Masoquismo e política

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Jorge Monteiro de Lima

O cuidado na hora de votar não é por qualquer motivo, mas sim para evitar que a escolha eleja alguém não apto para o cargo

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Você gosta de sofrer? Sente prazer ao ter algo tolhido? Gosta de ser enganado, ludibriado, humilhado? Curte dor e pancadaria? Masoquismo é o mergulho na dor como estilo de vida, o tesão ao se arrancar a casca de uma ferida, ter alívio pelo sofrimento. É um processo psíquico estranho, mas extremamente comum ao povo brasileiro, habituado ao sofrimento e à dificuldade  como estilo de vida.

Por aqui é hábito naturalizado apanhar, de chicote, no tronco, ser humilhado. A política comprova esta hipótese. O povo brasileiro utiliza seu título de eleitor visando eleger bandidos, pessoas de extrema ignorância, ladrões contumazes que há décadas mantêm-se no poder. Por sua vez, o povo em sofrimento idolatra o bandido eleito, utilizando seu precioso tempo para beijar-lhe os pés, humilhando-se diante de um mito pervertido – seu algoz.

Existe um processo inconciente dialético ligado ao instinto de poder. De um lado do ringue, o pacato cidadão brasileiro que emprega seu voto sem consciência do mal que se faz. O eleitor que adora sustentar políticos e suas mordomias, que adora pagar altos impostos, que reverencia quem o ignora e o maltrata. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda nos evidenciaria a ideia de um brasileiro “Homem cordial”, talvez influenciado pela teoria de Jean-Jacques Rousseau, que dizia “O homem é bom por natureza”. Será?

Na prática este cidadão eleitor  cria para si uma armadilha da qual não consegue sair mantendo-se em um sofrimento idolatrado, vide nossa cultura de sofrência que detém a tristeza como patrimônio cultural.

No outro lado do ringue estão os  coronéis  – os eleitos e escolhidos – os melhores existentes. Uma casta histórica que diferenciou-se, primeiramente, no Brasil colônia como os proprietários das capitanias hereditárias, os interventores. Depois como os Bandeirantes, os barões do extrativismo. E, nos últimos séculos, os coronéis – figura real, mítica e popular extremamente presente na cultura geopolítica brasileira por todo interior do país.

Os coronéis são proprietários de terra, em boa parte herança e tradição, detentores do poder regional, pessoas que estão acima da ordem e da lei, que mandam no judiciário, em delegados e juízes. Questionar ou confrontar seu poder é beijar a morte.

Não existe certo ou errado na vida de um coronel por que ele vive regras próprias, que dependem exclusivamente de seu temperamento e humor…Tudo é uma questão de dia e de lua… e do estado de humor do coronel. Celebrado no imaginário popular, como em Jorge Amado – Tocaia Grande dentre outras –, e vários outros escritores os representaram evidenciando sua ignorância e belicosidade. Qualquer coisa se resolve na chibata…

Dois polos de uma relação dialética já era parcialmente descrita em   Casa – Grande e  Senzala do sociólogo Gilberto Freyre. Todavia este cenário ideológico mítico continua vivo, firme e forte alastrando se por todo Brasil com coronéis estipulando seus feudos.

A proposta de uma vivência coronelista é aplicada em Goiás há pelo menos 300 anos. na era moderna e na pós-modernidade, o poder político detém-se no governo do estado em nomes como o de Iris Resende (PMDB), 60 anos no poder; Marconi Perilo (PSDB), 30 anos no poder; Ronaldo Caiado (DEM),  50 anos no poder, políticos populistas de estilo feudal cuja fama de persseguirem seus oponentes é extensa.

Tal é o fato que hoje no estado de Goiás não existe uma oposição, não existe uma organização política capaz de oferecer ao eleitorado uma terceira via, uma alternativa ao modelo coronelista da politica regional. Assim troca-se o coronel, mas não o estilo de governar existindo apenas um modelo administrativo e político.

Os opositores foram cassados, aniquilados, sumiram, viraram pó…  Piorando a situação do estado de Goiás que mantém-se em subdesenvolvimento, vide áreas vitais como saúde e educação, precária  infraestrutura, aumento expressivo do desemprego, o que é de pasmar é a atitude do eleitorado, que briga e vivencia a deidade do coronel como uma divindade, um mito vivo, um redentor e salvador da pátria.

Povo que apanha na cara, que é silenciado, humilhado nas filas da saúde, na falta de emprego ,enquanto a classe política esbanja suntuosidade em fazendas bilionárias, com um crescimento vertiginoso de seu patrimônio.

Temos um povo masoquista, que mantém no poder quem o ignora e humilha. Um povo que adora ser silenciado, perseguido e calado, valendo a lei do pelourinho, chibata e o grito.

Mas quem é que gosta de ser enganado? Quem é que gosta de votar em bandido? Quem é que gosta de levar na cara?

Em quem foi mesmo que você votou nas últimas eleições?

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