O pêndulo da sucessão

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Vassil Oliveira

Os dois partidos balançam para o governo e para as oposições. Até as convenções, vão jogar com a paciência dos candidatos

PP e PSD balançam mas não caem nem para o lado do MDB, nem para o do PSDB. Mantendo o clímax de indefinição de rumo, os dois partidos seguram a definição das alianças para a disputa deste ano pelo governo de Goiás. Eles podem desequilibrar o jogo. São o pêndulo da sucessão goiana.

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Os dois principais candidatos a deputado federal do PSD já deram indicativo claro de preferência pela permanência na base aliada, apoiando a reeleição do governador Zé Eliton (PSDB). Thiago Peixoto, que tentará a reeleição, e Francisco Júnior, hoje na Assembleia Legislativa, têm nomeações no governo e discursam com frequência em defesa do tucano.

Quem faz a linha contrária, falando em desistência de Zé Eliton como candidato e acenando para acordos com o MDB de Daniel Vilela e o DEM de Ronaldo Caiado, é o presidente da legenda, Vilmar Rocha. Vilmar não se entende com o governador faz tempo. Os dois já deram mostras claras de que promover diálogo, entre eles, é missão quase impossível.

A sintonia do pessedista é com o ex-governador Marconi Perillo, e remonta à construção do chamado ‘tempo novo’, em 1998. Nas quatro campanhas e nos quatro governos de Marconi (1998, 2002, 2010 e 2014), Vilmar foi figura-chave. No ano passado, sem se entender com Zé Eliton, o presidente do PSD passou a apontar dois caminhos: candidatura própria ao governo; troca de Eliton por um outro nome.

Segundo Vilmar, depois de 20 anos no poder, o grupo marconista precisa de renovação. É o que não enxerga no atual governador. Na base dessas declarações estaria outra razão, contra-atacam os defensores de Eliton: a falta de espaço para ser candidato a senador. Na chapa governista, as negociações em andamento apontam para isso: as duas vagas já estão ocupadas por Marconi e a senadora Lúcia Vânia (PSB).

Quem manda no PSD, os deputados ou o presidente da legenda? Quem vai definir o lado, lá na frente? A incerteza pesa nas conversas, porque, por mais que se tenha em mente que o histórico do partido é de base do governo, fica sempre a expectativa de que, dessa vez, tudo pode ser diferente. Afinal, o Brasil está diferente, com alianças e desacertos partidários antes inimagináveis.

Nada diferente do clima no PP. Roberto Balestra e Sandes Júnior, velhos de casa, e o recém-chegado Heuler Cruvinel, todos deputados federais, defendem a permanência da aliança com o governo. Alexandre Baldy, que assumiu o comando partidário agora, no fim da janela partidária, não. Ele mantém o discurso de suspense. Deixa a porta aberta para Zé Eliton, mas também para Daniel Vilela e Ronaldo Caiado.

Ministro das Cidades e presidente do PP, Baldy tem outro atrativo, especialmente para o MDB: os pés dentro de Anápolis, sua base. E o recado dele está dado: uma possível indicação de sua mulher, Luana Limírio Baldy, de família representatividade anapolina, para a vice. A vice que convier. A vice que atender ao jogo de eleger deputados federais, para se cacifar em Brasília, e consolidá-lo como liderança política emergente.

O MDB tem perdido feio todas as eleições na cidade. Baldy seria uma solução estratégica para contornar esse muro no segundo maior colégio eleitoral do Estado. Tudo que os governistas, que vencem sempre lá desde 1998, não querem, para manter a hegemonia e garantir mais quatro anos no Palácio das Esmeraldas. Para Caiado, o PP significaria mais tempo no programa eleitoral e teria o efeito prático de rachar a base governista, aumentando sua perspectiva de vitória.

Com movimentos calculados, Vilmar e Baldy manipulam o imaginário político criando expectativas para todos os lados. No PSD, pouco se fala sobre qual a estratégia verdadeira de seu presidente. A aposta na saída de Eliton do jogo soa improvável a seus próprios aliados. Assim como uma negociação com Caiado. Sobraria a conversa com Daniel. Nessa linha, há histórico favorável, uma vez que Francisco Jr., Thiago e Daniel começaram praticamente juntos a vida política no então PMDB.

Baldy é outro esfinge. Ligado à base, ele mantém ligações fortes com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que é do DEM de Caiado, mas também com o presidente da República, Michel Temer, que é do MDB de Daniel. Olhando pelas ligações, portanto, o horizonte que ele almeja fica embaçado. Nas últimas semanas, ele tem participado de muitos eventos na capital, onde o emedebista Iris Rezende é prefeito. E isso é outro elemento na conta dos sinais cruzados.

Com tempos de dois minutos ou mais cada (cálculo aproximado), PSD e PP tem força política simbólica no Estado – pra manter a ideia de unidade da base governista ou para evidenciar seu fim – e força política concreta. Se pendem juntos para um lado, desestabilizam o jogo. Se pende cada um para um candidato, ainda assim, criam instabilidade, porque quem, da oposição, receber uma das legendas, comemorará fôlego extra na campanha. E se ambos caírem para os campos oposicionistas, o governo terá mais a perder. Dilema que perdurará até as convenções, em julho.

Entra na conta do que está em discussão a proximidade que as principais legendas dos dois partidos têm com o ex-governador Marconi Perillo, mais do que mantêm hoje com Zé Eliton. Marconi teria, na avaliação de governistas atentos aos bastidores, a capacidad de mover PSD e PP para onde achar melhor para os seus interesses, como um jogador de dama que posiciona a pedra para emboscar o adversário. Restaria, neste caso, saber que é o seu jogo.

Neste momento, há o interesse sincero do tucano em fortalecer o seu sucessor. E se Eliton estiver forte e isso resultar em votos, os dois ganham – esse é o raciocínio. Porém, há uma preocupação pragmática: não deixar Ronaldo Caiado avançar demais. E isso poderia acontecer, por exemplo, com o enfraquecimento de Daniel como candidato no MDB. Daniel fraco é Caiado com perspectiva de poder em ponto de onda, difícil de ser quebrada.

Por aí, PSD e PP poderiam ser movidos para Eliton e/ou Daniel como contenção de danos de uma candidatura caiadista que resultaria praticamente invencível. MDB de Daniel e PSDB de Eliton/Marconi podem até não considerar a hipótese de unidade entre eles, mas carregam subentendido o propósito de não serem derrotados por antecipação, ou seja, antes mesmo da campanha começar.

Melhor perderem um para o outro, mantendo o jogo tradicional, do que perderem ambos para um adversário imprevisível no poder. Marconi, que ganhou de Iris e Maguito, perde duas vezes com uma vitória de Caiado: perde o governo e perde o controle da narrativa de seu passado. O seu futuro está em jogo. O governo é um ‘detalhe’.

 

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