Goiás 2018, 2019, 2020… | O que há de novo?

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Mal colocamos o pé no ano eleitoral e o embate entre os pré-candidatos começou. Especialistas e populares apontam os desafios para o futuro do Estado

Daniela Martins

Governo vai, governo vem e o povo segue carente de saúde, educação, segurança, moradia, emprego, renda justa. Direitos básicos, fundamentais. A pergunta é retórica: o que o brasileiro precisa? Porém, não tem saída. É urgente discutir estratégias, possibilidades, caminhos para que o poder público cumpra a sua função primordial: proporcionar o bem comum.

Nesse sentido, especialistas em áreas diversas apontam uma série de desafios que, em Goiás, passam a pesar sobre os ombros do governador José Eliton (PSDB), companheiro de chapa e por duas vezes vice de Marconi Perillo que acaba de assumir o comando do Estado em pleno ano de eleições, de Copa do Mundo, de incertezas por aqui e, especialmente, no cenário político-eleitoral nacional, e de crise econômica, que se arrasta e permanece – firme e forte – no calcanhar do brasileiro.

O tempo é pouco, as tarefas são muitas. Impossível deixar a casa em ordem até dezembro chegar. José Eliton, Ronaldo Caiado (DEM), Daniel Vilela (MDB)… Quem assumir em janeiro de 2019 terá tanto ainda por fazer. Assim, mais que pensar em alianças, em disputa de votos, em calcular resultados e avaliar cenários eleitorais, é hora de candidatos a candidatos se atentarem aos anseios da população. É hora de colocar em prática o velho clichê de “ouvir a voz das ruas” e responder às necessidades da sociedade com a elaboração de planos de governos factíveis. Ouvir é um começo. Ouçam.

Ponto nevrálgico: a segurança

Nildo Viana

O direto de ir e vir é constitucional, e o goiano quer exercê-lo sem se sentir vulnerável à violência. O sociólogo Nildo Viana (foto), professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pós-doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), sinaliza que o desafio do governo de Goiás na área da segurança é, em um primeiro momento, manter as políticas existentes e tentar uma maior efetividade.

“Com a atual situação financeira do País não será possível realizar mudanças e de maior alcance. Enquanto discurso eleitoral, muitas promessas podem aparecer, mas a falta de recursos faz com que sejam ‘promessas irrealizáveis’, um meio de ganhar votos”, destaca. Para os anos seguintes, enfatiza, a política de segurança dependerá da evolução da situação econômica.

Há uma ressalva. O maior problema relacionado à violência não são as políticas de segurança, especificamente. Nildo Viana vê a solução nas políticas de assistência social, de educação, saúde e na política industrial, que é geradora de emprego e renda. Segurança pública é, em grande parte, dependente do sucesso das políticas sociais.
“São as políticas sociais que atacam as raízes da criminalidade e da violência. Para realizá-las são necessários recursos, competência, criatividade, o que não tem sido encontrado em níveis de governos federal e estaduais”.

“Por um lado, há relativa falta de recursos e se há redução do chamado ‘crescimento econômico’, isso se agrava. Se há o crescimento populacional e aumento da pobreza, então os problemas se avolumam e as soluções são cada vez mais difíceis”, resume.
Por outro lado, completa, a competência e criatividade são fundamentais para minimizar os efeitos geradores de problemas na segurança pública, apesar de haver uma relativa escassez de recursos. “Competência e criatividade são mais necessárias nesses momentos nos quais diminuem os recursos. No caso brasileiro, que se reproduz em Goiás, há escassez de recursos e competência e criatividade”, critica.

Desgaste e novos rumos à política

Márcio Lima

José Eliton, que assumiu o governo com a saída de Marconi Perillo, terá como maior desafio se estabelecer e dar sua “cara”. A observação é feita por Márcio Lima, da BM2 Comunicação, que atua na área de comunicação e marketing político há 27 anos, em Goiás.

“Detalhe: tem espaço curto para imprimir seu modelo de governar. Prova deste desafio é uma migração de partidos da base para candidaturas da oposição”, acrescenta.

O cenário brasileiro com muitos políticos e partidos envolvidos em escândalos de corrupção, um cenário desgastado, será o grande gargalo dos candidatos em 2018. “Vai ser difícil convencer o eleitor a sair de casa para votar. Apresentar propostas sem consistência e solidez não será bem recebida pela população”, alerta Márcio Lima.

 


POVO, FALA!

Jamile de Paiva

“A população de Goiás precisa de mais segurança pública, e ainda mais urgente é a saúde, que está um caos. Não há atendimento digno à população. O desafio do próximo governador é colocar ordem no estado, ordem nas contas públicas.
Jamile de Paiva Mesquita, 30, atendente

 

 

“O governo tem trabalhado bem no quesito infraestrutura. Mas nos serviços básicos, estado e municípios deixam a desejar. Eles afirmam que tudo está bom, e não é o que é visto pela população. A arrecadação é exorbitante com pouquíssimo retorno nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança. É urgente um serviço básico de saúde e um enfrentamento não apenas de forma preventiva.”
Lorran Henrique Alves, 24, autônomo Horticultor


 

Crise fiscal, austeridade

Francisco Tavares (Foto: Carlos Siqueira/ Ascom UFG)

“O grande desafio para os estados reside em lidar com a profunda crise fiscal do setor público”, reporta o cientista político e professor da UFG, Francisco Tavares. O erro, no entanto, está na forma de enfrentar o problema.

