Especial de Maio | “A gravidez me salvou”

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Daniela Martins

Anapaula e João Pedro estreiam série de reportagens da tribuna neste mês em homenagem às mães, às mulheres. Uma história singular, de superação e força, que enche o coração de esperança e amor.

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Quando acordou depois da mastectomia do seio esquerdo, feita aos sete meses de gravidez, o alívio de Anapaula veio ao som das batidas do coração de João Pedro. Batidas do coração… Clichê? Não. De clichê a história de mãe e filho que abre a série de reportagens sobre maternidade da Tribuna do Planalto não tem nada. É um caso raro.

“O estado gestacional pode funcionar como uma proteção para algumas patologias que afetam a mulher, como os cânceres de mama, ovário e de endométrio”, explica médico oncologista ouvido pela Tribuna, e que prefere não ser citado. Segundo ele, doenças como essa sofrem influência direta do estrogênio, hormônio feminino, e, na gravidez, a mulher está sob a égide de outro hormônio, a progesterona, que faz contrapartida ao estrogênio.

É, mas não é raro acontecer de o tumor ser responsivo justamente ao hormônio da gravidez. É o que esclarece a médica ginecologista e obstetra Marcella Brasil, que cuidou da Anapaula. Em situações assim, a consequência pode ser o crescimento do nódulo durante a gestação. “Casos raros”, enfatiza a médica. “O caso da Anapaula foi, pessoalmente, o meu único caso.”

GRAVIDEZ PLANEJADA

Jornalista, no pique da profissão, Anapaula Hoekveld, aos 32 anos, levava uma vida acelerada e planejada nos detalhes. Dez anos de namoro, cinco de casamento com o gestor de TI Gilvan Alysson Sobrinho. “Quando nos casamos, combinamos esperar cinco anos para engravidar”, conta. Chegada a hora, procurou sua médica para fazer os exames de praxe e descobriu um mioma no útero.

Depois de anos de anticoncepcional, suspendeu a medicação para avaliar o quadro, ver a evolução do mioma. Em situações assim, o natural é que a gravidez demore um pouco. Nada. No segundo mês sem anticonceptivo, a menstruação não veio. “Na terça-feira de Carnaval fiz o exame de farmácia e estava grávida”, sorri. A consulta com sua médica confirmou. O marido não quis esperar. Anunciou para amigos, família e comprou o primeiro sapatinho do bebê. A vida seguia à espera de João Pedro.

No sexto mês de gravidez, Anapaula percebeu o caroço no seio. Já grande. “E ele não estava ali pela manhã. Liguei para a Marcella, que me tranquilizou, ‘pode ser uma mastite’ [inflamação comum quando o ducto mamário entope durante a produção do leite materno]”, recorda.

Dia seguinte, ultrassom feito, resultado inconclusivo e uma experiência nada boa com a médica responsável pelo exame. “Você nunca pensa que vai ser outra coisa, mas a médica que fez o ultrassom me disse que ‘tinha que ver aquilo, que talvez tivesse que tirar’. Eu estava supersensível, e o jeito dela falar me deixou nervosa. Comecei a chorar, eu choro por nada, e essa foi a hora em que fiquei com medo.”

De volta ao consultório de Marcella, sua médica, Anapaula passou por uma punção e, de novo, a biópsia foi inconclusiva. A ginecologista encaminhou-a então para o mastologista Juarez Antônio de Sousa, que fez novo ultrassom. Terceiro exame com resultado inconclusivo.

“A gravidez é sempre uma situação limitante para exames radiológicos, de rastreamento”, reforça o oncologista ouvido pela Tribuna. São exames importantes para confirmar um diagnóstico de tumor, dimensionar o nódulo, sua complexidade e planejar o tratamento. A mamografia, por exemplo, é utilizada para investigar o câncer de mama, mas deve ser evitada durante a gravidez em razão da radiação. “Embora em casos reservados seja feita com devida proteção do abdômen, com avental de chumbo”, acrescenta Marcella.

A confirmação do tumor só veio com o quarto exame. O oncologista anestesiou a gestante, retirou uma porção maior do nódulo e mandou para biópsia. Era um tumor maligno. “Quando você escuta um diagnóstico de câncer, pensa ‘vou morrer’. E ainda esperando um filho, você pensa: ‘o que vai ser de mim? Vou ver meu filho nascer? Não vou ver meu filho nascer?’. E você se sente culpada”, revela Anapaula.

Nesse turbilhão de sentimentos, outro pensamento ganhou espaço. A importância da gravidez justo naquele momento da vida. O crescimento rápido do tumor era sinal de que o nódulo já estava instalado há algum tempo, a gestação ajudou a revelá-lo. “Se eu não estivesse grávida, o tumor ia aparecer e eu acharia que era um carocinho de nada. Não ia dar moral. Mas quando você está grávida, por qualquer coisa corre para o médico”, comenta. E lembra: é alto o índice de mulheres que descobrem o câncer de mama em estágios avançados, quando o tratamento é bem menos eficaz.

“Se não estivesse grávida, hoje eu estaria morta. A gravidez me salvou. JP foi um anjo da guarda que Deus mandou para me salvar”.

