Entrevista | “Investir muito em leitura, interpretação e produção de texto é um diferencial ”

0
845

Wendell Sulivan – Diretor do Arena Enem Vestibulares e Colégio Arena

Fabiola Rodrigues e Manoel Messias Rodrigues

Clique aqui para ler a entrevista em PDF

O cronômetro está rodando para milhões de estudantes que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) este ano. Fundamental para quem deseja seguir estudos no nível superior, a nota do Enem representa a soma de esforços e conhecimentos adquiridos ao longo da vida do estudante. Então, toda dedicação é importante para o candidato daqui até a realização da prova, nos dias 4 e 11 de novembro. Para falar sobre o Enem, dar dicas para o estudante se preparar e avaliar aspectos da prova, ESCOLA traz esta semana uma entrevista com o professor de Redação Wendell Sulivan e Silva, diretor-geral de Ensino Médio do Arena Enem Vestibulares e Colégio Arena, que oferece ensino médio, escolas localizadas no Jardim América e Setor Bueno, em Goiânia, com mais de 1500 alunos. Além de falar sobre como o estudante deve se preparar para resolver as questões, o especialista em Enem dá sugestões para o aluno enfrentar a ansiedade e comenta mudanças ocorridas no exame.

Tribuna do Planalto – O Enem hoje representa o que os vestibulares eram há duas, três décadas, aquele grande funil e terror dos estudantes?

Wendell Sulivan – Sim, como opção de entrada, representa o que o vestibular da UFG representava para nós, goianos, por exemplo, isto é, o Enem não é uma prova única, mas ela é hegemônica. Ainda há vestibulares, em especial para quem deseja carreiras como Medicina, Direito e outros cursos. Mas o Enem é mais evoluído.

Quais as vantagens do Enem?

Uma nota só do Enem possibilita ao estudante ingressar no ensino superior pelo Sistema de Seleção Unificado (Sisu), em qualquer instituição de ensino pública do país, e em faculdades particulares, pelo Prouni, Fies. Outras vantagens do Enem é o fato de do aluno não precisar viajar o país inteiro para fazer várias provas e também o fato de não ter lista de obras literárias, porque antes o estudante tinha uma lista de livros para ler em cada instituição que tentava entrar – claro que o Enem cobra literatura, mas não a leitura de obras específicas; e a escola deve trabalhar a leitura de obras literárias variadas para preparar o aluno.

O estudante do ensino médio hoje padece das mesmas ansiedades da época dos vestibulares?

Eu diria que ainda mais. Por ser realizado uma vez ao ano (diferente da expectativa criada, que era de ser aplicada sete vezes ao ano, o que daria ao estudante direito de fazer a avaliação outras vezes e ter novas chances), o Enem se transforma na “prova da vida” do estudante, consequentemente sentimentos de ansiedade e tensão são maiores. E se no dia da prova o aluno não estiver bem, ele perde um ano de estudo. Por isso a escola, os cursos pré-Enem devem preparar bem o estudante.

Como se preparar para uma prova tão cansativa e extensa?

Apesar de menos conteudista do que os vestibulares antes eram, o Enem hoje tem é uma prova que cobra conteúdo, além de capacidade de fazer prova e concentração. Hoje ela é mais uma avaliação de resistência, por isso além de estudar todo conteúdo do ensino médio é preciso fazer vários simulados. Simular situações de prova é fundamental. A escola que não aplica simulados regularmente, não prepara este aluno como deveria.

“Preocupe-se com estruturar bem a redação, coerência, coesão”

Como o ensino médio engloba um vasto conteúdo, é possível o aluno priorizar algumas áreas para se preparar para o Enem?

Eu não limitaria. Acho que essa ideia proposta por algumas instituições é até altamente preocupante, porque o Enem do ano passado foi claramente mais conteudista, cobrou alguns conteúdos que não eram tradicionalmente cobrados até então. Diante disso, qual é o papel da escola? Cumprir a Base Nacional Comum Curricular, dar todo o conteúdo que se espera do ensino médio. Qual o papel do aluno? Estudar tudo indistintamente sem se limitar. O grande desafio para o estudante do ensino médio é ele estudar aquilo que ele não gosta, porque estudar o que se gosta é muito confortável. E o Sisu pode selecionar dando pesos os mais variados dependendo da instituição para qual o aluno está querendo ingressar, logo ele precisa tentar sair-se bem em todas as áreas.

