ainda mais generosas: “Zé Eliton tem capacidade de diálogo, conhece a fundo o Estado e passo o governo para um homem sensato, de fé, preparado e culto”; “(Zé Eliton) embora jovem na política, é equilibrado, conhece a fundo as questões do Estado”.

Mesmo as chances eleitorais de Eliton, ainda baixas nas pesquisas de intenção de voto, foram minimizadas dia 7, durante entrevista à TBC, com mais referência positiva: “Pesquisa reflete o momento. Temos estudos que mostram que 20% da população não conhecem José Eliton. Temos nomes na eleição que são muito conhecidos. Eu não tenho dúvidas que na medida em que ele assumir o governo e que houver a comparação de história, planos e propostas, manteremos esta linha de desenvolvimento”.

Eliton devolve elogios com elogios. “Marconi tem, em sua trajetória de homem público, a marca da modernização, de um Estado que caminha para frente”, disse na Cidade de Goiás em 7 de março. “Marconi é hoje, sem dúvida alguma, um dos maiores líderes políticos de Goiás e do Brasil”.

Na campanha, Marconi e seus governos estarão presentes ajudando Eliton ou criando embaraços. Significa que Marconi estará na campanha para o Senado, se concorrer, e para o governo, mesmo se não concorrer a nada. E estará em teste até as convenções a sua capacidade de aglutinação na mesma medida que é cobrada de Eliton. Que base aliada restará ou resistirá em mais uma eleição para o grupo que lidera? Que futuro restará a ele caso perca a eleição?

Seus adversários, os mesmos que não conseguiram derrotá-lo diretamente, esperam só um descuido seu

As dívidas que envolvem eventual plano b e que colocam em xeque uma nova vitória do grupo marconista explicam um pouco o clima de apreensão na base, que receia mais que tudo uma vitória se Ronaldo Caiado. Se não for contido, pode ser estouro da boiada, com a conta sendo paga mais por Marconi do que por Eliton: a mira de Caiado todos conhecem. Conhecem e temem.

No horizonte de Marconi Perillo estão, portanto, a chance de mais uma vitória, ou de duas vitórias: dele e de Zé Eliton. Com passaporte para um futuro na política nacional como líder inconteste em seu Estado. Mas está também a perspectiva de uma derrota com consequências imprevisíveis.

Ainda que se considere que uma eventual vitória de Daniel Vilela seria menos danosa para Marconi, basta um olhar para o jovem governador que assumiu o poder em 1999. Para este jovem e para o que a sua arrogância, a sua petulância e a sua coragem resultaram a Iris Rezende e sua família. Daniel tem hoje a mesma idade que tinha o moço da camisa azul no ano da vitória histórica.

Velho dilema

Há no legado de Marconi conquistas que ultrapassam os tempos. A criação da Universidade Estadual de Goiás. Os hospitais de urgência. O Crer. O impulso à industrialização do Estado. Os programas sociais. A modernização administrativa. A manutenção e ampliação da infraestrutura viária. Todos feitos que permanecem.

Assim como a profissionalização política, com exercício do poder 24 horas por dia, como se dormir ou descansar fosse um desperdício de tempo diante do prazer que sente em exercer esse poder. Ele mostrou como ganhar eleições na prática. E como é possível sobreviver a denúncias e crises com potencial destruidor, como o Caso Cacheira.

Manter tudo isso vivo e avançar no tempo com mais vitórias não é tarefa fácil. Seus adversários em Goiás, os mesmos que não conseguiram derrotá-lo diretamente, esperam só um descuido seu. Um cochilo. Um erro. Este ano, seus acertos estão em campo, mas também a ameaça de um contra-ataque fulminante. Do tipo que pode até lançá-lo para  um voo nacional, mas sem o chão para um pouso local de emergência.

Marconi precisa sobreviver a Marconi. Precisa vencer o Marconi que se criou nos 20 anos que se passaram. Precisa vencer a história, depois de ter vencido o dono da história. Aos 55 anos, precisa renovar-se mais uma vez, para não prender-se ao passado que criou. Um novo Marconi, maior que o dos velhos tempos de governador.

Eliton e Marconi – Que futuro restará a ambos após estas eleições?

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