Entrevista | “Posso ser candidata a qualquer coisa”

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Fotos: Mônica Salvador
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Fabíola Rodrigues, Manoel Messias e Vassil Oliveira

Ex-secretária estadual de Educação, Cultura e Esporte de Goiás, Raquel Teixeira (PSDB) deixou seu posto com um intuito: buscar o posto de vice na chapa majoritária encabeçada pelo governador José Eliton (PSDB). Sabendo, porém, que a possibilidade de se formar uma chapa pura tucana é muito difícil, devido a quantidade de partidos que compõem a base aliada, Raquel revela, nesta entrevista concedida à Tribuna do Planalto na última semana, que também poderá se candidatar a qualquer cargo, inclusive voltando a ser deputada federal, cargo que ocupou por dois mandatos. Além da política, ela também fala sobre o legado deixado por ela na Seduce, dentre outros assuntos. Confira.

Tribuna do Planalto – A senhora deixou a Secretaria com possibilidades de ser candidata. Já existe alguma definição de projeto?

Raquel Teixeira – Não. É claro de que agora até a data das convenções todos os acertos, conversas serão intensificados. Quando eu sai do Instituto Jayme Câmara e assumi a Secretaria, eu deixei claro que estava voltando para a vida pública, coisa que eu achava que tinha encerrado. E ao me desincompatibilizar no dia 6 de abril, eu também estou dando uma sinalização clara que estou na vida pública, mas também político-partidária. Então, eu sai na data de desincompatibilização para falar “estou no jogo político”. Agora, em que posição vou jogar, isso é uma coisa que é definida pelo conjunto do partido, do grupo político ao qual eu pertenço. Então, agora que vão começar as discussões.

Enquanto a senhora estava na Secretaria a possibilidade ventilada era de que a senhora poderia ser vice na chapa de José Eliton. A senhora teria que estar em outro partido que não no PSDB.

Continuo no PSDB. Aliás, eu fiquei fora do PSDB até pouco tempo. Voltei para o PSDB porque a vida partidária…

A sra. voltou quando?

Não sei, tenho que olhar, mas fiquei quase três anos fora.

Voltou agora na última semana?

Não, foi um pouco antes. Mas porque eu voltei para o PSDB? É o partido onde eu convivi os anos em que eu estive na Câmara dos Deputados e a vida partidária tem uma dinâmica: você chegar de paraquedas em um partido político onde você não teve uma trajetória, uma caminhada para pleitear determinadas posições, eu me sentiria pouco à vontade. Então, achei melhor, mesmo com prejuízos que isso pode acarretar na composição de chapa final, eu preferi arriscar, mas me sentir à vontade, sem achar que estava violando alguma regra do jogo.

O fato de você e José Eliton estarem no PSDB fecha a porta para uma chapa pura de candidato a governador e vice?

Não. O quadro político-partidário no Brasil, em Goiás e em todos os estados está tão diferente do usual, tão inesperado, tão imprevisível, que eu acho que não há porta fechada para nada, como não há porta fechada para Marconi ser vice de Alckmin, o que seria uma chapa pura a nível nacional. Então, acho que estamos diante de um quadro eleitoral que pode ter situações não usuais acontecendo. A minha disposição era de estar livre para o que for necessário. Muitas pessoas têm me falado que acha que a densidade do nome deva pesar mais do que o partido político. A discussão está começando agora, estou preparada para esse debate.

Se não for vice, pode ser candidata a outro cargo?

Posso. Eu posso ser candidata a qualquer coisa. Como eu disse, ter saído da Secretaria quer dizer: “Estou no jogo”. A posição, como eu disse, vai ser definida pelo conjunto.

O fato de José Eliton estar ainda bem atrás nas pesquisas é um sinal ruim para a base aliada?

Não. O que as pesquisas têm mostrado é que ele é o único que está subindo. A tendência dos outros dois candidatos tem sido de queda e a tendência de José Eliton tem sido de subida. Inclusive na última pesquisa, que saiu ontem, ele está com menos pontos de distância do que o outro candidato. Eu acho que agora que está começando realmente a caminhada dele como governador, como autor dos atos. Ele tem tido uma agenda muito intensa, administrativa e política, está atendendo demandas, solicitações, visitas, cumprindo cronogramas. Acho que a tendência é ele ter um crescimento grande.

“Eliton é um homem intelectualmente preparado, trabalhador, ele tem que começar a agenda dele às 6h30 e vai até meia-noite. Em política, isso conta muito”

A sra. participou da costura dessa base em outras eleições. Está mais difícil agora manter a base unida do que antes, depois de 20 anos de poder?