Mas é preciso racionalizar…

Sim. Aí eu daria mais importância para leitura e interpretação. É bom lembrar que são quatro áreas do conhecimento: ciências humanas, linguagens, códigos e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias e ciências da natureza. Além disso, a redação. Em algumas instituições a redação pode valer até metade da nota geral. Então investir muito em leitura, interpretação e produção de texto é um diferencial, sem nenhuma dúvida, principalmente para quem tem dificuldade nessas áreas. Mesmo porque, como é uma prova interdisciplinar e transdisciplinar, o Enem cobra muito a relação entre áreas do conhecimento e só relaciona bem quem tem boa capacidade de interpretação de texto.

A prova não exige excessivamente bagagem cultural para um jovem de 16, 17 anos?

Sim. É difícil, principalmente porque, como somos um país não leitor, a escola e a família devem criar recursos para estimular o hábito de ler entre o aluno, crianças e jovens, já que é essencial. E é bom lembrar que quem elabora a prova são professores e eles são exigentes sempre.

Como se preparar psicologicamente para o dia da prova?

Primeiro, ele deve estudar e treinar durante o ano inteiro, porque caso contrário a situação do Enem será uma novidade, isso gera tensão. Segundo, alimentar-se bem e praticar exercícios regularmente é algo essencial para se preparar para a prova, pois fortalece o corpo e a mente. Terceiro, ir ao médico regularmente, procurar um tratamento psicológico se o grau de tensão do candidato for alto demais. Adolescentes e jovem tendem a serem ansiosos, principalmente na hora de provas, e ansiedade alta significa “branco”, esquecimento. Conhecer melhor a si mesmo ajuda a diminuir essa tensão. Nossas escolas, oferecem atendimento psicológico e ioga aos estudantes, para ajudar a relaxar, conhecer melhor a si mesmo.

“O candidato deve fazer pelo menos duas redações por semana”

A redação e o tema abordado são grandes preocupações do estudante. Como se preparar para isso especificamente?

Primeiro, fazer pelo menos duas redações por semana. Porque não adianta querer “adivinhar” o tema, se o indivíduo não produziu redação sobre ele antes. Então, fazer redação antes é mais salutar, porque caso caia um tema que ele não tenha estudado, escrever redações regularmente dará pontos para o estudante em coesão, gramática, coerência e estrutura e isso independe de tema. Ler sobre assuntos diversos e de conhecimentos gerais, atualidades, também é fundamental.

Existe uma regra básica para a estrutura da redação, quantidade de parágrafos?

Há um “arroz com feijão” que funciona: tema e tese na introdução, dois parágrafos de desenvolvimento, que chamamos tecnicamente de D1 e D2, proposta de intervenção na conclusão. No mínimo isso. Essa é a base de qualquer texto. E proposta de intervenção que não desrespeite direitos humanos. Até 2016, desrespeitar direitos humanos zerava a redação do Enem; desde o ano passado, por decisão judicial, isso deixou de zerar a redação. Pode até não zerar, mas fere princípios de cidadania, o que vai contra os princípios educacionais e sociais. Fora isso: o aluno perde no mínimo 200 pontos e sem essa pontuação, logo de início, o candidato será muito prejudicado. A redação vale mil, perder 200 de cara provavelmente significa falência.

Proposta de intervenção significa apontar uma solução ao problema discutido?

Sim. Como a redação é de caráter cidadão, sendo uma prova que busca selecionar candidatos que tenham a missão de combater injustiças sociais, o Enem quer jovens que tenham a capacidade de não só expor o problema, mas sobretudo apresentar solução para ele. Não se quer apenas um cientista saindo da universidade, mas um indivíduo que tenha ações propositivas em prol da comunidade, ciência é pra isso também, pra resolver problemas sociais. Por isso, na prova do Enem se cobra uma postura propositiva do candidato frente aos problemas. É o que todo cidadão deveria fazer; a gente reclama demais e faz pouco.

Mas não basta apontar qualquer solução para o problema, exige-se que seja algo praticável?

Sim. Por exemplo, recorrer a soluções utópicas não tem valor algum. Eu sou beatlemaníaco, adoro John Lennon, mas “give peace a chance” [referência a “Dê uma chance a paz” – canção dos Beatles, composta em 1969] não resolve nada, tem de ter valor prático.

“Para escolher a carreira, o jovem precisa responder: o que o motivará a acordar todos os dias?”

E quanto ao tema?