Diante da dificuldade, governantes e candidatos anunciam medidas de austeridade como solução. Acreditam que, com menos gastos públicos, as contas tendem a se equilibrar. “A experiência, contudo, demonstra que esse caminho não costuma produzir resultados adequados, pois sacrifica setores como educação, obras para o desenvolvimento e saúde”, ressalta.

Uma saída seria rever a arrecadação para aumentar receitas. “Há muito que fazer quanto a isso, em Goiás e no restante do país. Recentes estudos demonstram que é possível cortar incentivos e exonerações, que não trazem empregos nem investimentos, ao contrário do que se acredita”.

É igualmente possível, continua, rever as prioridades quanto aos tributos estaduais, com ênfase no ICMS, cobrando-se mais de produtos supérfluos e luxuosos, e no imposto sobre doações e heranças, que possui alíquotas baixíssimas em Goiás e no Brasil em comparação com outros países.

O professor defende que crise fiscal, crescimento econômico, geração de empregos e de rentabilidade para o empresariado são elementos que caminham paralelamente, diferente do que pensa o senso comum.

“Se o Estado gasta um pouco mais com educação, ciência e tecnologia. Se decide investir um pouco mais em ensino técnico e infraestrutura, isso tende a criar um ciclo positivo na atividade econômica privada”, considera.

Ele explica: o investidor vai se beneficiar de infraestrutura mais adequada, de mão de obra qualificada, o que tende a aumentar a produtividade e gerar mais tecnologia. Portanto, diz, gasto público é algo que gera mais atividade econômica e não o contrário.

O que o governo tem de fazer, segundo Francisco, é impulsionar a economia mesmo que esteja em uma situação de dificuldade fiscal. Eventualmente, enfatiza, pode até se endividar para fazer a roda da economia girar. “Com a economia mais ativada, o Estado arrecada mais. A gente chama isso de multiplicador fiscal”, finaliza.

 


POVO, FALA!

Antônia de Souza

“Goiás precisa muito mesmo que melhore a saúde e o transporte. Tenho dó de quem anda no transporte cheio. E não é só isso. Não temos cultura, lazer e educação de qualidade. Que o próximo governo venha com um pacote enorme de boas escolas, postos de saúde e opções culturais. No nosso Goiás não tem cultura, poucas pessoas têm acesso a teatros e lugares de cultura.”
Antônia de Souza, 42, agente comunitária de saúde

 

Fernanda Pereira

O desafio dos governantes é a saúde. Todo dia a gente vê as histórias nos jornais, dá tristeza. Eles devem oferecer saúde à população e não fazem isso. Quando você tem saúde, o resto corre atrás, trabalha para conseguir.”
Fernanda Pereira, 31, autônoma

 

 


 Saúde, presídios e o social

Marcos Cristiano dos Reis

Casos recorrentes de dengue e de gripe H1N1, inclusive, com mortes registradas nos últimos dias são um dos destaques do professor da Universidade Alfredo Nasser (Unifan), o cientista político Marcos Cristiano dos Reis, para reforçar um desafio que tem sido apontado por grande parte da população: a atenção à saúde pública. Marcos cita também a necessidade de uma maior conscientização acerca dos direitos sociais e humanos, com foco na diminuição dos índices de criminalidade.

“Já estamos no quarto mês do ano e os problemas se acumulam. Vale citar que, segundo a Secretaria [Estadual] de Saúde, nesses primeiros meses já foram registrados quase 27 mil casos de dengue, 12,66% a mais que o mesmo período de 2017, isso sem levar em conta os últimos casos de suspeita do H1N1 na região metropolitana”, enfatiza.

No campo social, é urgente o combate ao feminicídio em Goiás. Marcos lança mão de dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSPGO) para afirmar que o índice de tentativas de assassinato de mulheres em janeiro e fevereiro deste ano é mais elevado que os registrados no mesmo período em anos anteriores. “Homofobia e transfobia também são crimes graves em Goiás. O Estado é o 10º do país com o maior número de homicídios contra a comunidade LGBT”, relata. Todos estes são indicadores, comenta o professor, das fortes tendências conservadoras e patriarcalistas que ainda dominam a cultura goiana.