Não. O Brasil está mais difícil hoje, 20 anos depois, por uma série de outras razões. E, como eu disse, acho que há um grau de imprevisibilidade não exatamente por causa da base. Acho que a base está coesa, está unida, claramente a base do governo tem uma capilaridade muito grande que nenhum dos outros dois candidatos têm e essa unidade e capilaridade mostrarão a sua força. O que está diferente, quando eu chamo de imprevisível, é a própria reação mais individual das pessoas. Há um nível de informação maior, as tecnologias de comunicação mudaram a uma horizontalidade nas opiniões para o bem e para o mal. Primeiro: há um nível de informação e há o nível de fake news, que é uma coisa assombrosa. Então, vamos pela primeira vez, talvez, ver uma eleição em que as pessoas vão estar respondendo, muitas vezes, emocionalmente – a gente sabe que a eleição é mais emocional do que racional –, aos estímulos que têm. Claro que há riscos, se você olhar, coisas recentes, fora do Brasil, a eleição do Trump foi definida pelos americanos de baixo nível de escolaridade. A saída da Inglaterra do Brexit foi definida pelos ingleses de baixa escolaridade. Se você olhar historicamente, há uma tendência de situações de polarização, uma radicalização à direita ou reações inesperadas da massa da população. Tudo isso está em jogo nesta eleição. Agora, eu acho que em Goiás, Marconi Perillo ainda é a grande liderança, dr. José Eliton é um homem intelectualmente preparado, trabalhador, ele tem que começar a agenda dele às 6h30 e vai até meia-noite. Em política isso conta muito, não há espaço para quem não tem disposição para o trabalho árduo, da madrugada até a madrugada. Ele tem essa disposição e eu confio muito nesse tipo de atitude.

Continuidade seria o mote de José Eliton para o eleitor?

É, é o que ele tem dito, a continuidade sem continuísmo. São coisas diferentes. A continuidade no sentido de evolução dos programas que já estavam engatilhados. Esse lançamento que vai fazer da Segurança Pública ou da Educação, ou da Saúde, ou de qualquer ação, avanços em políticas que já estavam acontecendo e que a circunstância atual requer esse avanço. Provavelmente se o governador Marconi Perillo estivesse aqui caminharia da mesma direção. Então, é uma continuidade de políticas com ações inovadoras que o atual momento requer, que o próprio avanço da política permitiu, que o próprio avanço das circunstâncias criadas permitiu. A evolução é isso, você vai criando condições para fazer outras mudanças. Então, acho que é isso que ele se refere quando fala da continuidade sem continuísmo. Esse sim seria ruim.

É o sentido do Novo Tempo Novo?

Esse é exatamente o novo tempo novo, avançar naquilo que significou mudança e que continuou mudando pela própria demanda da dinâmica da evolução do mundo, dos conhecimentos, das circunstâncias, tudo isso determina coisas novas.

Caiado lidera pesquisas, mas não tem estrutura. MDB tem estrutura, mas o candidato está atrás nas pesquisas. Qual é o adversário mais difícil?

Eu acho que essa coisa de estudar adversário não é o melhor caminho. Eu confio muito na trajetória, na postura, na autoconfiança do dr. José Eliton. Cada um dos outros candidatos têm um tipo de adversidade. Acho que para eles mesmos. Caiado é um adversário dele mesmo, tem coisas desse tipo que eu acho que vale a pena a gente concentrar na trajetória. É aquela coisa: a gente não escolhe adversário. Quem quer que seja o adversário, você tem que partir para ganhar. Eu costumo agir mais dessa forma.

Sua passagem pela Secretaria deixa algum legado?

Acho que o maior legado é na área pedagógica no sentido de ter envolvido todos os diretores e todos os professores no comprometimento com os resultados de aprendizagem. Esse foi o grande objetivo da minha gestão. Nós criamos um mecanismo de diagnóstico bimensal, a cada dois meses nós mensuramos quais as falhas em Língua Portuguesa e Matemática, por exemplo, que são as bases da formação do ser humano. E nós hoje temos uma equipe pedagógica capaz de responder em uma semana um exercício, as atividades de apoio aos professores. Criamos um circuito de gestão para a aprendizagem que envolve todos os diretores. Os diretores, hoje, diferentemente do que no passado, são capazes de interpretar dados de resultados de avaliações externas, por exemplo, a gente tem Ideb há quanto tempo, tem o Saeb há quanto tempo, mas aqueles números não significavam muita coisa para os professores e diretores na escola. Era uma coisa mais de gabinete. Hoje, depois de vários seminários, de vários momentos de formação, os diretores e professores estão muito envolvidos. Eles são capazes de olhar para o resultado e falar “Meu aluno precisa disso”, e entrar com exercício, porque se você deixar criar lacunas de aprendizagem o processo todo fica comprometido. A aprendizagem é um processo cumulativo.

“Ronaldo Caiado ou Daniel Vilela, a gente não escolhe adversário. Quem quer que seja o adversário, você tem que partir para ganhar. Eu costumo agir mais dessa forma”

Um assunto específico que teve grande polêmica foi a questão das Organizações Sociais gerindo escolas. Isso deve ser retomado?

Nós vivemos uma situação muito difícil, de ocupação de escolas em 2015 por conta de uma não compreensão do processo de gestão compartilhada. Creio que conseguimos desenvolver um modelo de gestão compartilhada com as Organizações Sociais que deveria ser testado. É uma forma inovadora de gestão. O modelo é bom, mas o que aconteceu? Ele foi impedido por uma liminar que o Ministério Público fez, o juiz acatou e ele está parado. Ele nunca foi julgado quanto ao mérito.

