Especial de Maio | “Eu gerei aqui, no coração”

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Daniela Martins

Mãe de coração, mãe de alma. Adoção é tema da segunda reportagem da série sobre maternidade da tribuna do planalto

– Quando a médica olhou meus exames, me disse: ‘Só existem três maneiras de você ser mãe na vida. Por um milagre de Deus, por inseminação in vitro ou pela adoção’.

A empresária Anastácia Taveira Rassi, a Ana, experimentou as três. Em junho, ela e Tiago Brito completam dez anos de casados, 16 de relacionamento e seis de perseverança para ter uma criança. A princípio, o sonho de ser pai era só dele. “Eu não imaginava ser mãe, tinha medo, medo da responsabilidade, de não dar conta financeiramente. Dizia sempre que não queria ser mãe de fim de semana, que só vê o filho no sábado e domingo”, conta Anastácia.

Aos poucos, o medo deu espaço para o desejo, embrião do sonho da maternidade. Resolveram que sim, e ela cessou o uso de anticoncepcional injetável. Um mês, dois meses, quatro meses e nada. Na consulta, a médica a tranquilizou. Disse que era normal a demora, e receitou uma medicação para estimular a ovulação.

Mais 1, 2, 3 meses e nada. “Resolvemos aprofundar nos exames e descobrimos que eu não engravidava porque tinha uma trompa obstruída.” As trompas de Falópio são dois tubos contráteis que transportam os óvulos desde o ovário até a cavidade do útero. É onde há o encontro de óvulos com espermatozoides, e a fecundação ocorre. A médica a tranquilizou de novo – uma cirurgia simples resolveria a questão – e indicou um especialista para o procedimento. Mas Anastácia não chegou a fazer a desobstrução da trompa. Um desentendimento com o médico postergou a cirurgia e revelou que a situação era um pouco mais complicada.

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O terceiro médico reviu todos os exames e explicou que, além de obstruídas, as duas trompas dela eram torcidas e uma ainda precisava ser retirada. Se a fecundação acontecesse pelo método natural, a gravidez seria tubária – quando o embrião não chega ao útero. Mãe e bebê estariam em risco. Foi quando veio a tal notícia: gravidez, só por milagre, inseminação ou adoção.

“Choro de alívio, de agradecimento. Eu só queria ser mãe, e Deus me deu muito mais e bem melhor do que eu imaginava.”

“Caiu aquela bigorna na cabeça”, diz, na tentativa de traduzir o baque. Esperaria pelo milagre, mas não parada. Perseguiu o sonho pelas outras duas vias. Ela e o marido fizeram três tentativas de fertilização in vitro (FIV). Nessa técnica, o sêmen e os óvulos são coletados para fecundação em laboratório e implantação do embrião no útero. Mas os embriões não se fixavam no útero de Ana. Entre a primeira e a última tentativas foram quatro anos, em torno de R$ 18 mil investidos, e muita, muita ansiedade vivida pelo casal e por seus familiares.

 

Três dias com Emanuel

Por quatro anos, Ana e Tiago percorreram, paralelo às inseminações, uma longa caminhada pela adoção. Primeiro, procuraram apoio no Juizado da Infância e Juventude de Aparecida de Goiânia, cidade onde moram. Participaram de palestras, curso sobre adoção, grupo de pretendentes, cadastro e acompanhamento da assistência social com visitas à residência do casal. Apresentaram uma série de exames médicos e laudos psicológicos até serem incluídos no Cadastro Nacional de Adoção.

 

 

Instituído em 2008, o Cadastro Nacional de Adoção é uma sistema digital que integra informações de todo o país e auxilia os juízes das Varas da Infância e da Juventude na condução dos processos de adoção. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que há mais de sete mil crianças inscritas e 38 mil pretendentes cadastros. O sistema faz o cruzamento automático das informações e permite a combinação dos perfis de crianças e pretendentes, independente das regiões em que vivem. A ideia é facilitar e desburocratizar o processo de adoção que, sustenta o CNJ, leva em média um ano.

 

 

Um ano teoricamente. Na prática, a velocidade não é bem essa. Demorou, até que surgisse a oportunidade de uma adoção em outro Estado, numa cidadezinha do interior. “A gente estava há um tempo no cadastro, mas o telefone não tocava”, lembra Ana. Ela não titubeou. Foi lá. A mãe biológica não tinha condições de cuidar da criança, já havia doado outros filhos. Sob a supervisão do Conselho Tutelar, Ana chegou a ter Emanuel no colo, recém-nascido. Uma má formação no coração levou o pequeno três dias depois. “Por mais que eu tenha vivido só três dias com ele, foram dias intensos. Ele foi meu primogênito.”

 

Ana sobre a maternidade: “meu mundo começou ali”

A vida com Manuela

A dor da perda era recente no peito quando o casal soube de outra criança que seria dada em adoção. A mãe biológica estava no sétimo mês de gestação e os médicos, ao longo de todo o pré-natal, garantiam que seria um menino. E já tinha nome: Bernardo. Enxoval feito, quarto arrumado para um rapaz, Tiago e Ana foram surpreendidos por Manoela, amor que chegou com 53 centímetros e 4 quilos e meio no dia 10 de fevereiro de 2016, em pleno feriado de Carnaval.