TEMPO, TEMPO, TEMPO

O tumor de mama de Anapaula era dos mais agressivos. Não podia esperar. Um mês depois da descoberta do caroço, dois meses antes de dar à luz ao espertíssimo João Pedro Hoekveld Sobrinho, hoje com 3 anos, a jornalista entrou para a sala de cirurgia. “No dia da mastectomia, entrei no centro cirúrgico sem saber se continuaria grávida ou se acordaria com meu filho no colo”, recorda. Acordou com o som do coração de JP. “A Marcella pegou um aparelho do hospital e deixou comigo. Todo mundo que chegava ouvia o coração do JP”, lembra.

O filho estava bem, mas a mãe ficou dois dias sem olhar para baixo. Anapaula só viu o resultado da mastectomia em casa. Sentada na cama, em frente ao espelho, encarou seu reflexo e chorou. “Eu queria morrer de chorar, fiquei mal, acabou a vida. É um choque se ver sem peito, mutilada”, desabafa. JP foi seu suporte, mais uma vez. “Eu tinha meus altos e baixos, e aí pensava no JP, pensava que estava tudo bem com ele, que íamos superar isso. Ficava com medo dele sentir o que eu sentia, então tentava não remoer as coisas ruins para não afetá-lo. Nesse ponto, a gravidez também foi muito boa pra mim.”

Feita a retirada do tumor. Anapaula iniciou a quimioterapia, ainda grávida. Foram duas sessões do tipo mais forte, destaca a jornalista. Sofreu com alergia à medicação, que, aplicada direto na veia, dava a sensação de queimar por dentro. Gestante de nove meses, já não encontrava posição confortável para ficar.

O cabelo caiu. Ela, que tinha se adiantado e encomendado uma peruca, não se adaptou. Preferiu o lenço. “Vi tutorial de lenço, e minha vida era ver como amarrar o lenço. Aprendi todo tipo de amarração que não usei”. Só usava o lenço dobrado e amarrado de lado. “O povo achava que o lenço colorido fazia parte do meu estilo, ninguém me olhava diferente”, avalia.

Com apoio da família, do marido e da médica, Anapaula levou a gravidez até o fim dos nove meses. JP nasceu dia 16 de outubro de 2014. Uma semana depois, sua mãe retomou o tratamento. Mais quimioterapias seguidas por um mês de radioterapia diária. Não pode amamentar. Revezava os cuidados com o bebê e seu próprio corpo, machucado.

PLENITUDE

A vida não está no controle da gente, não está. É a lição maior que Anapaula acredita que ganhou com a experiência. “Achei que estava tudo na minha mão, que dependia de mim. Você faz a sua parte, mas nada garante que vai ser do jeito que você planejou”, diz, referindo-se à espera pelo melhor momento para ter filho. A vantagem de ter esperado, aponta, é a maturidade que teve para entender, aceitar e conviver com tudo o que aconteceu.

 “JP foi um anjo da guarda que Deus mandou para me salvar”

“A maturidade foi bem maior do que se eu fosse mais nova”. A fé também a fortaleceu. “Sempre tive uma educação religiosa, e nessas horas a gente vê que acredita mesmo. Você não se pergunta porque aconteceu comigo. Se aconteceu, é porque alguma coisa eu tenho de tirar disso”, ensina.

Gilvan Sobrinho, o marido, foi o companheiro, sua base forte. “Tenho uma gratidão enorme pelo meu marido, o que ele fez não é para qualquer pessoa. Estava na minha mão a forma de reagir, mas sei que pra ele também foi muito difícil. E você vê o outro chorar escondido porque tem que te passar força, passar otimismo.”

A vida melhorou depois de tudo. Anapaula superou o câncer, está de alta, apesar de fazer um acompanhamento anual com exames e consultas aos especialistas que participaram do seu tratamento. Depois da tempestade, veio a plenitude.

“Vivo muito mais, aproveito muito mais a maternidade. Qualquer coisinha [do filho], eu aproveito. A relação [materna] é diferente, e ele sente isso. Eu sinto”. Até a relação com o trabalho amadureceu. Anapaula, que trabalhou durante a gravidez, durante o tratamento da doença e mesmo após o nascimento do filho, este ano deu uma aliviada no ritmo profissional. Saiu do último emprego, na área política e que consumia grande parte do seu tempo, antes que consumisse mais ainda, por este ser um ano eleitoral. E passou a se dedicar em tempo integral ao filho.

“Eu me cobrei porque rezei tanto para ver meu filho nascer. Minha meta de vida era estar viva para ver meu filho crescer, ter a oportunidade de cuidar dele, e eu estava abrindo mão disso. Realmente não tinha sentido”, relata. Hoje a ideia de sucesso está mais ligada à capacidade de conciliar a vida profissional com a família. “Antes eu jamais valorizaria o fato de ter tempo de ficar em casa. E tinha coisa que eu achava que era um problema, hoje vejo que já não é mais”.

Para a médica que acompanha Anapaula, a ginecologista Marcella Brasil, a história da jornalista é ao mesmo tempo uma tragédia e um exemplo de superação e força que ela garante levar para tudo na vida até hoje. “A Anapaula é um ser tão iluminado que fez de uma situação tão horrorosa, um período de novas experiências para contar depois”, avalia.

Em todas as ocasiões, recorda a médica, ela manteve o bom humor e isso ajudou muito na recuperação. “Anapaula via o lado engraçado em tudo, no lenço que usava, na falta da sobrancelha, na peruca! Eu sou muito fã dessa vencedora. Ela precisa escrever logo seu best-seller!.” Meio caminho está andado. Por um bom tempo, Anapaula manteve ativo um blog (‘Eu, Você e JP’) com histórias suas, do filho e do marido. É só publicar.

Fotos: Mônica Salvador

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