Marcos dos Reis relembra ainda as mortes de nove presos durante a rebelião de 1º de janeiro, em Aparecida de Goiânia. À época, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos divulgou documento em repúdio à violência e enfatizando a obrigação do Estado em investigar todas as mortes das pessoas que estavam sob a sua custódia. “A falta de controle no interior dos presídios foi criticada pela Comissão, que concluiu que a segurança acaba sendo realizada pelos próprios presos por falta de infraestrutura, que deveria ser fornecida pelo Estado”, destaca.

O relatório trouxe à tona também, diz Marcos, o fato de que os presídios são espaços insalubres, onde não existem políticas públicas que promovam a reabilitação e a readaptação social dos presos. O resultado é um ciclo interminável de exclusão social e reincidência criminal, que chegam a um lugar comum: o crescimento vertiginoso da violência nas cidades.
Em síntese, o cientista político avalia que a ausência de políticas públicas efetivas para a saúde, a segurança e a habitação é comum e se repete por todo o Estado. Situação agravada, segundo ele, nas regiões do interior e norte de Goiás.

As propostas dos candidatos ao governo devem contemplar ações de conscientização dos direitos humanos, de combate à intolerância e de promoção de políticas de segurança além de uma estrutura de políticas de saúde que valorize a prevenção. “Do contrário, governos estarão contornando e protelando estes problemas sociais que são emergenciais no Estado”, assevera.


 

POVO, FALA!

“O desafio é muito grande para José Eliton: equilibrar as contas públicas e finalizar as obras iniciadas, porque todo mundo sabe que Marconi [Perillo] só fez um espelho para se candidatar ao Senado. Tem muito serviço para fazer e muita dívida para pagar. Mas há, por outro lado, um legado positivo que Marconi deixou: o pagamento do funcionalismo público que nunca atrasou. Vamos ver se a próxima gestão vai dar continuidade.”
Adenilson Coutinho, 49, impressor de offset

“O que a população mais precisa é educação porque melhoraria as outras áreas. Com a educação nasce a empatia e o dever de pensar não só em você, mas no próximo. Assim teremos uma melhor qualidade na segurança pública e melhoria de vida. Outro desafio para o próximo governador é melhorar a saúde, porque está um caos.”
Stefany Lemes Martins, 28, assistente administrativo


Incentivos fiscais e qualificação

Eber Vaz

“Qualquer que seja o governador, ele deve continuar com a mesma política na área econômica. Não há muito que fazer”. A opinião, que pode ser considerada controversa por muitos, é do economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Eber Vaz (foto). Ele refere-se à política de incentivos fiscais, característica forte dos governos tucanos que em Goiás marcou a gestão de Marconi Perillo, e que é considerada por Eber como a responsável pelo crescimento do PIB do Estado acima da média do PIB nacional em 2017. Quer dizer, Goiás cresceu mais economicamente do que a média de crescimento nacional.

“A política de incentivos fiscais propiciou a chegada de grandes indústrias aos municípios goianos. Imagino que de agora até o final do ano [durante gestão de Zé Eliton] não há como fazer muito. Eliton não vai precisar fazer muito esforço porque a política econômica já está bem encaminhada”, avalia.

Grandes indústrias têm faturamento alto, assim, argumenta o economista, apesar dos incentivos fiscais, o Estado se beneficia de uma considerável arrecadação e faz a economia girar. “Goiás não tem condições de desenvolver empresas próprias para atingir a dimensão que têm as multinacionais”, assegura.

Com relação à geração de empregos, Eber também acredita na potencialidade das indústrias que chegam ao Estado. Embora, a geração direta de vagas seja pequena, grande indústrias provocam o surgimento de outras empresas ao seu redor. “Elas geram demanda de serviços terceirizados, como transporte, logística, incineração de resíduos. Isso gera um efeito multiplicador na economia”.

A dificuldade em gerar empregos diretos está na baixa qualificação dos profissionais em Goiás, o que faz com que as multinacionais tragam pessoal de fora para trabalhar aqui. Um dos desafios do Estado, então, é a melhoria na educação e qualificação profissional. “A UFG e a UEG [Universidade Estadual de Goiás], que são públicas, devem aprimorar um pouco mais a formação de pessoas para atuar nessas empresas [multinacionais]”, diz.No quesito infraestrutura, Eber Vaz considera que Goiás consegue atender bem porque as indústrias estão sempre concentradas, em polos. “Temos polos em Aparecida de Goiânia, Rio Verde, Anápolis, Catalão e agora há uma expansão, com as empresas chegando também a cidades próximas, mas sempre em locais que têm estrutura e que ficam perto das grandes rodovias”, explana.

Contudo, Goiás ainda é carente de uma malha viária melhor. Para o economista, esse ponto é um desafio. “E é complicado porque o Estado precisa fazer, mas não tem como reduzir os custos de manutenção depois. O ideal seria que fossem construídas e se fizesse a concessão dessas rodovias. Mas o fluxo de tráfego não é suficiente para gerar o interesse de empresas privadas e a manutenção acaba ficando nas mãos dos governos. Nós não somos nem pequenos demais nem grandes demais para entrar nesse mercado e alavancar determinados negócios”, afirma.

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