Uma história de luta, esforço e determinação

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A trajetória da menina que saiu da comunidade quilombola e se tornou a primeira advogada calunga formada pela UFG a conquistar a carteira da OAB-GO

Maria José Rodrigues

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Foi do interior da comunidade quilombola Vão do Moleque, no município de Cavalcante, na calha norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que saiu a primeira advogada calunga formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Selecionada pela instituição de ensino superior em 2011, por meio do programa UFGInclui, Vercilene Francisco Dias, 28 anos, concluiu o curso de Direito no segundo semestre de 2016. Um pouco antes disso, ela já havia conquistado outro feito importante: ser aprovada no rigoroso exame da OAB/Goiás (Ordem dos Advogados do Brasil).

Para ela, as duas conquistas, quase simultâneas, são uma prova viva de seu esforço, coragem e determinação.

“Na universidade passei por muitas dificuldades e por diversas vezes tive que faltar às aulas por falta de condições de pagar a passagem do ônibus. Nos primeiros anos do curso, me sentia também isolada e deslocada”, lembra.

Se em vários momentos faltou dinheiro, o mesmo não se pode dizer de companheirismo e solidariedade. Desempregada e já cursando o mestrado em Direito Agrário, Vercilene não conseguia arcar com as despesas da carteira da OAB e por isso, por conta própria, um grupo de amigos e ex-colegas da faculdade decidiu realizar uma campanha de financiamento coletivo online para arrecadar o dinheiro.

Hoje, como aluna do Programa de Pós-Graduação da UFG, a estudante busca se aprofundar sobre a questão agrária e a regularização fundiária dos territórios Kalunga e Mimoso. Trata-se de um conflito de terra que a preocupa muito por ter vivenciado, durante a infância e pré-adolescência, toda sorte de ameaças à sua comunidade por parte dos grandes fazendeiros da região.

“Já me sinto realizada, talvez não totalmente, pois ainda tenho muito a conquistar e a fazer, mas estou cumprindo o propósito que tanto almejei para minha comunidade”, comenta Vercilene, referindo-se especialmente ao fato de advogar para a Associação Quilombo Kalunga.

Na comunidade Vão do Moleque, de onde saiu aos 11 anos de idade para continuar seus estudos em Arraias (Tocantins), a hoje advogada calunga é vista como grande exemplo para todos. Indagada sobre o fato de ser motivo de inspiração para os que ficaram, ela diz que isso “é maravilhoso”, mas ao mesmo tempo representa um peso.

“Quando penso nisso, percebo que se fracassar não será só o meu fracasso, mas de toda a comunidade negra. Então, às vezes, me sinto sufocada por essa grande responsabilidade”, revela.

Além de defender os direitos de sua gente, um outro sonho de Vercilene é voltar a morar na comunidade onde nasceu, para estar mais perto de seus 11 irmãos, do pai e da mãe que, embora separados, não moram muito distantes.

Vercilene com a avó materna, Justina de Sousa, durante uma tradicional festa da comunidade

Para concretizar esse sonho, no momento ela está em Arraias, onde foi ver a possibilidade de transferir o mestrado para a Universidade Federal do Tocantins.

“Sempre tive vontade de estar mais perto de casa e agora tenho essa oportunidade, sem me afastar da carreira acadêmica e desviar o foco dos meus planos, que é ajudar a minha comunidade e as pessoas que precisem de uma advogada, mas não tenham condições de pagar por isso”, explica.

“Sempre tive vontade de estar mais perto de casa e agora tenho essa oportunidade, sem me afastar da carreira acadêmica”

Os caminhos para chegar à universidade

Durante o Festejo das Salinas, festa tradicional da comunidade Vão do Moleque, Vercilene curte as afilhadas Wendy Sousa e Eloísa Moreira

Até comemorar o fato de ser a primeira estudante calunga de Goiás a ser aprovada em uma universidade pública e a conquistar a carteira da OAB/Goiás, Vercilene Francisco Dias passou por muitos desafios e dificuldades. Ela conta que, ao saber de sua aprovação na UFG, a emoção foi tão grande que passou um filme por sua cabeça com várias cenas de sua vida.

Alfabetizada numa escola construída pela própria população calunga numa área da comunidade Vão do Moleque, que fica em uma região de difícil acesso pela presença de diversos vales, montanhas e rios, a advogada quilombola lembra que até a 4ª série do Fundamental seu professor foi um tio escolhido para o cargo por ser o “mais esclarecido” na região.

Vercilene e a psicóloga Raimunda Montelo Gomes, ex-superintendente de Igualdade Racial de Goiás

Já com o sonho de se formar em Direito e poder defender os interesses de sua gente, aos 11 anos ela convenceu o pai a deixá-la ir morar com uma família em Arraias, no Tocantins, cidade distante cerca de 130 km de Cavalcante, município onde fica o Vão do Moleque. Lá ela trocaria a hospedagem e a alimentação por serviços domésticos.

“Eu me lembro que cheguei na cidade à noite, mas como nunca havia visto luz elétrica, fiquei deslumbrada com o que vi”, diz.

Já na casa onde moraria, Vercilene diz que ficou atônita ao ver pela primeira vez na sua vida um aparelho de TV.

“Eu não conseguia olhar para outra coisa e me indagava como um homem poderia estar preso naquela caixinha”, relembra. O homem, em questão, era o ator Marcos Palmeiras, que interpretava um dos personagens da novela ‘Porto dos Milagres’. A estudante permaneceu em Arraias até completar a 7ª série, depois foi para Cavalcante, onde permaneceu por um ano, e, em seguida, veio para Goiânia, onde morou com tias e primas, até se casar e ir morar em Aparecida de Goiânia.

“São as dificuldades que fazem a gente crescer, amadurecer e tornam a história mais gostosa de ser contada” Vercilene Francisco”

Olhando para o passado, Vercilene comenta que dificuldades nunca faltaram em sua vida nem na de seus descendentes. Mas também não faltou coragem para enfrentar os desafios.

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