Vai ser retomado posteriormente?

Depende agora do Tribunal de Justiça. As duas liminares, houve uma em Anápolis e uma em Águas Lindas, foram acatadas e estão paradas para julgamento de mérito no Tribunal de Justiça.

“O maior legado é na área pedagógica no sentido de ter envolvido todos os diretores e professores no comprometimento com os resultados de aprendizagem”

A expansão das escolas geridas pela Polícia Militar e o ensino em tempo integral é um processo que deve continuar?

O processo de escola em tempo integral deve continuar expandindo. Essa é uma política pública de educação e é o caminho. Nós temos 204 escolas hoje em tempo integral e eu espero chegar em 1.200, que é o número de escolas que nós temos. As escolas conveniadas com a Polícia Militar não constituem política pública. Foram algumas que foram criadas e se expandiram a um número que não deve crescer mais, acho que expandiu até mais do que deveria, mas são escolas que geram bons resultados, algumas famílias lutam pelo direito.

O uso de tecnologias e a flexibilização curricular é o caminho da escola pública?

Depende. Depende do nível de escolaridade e do perfil do aluno que estamos falando. EAD não é o caminho para Ensino Fundamental, por exemplo. Então, depende muito da idade. Pode ser o caminho para jovens de Educação de Jovens e Adultos, que já passaram da idade, a partir do Ensino Médio. Então, depende do nível de escolaridade, da idade e até do perfil do aluno. Como eu disse, o sistema público tem que oferecer várias opções e esse Centro vai servir principalmente para o aluno do Ensino Médio vinculado com a formação profissional, que é o que a reforma do Ensino Médio prevê. A flexibilidade que a gente está falando hoje não é essa flexibilidade de completar com o EAD. Houve uma má interpretação do que o Conselho Nacional de Educação está fazendo. O que é a reforma do Ensino Médio? A reforma do Ensino Médio já foi sancionada pelo presidente Temer desde fevereiro do ano passado, já tem mais de um ano em vigor, ela tem duas vertentes, ela reforma a estrutura do curso e o conteúdo do curso. A estrutura já está aprovada.

De modo geral, essas ferramentas são importantes?

É claro. Faz parte do mundo que a gente tem hoje. Acho que não há como fugir das mudanças que a tecnologia nos impõe.

Na sua gestão houve grande avanço em relação à discussão da BNCC. Qual foi a importância de Goiás para ser um dos pioneiros da reforma da BNCC?

Vou te dar um exemplo prático: Goiás foi tão pioneiro e chamou tanta atenção que o Wisley Pereira, que era meu superintendente de Ensino Médio, que coordenou esse trabalho, hoje é o coordenador nacional da reforma do Ensino Médio no MEC. Ele foi chamado para Brasília em consequência do trabalho que Goiás fez, que deu enorme visibilidade.

E em relação à Cultura e Esporte?

Se você me perguntar o legado, é um legado que não está pronto, mas acho que o grande legado na área da Cultura é o Circuito Cultural da Praça Cívica. Nós tivemos um trabalho grande de, primeiro, conseguir trazer para a Seduce aqueles sete prédios que compõem o conjunto art déco da Praça Cívica. Hoje todos aqueles prédios pertencem à Seduce com a definição de que eles não serão prédios administrativos mais. A PGE está saindo de lá, é a última que ainda está ali, mas já está saindo. Fizemos um projeto maravilhoso, que vai mudar o perfil. A força mais poderosa de revitalização do Centro de Goiânia é esse perfil, esse projeto. São sete prédios, vai ter uma passarela entre eles, fazendo uma comunicação. O primeiro prédio, onde era a antiga Agepel, vai ser o Museu do Alimento, o primeiro no Brasil, em parceria com o Museu do Amanhã e o Museu de Ciências de Londres, interativo, moderno, com ponto gastronômico. A visita termina com um restaurante lá dentro. Vizinho de onde hoje é a PGE vai ser o Museu da Ciência, em parceria com a Universidade Federal de Goiás e a Embaixada de Governo de Israel, que está cedendo equipamentos e tecnologia. O próprio Palácio das Esmeraldas, o antigo salão Gercina, hoje é Sala de Cultura Gercina Borges. Hoje tem um painel mostrando a evolução, marcos da Cultura em Goiás. É aberto, basta agendar uma visita ou um evento que queira realizar ali, mas já é de domínio público, não é mais uma coisa privativa do morador do Palácio das Esmeraldas. Depois a gente vai ter o Museu de Goiás, Museu da Imagem e do Som. Pega onde hoje é o Marieta Telles, vão ter dois cinemas, onde hoje é o Cine Cultura, dois cinemas de superqualidade, enfim. E no meio de tudo, pontos de encontro, cafés, discussão. Então, ali vai ser

Já existe cronograma?

Está pronta a licitação dos três primeiros prédios e começar a fazer. Vai mudar completamente.

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