Passaram um tempo na cidade até ter em mãos a guarda provisória. Tudo seguindo os trâmites legais, por meio de advogado, sob supervisão do Conselho Tutelar e autorização judicial. A experiência materna nasceu ali, na sala do parto. Ana assistiu ao nascimento de Manuela, beijou o bebê no ato e passou a dividir tudo, a mamadeira, a fralda, o banho e o velar do sono da criança com o marido, no quarto do hospital. “Nós literalmente ficamos internados com a Manu, aguardando a guarda provisória.”

“Meu mundo começou ali, a minha vida”, conta uma Ana, chorosa. Um choro de felicidade. “Choro de alívio, de agradecimento a Deus, de vitória. Eu só queria ser mãe, e Deus me deu muito mais e bem melhor do que eu imaginava.”

E a história foi além de qualquer expectativa.

Quando Manuela estava com um ano e dois meses, Ana engravidou – naturalmente. Descobriu no segundo mês de gestão. Mas sofreu um aborto espontâneo. “Deus ainda me fez grávida, e por mais que eu tenha perdido o nenê, isso não diminui em nada o milagre em minha vida”, pondera. E se consola. “Não era a hora de eu ser mãe de novo. Eu tinha de dedicar meu tempo à Manuela. Me sinto completa como mãe. Eu gerei, aqui, no coração.”

Os planos são de uma segunda adoção, daqui a um tempo. “Depois da gente se acertar financeiramente”, planeja. Ana deixou o emprego quando Manuela nasceu. Ela e o marido investiram em um sanduicheria com o propósito de fazer seu próprio horário e ter mais tempo para a filha. “O tempo não é mais meu, é dela.”

Na contramão do relógio biológico

A infertilidade afeta de 50 a 80 milhões de pessoas ao redor do mundo e mais de 8 milhões no Brasil, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em Goiânia, o especialista em reprodução assistida Eduardo de Castro ajuda os casais goianos a realizarem o sonho de ser pais. À Tribuna, o médico comentou os crescentes índices de infertilidade entre homens e mulheres.

Mercado de trabalho

“Temos, homens e mulheres, uma formação [profissional] mais longa. Antes, saíamos para o mercado com 22, 25 anos. Hoje, a gente consegue se estabilizar por volta dos 30. E a mulher naturalmente começa a ter dificuldades de engravidar a partir dos 35. Ficou muito restrito esse período em que ela pode engravidar. Se atrasar um pouco, pode perder a chance. E se adiantar é mais difícil por conta do mercado de trabalho.”

Até que idade esperar

“O ideal é que a mulher não passe muito dos 30. No máximo, 34 anos. Até porque, se precisar de algum tipo de tratamento, é necessário ter tempo para esse tratamento. Dos 30 aos 40 anos, é natural que o ovário vá parando de funcionar. A mulher deve buscar se estabilizar e engravidar o quanto antes.”

Congelamento de óvulos

“É um possibilidade. Quando a pessoa tem esse tipo de vida, de perfil, é melhor congelar os óvulos do que não fazer nada, de preferência até os 35 anos. Não fazer nada é assinar um atestado de que não quer ser mãe. Se congelar, você cria uma possibilidade de engravidar.”

DEPOIMENTO

“Fui escolhida para ser feliz”

Lanny Coelho, 26 anos, advogada em Palmas, no Tocantins. É a caçula dos cinco filhos de Leonídia Coelho, a Leo, e Antiste Alexandre Coelho. Ela conta da experiência de ter sido adotada.

Lanny e Léo: “Deus colocou minha vida no caminho da minha mãe”

“O alicerce de toda minha boa educação é o fato de a adoção nunca ter sido escondida. Foi uma informação que cresceu e se desenvolveu comigo. Não tem um dia assim do qual eu possa dizer ‘ah, o dia que eu soube que era adotada’. Minha mãe sempre conversou tudo direitinho comigo, tirou dúvidas. Isso nunca foi tratado como um assunto anormal, ou algo vergonhoso. Muito pelo contrário. Vejo que algumas pessoas têm trauma, algum bloqueio ou coisa assim, porque entendem que até determinado ponto, a vida foi uma mentira. E, para mim, justamente por ter sido tudo conversado, é tudo muito natural.

Até meus 24 anos, eu tinha nos meus documentos o nome da minha mãe biológica e não tinha nome de pai, porque meu pai biológico não era identificado. Era uma situação constrangedora porque tinha de ficar explicando porque o nome do meu pai não estava no meu documento. Cheguei a ter problemas no plano de saúde e em outros casos. Para algumas pessoas parece besteira, mera formalidade. Mas era incômodo, um constrangimento que eu sentia bastante.

Em um processo de adoção, que durou quatro anos, eu já maior de idade, consegui a alteração. Hoje tenho o nome dos meus pais e dos meus avôs adotivos na minha certidão de nascimento. Troquei todos os documentos, assino com o sobrenome do meu pai. Está tudo mais leve, sou uma pessoa mais realizada. Não que isso tenha feito diferença no convívio familiar… é só aquele orgulho de assinar o nome do pai mesmo.

Sinto muita gratidão a Deus, que colocou minha vida no caminho da minha mãe, uma pessoa disposta a me criar com amor de verdade. Hoje, 26 anos depois, posso dizer que ela cumpriu o esperado. Me sinto muito privilegiada, realmente escolhida para ser feliz.”

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