O que eu recomendo para o estudante: não se preocupe com o tema, preocupe-se com estruturar bem a redação, com gramaticalidade, coerência, coesão, porque o Enem tem cinco competências para julgar a redação: gramática, coesão, estrutura textual, adequação ao tema e proposta de intervenção. Então, adequação ao tema é um dos cinco itens, claro que ele dialoga com os outros, mas ele não pode ser o foco principal, senão o candidato pode se esquecer do que é mais importante, que é gramática, coesão, estrutura textual etc. Então a recomendação é: leiam. A possibilidade de se relacionar com o tema trabalhado é grande.

O afunilamento, que impede o acesso de boa parte dos candidatos a cursos mais procurados, ainda é causador de frustração hoje, mesmo com o Enem?

Sem dúvida. Infelizmente há uma grande coerção social que leva jovens pra cursos como Medicina, Direto, Engenharia. Hoje em Goiás, muito mais por medicina. Não é incomum em Goiás ver em instituições de ensino de classe média alta, em especial pré-vestibulares, quase 90% dos alunos querendo Medicina. Isso é preocupante porque é difícil acreditar que todos ou a maioria tenha escolhido de fato a carreira. É muito mais pressão social. Não haverá vagas de residência para todos, pois pode haver um inchaço do mercado. Uma das maiores campanhas contra o suicídio foi realizada por alunos da Universidade Federal de Minas Gerais, porque há um grande índice de suicídio entre médicos, porque a frustração de muitos médicos com a profissão é notória, já que muitos não a escolheram de fato. Aconselho que o jovem faça teste vocacional, procurar psicólogo ou serviço neste aspecto voltado para a comunidade que o oriente a respeito da carreira que deseja seguir, isso é importante. Embora ninguém seja obrigado a acertar pela primeira vez. As nossas escolas oferecem testes vocacionais.

Como deve agir o aluno que gosta de uma área e a família quer outra, de maior projeção social e financeira?

É preciso criar um equilíbrio entre uma coisa e outra, por este motivo a carreira de docência não tenha atraído a maioria dos jovens, pois embora muitos queiram ser professores como eu quis ser, infelizmente o mercado financeiramente falando não é atrativo. É claro que a situação do professor hoje no Brasil melhorou, há dez anos não tinha nem piso salarial. Tudo bem que o piso não é uma maravilha, é quase um subsolo, mas tem. O jovem precisa responder a uma pergunta simples a respeito da profissão: o que o motivará a acordar todos os dias? Acredito que isso é importantíssimo, descobrir uma vocação.

O ensino médio e o preparatório para o Enem deixaram de ser um decoreba?

O ensino está superando a fase do mero decoreba. Estamos em processo, mas a reforma do Ensino Médio terá um papel muito importante para essa mudança.

A reforma é positiva?

Acho que ela apresenta mais pontos positivos do que negativos. Acho muito perigoso dar a um jovem em tenra idade dar a responsabilidade de escolher uma determinada área profissional, porque ele muda de opinião muito rápido. Por outro lado nosso ensino precisava de mudanças, pois não era nada atraente, por forçar o aluno a estudar matérias que não servirão para a carreira profissional dele futuramente. A reforma poderá fornecer recursos para diminuir a evasão escolar, especificamente na escola pública.

As mudanças do Enem foram positivas?

Elas não são unanimidade, haverá quem discorde, que não tenha gostado dos dois dias, da reordenação das áreas de conhecimento, mas de modo geral os estudantes, nas nossas escolas, ficaram contentes, porque terão menos dificuldade com o tempo principalmente no primeiro dia da prova. Para o segundo dia este ano terá uma novidade, 30 minutos a mais.

O aluno deve tomar cuidado também com a coerência de suas respostas, não pode sair chutando respostas?

O aluno que acerta muitas questões e erra, por exemplo, quatro questões fáceis, terá a nota muito diminuída, porque isso significa que ele chutou. Nesse sentido, tem de ser uma prova coerente, porque a correção é feita utilizando um sistema em que questões fáceis (que mais candidatos acertaram) têm menos peso e o contrário: questões mais difíceis valem mais.

“O estudante deve no mínimo transformar a aula dada no dia em aula estudada no contraturno”

Quanto tempo de estudo o aluno deve ter diariamente pra se sair bem?

O estudante deve no mínimo transformar a aula dada no dia em aula estudada no contraturno, o que significa estudar uma média de oito horas todo o dia, além do período da manhã (em que está na escola). O recomendável é este tempo, mas deve começar de forma gradativa e intercalar em períodos de descanso e pequenos intervalos. É importante lembrar que deve ser tirado um tempo para o lazer durante esta longa jornada de estudos, a saúde mental agradece estes momentos de descanso.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here