Entrevista | “A base aliada precisa mostrar como será Goiás daqui pra frente”

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Foto: Divulgação

Fábio Sousa – Deputado Federal

Vassil Oliveira

Para que consiga reeleger José Eliton governador de Goiás, o PSDB precisa mudar o foco. É o que defende o deputado federal Fábio Sousa (PSDB), também pré-candidato à reeleição, nesta entrevista à Tribuna do Planalto. O parlamentar acredita que o seu partido e a base aliada precisam saber o que está sendo falado para as pessoas e o que elas estão absorvendo. “Com isso, conseguiremos apresentar uma proposta exequível, que atenda o coração delas”, observa. Hoje, Fábio avalia que o senador Ronaldo Caiado (DEM) lidera as pesquisas justamente por estar sabendo falar alguma coisa que as pessoas estão entendendo e ouvindo. “Cabe a quem está atrás, que é o caso, por exemplo, da base na qual estou inserido, faço parte, entender o que está sendo falado e apresentar alternativa”, diz.

Tribuna do Planalto O sr. tem criticado o funcionamento da Câmara. O que precisa mudar?

Tudo. Temos uma Câmara com 513 deputados, que custa, segundo dados do Contas Abertas, R$ 28 milhões ao dia para o cidadão. É uma Câmara cara, onde deputados são muito bem pagos. E que produzem pouco. O Tiririca fez essa definição numa entrevista, e ele tem razão. A Câmara é um lugar onde se trabalha muito, varamos madrugada trabalhando, e não se produz nada. Porque você tem vários processos de obstrução. Você tem um regimento interno que permite várias obstruções. Para se ter uma ideia, lá pede-se requerimento de adiamento de votações para quatro sessões: rejeitado. Aí pede-se para três sessões: rejeitado. Um absurdo. Votação em bloco: rejeitado. Votação de destaque por destaque: rejeitado. Vamos indo assim e não se produz nada. São coisas que de fato precisam ser mudadas. E a Câmara, repito, é caríssima. Eu apresentei um projeto diminuindo de 513 deputados para 350, e para que, ao invés de termos três senadores, tenhamos dois por Estado. Podemos baratear (os custos da Casa) agora, com 513 deputados, é só diminuir o número de cargos que nós temos. A Mesa Diretora tem inúmeros cargos. Cada partido, cada liderança tem inúmeros cargos. Todas as sessões começam muito tarde. As votações começam às 5, 6 horas da tarde, por isso vão até a madrugada. Se você passa das 7h da noite, tem que pagar hora extra para os funcionários e já é um custo elevadíssimo. Se começasse a votar mais cedo, não precisava passar das 7h, a não ser que houvesse uma urgência, uma exigência nesse sentido. É muita gente, precisamos qualificar o processo, qualificar o debate político no Brasil. A minha ideia é essa. Precisava de 171 assinaturas para ela tramitar, não consegui ter 40 até agora. Não sei por que.

“Eu espero, acredito muito na inteligência e na capacidade do Zé Eliton. Ele tem condições para isso (ter alternativas, novas propostas para conquistar os eleitores). Agora, vamos precisar unir forças. Não será fácil”

Em Goiás, com a oposição liderando as pesquisas de intenção de voto e o governo com 20 anos de poder, temos o prenúncio de mudança?

Todos temos que respeitar qualquer pesquisa que seja correta, séria. Temos que respeitar, analisar e entender que a pesquisa está refletindo o que as pessoas estão pensando no momento. Quando a gente tenta desqualificar isso, não é bom nem para quem está atrás, nem para quem está na frente. De fato, o senador [Ronaldo] Caiado [DEM] está na frente, e está sabendo falar alguma coisa que as pessoas estão entendendo e estão ouvindo. Cabe a quem está atrás, que é o caso, por exemplo, da base na qual estou inserido, faço parte, entender o que está sendo falado e apresentar alternativa para as pessoas. Mostrar o que foi feito, como você falou, nos 20 anos, sim, é importante. O Estado mudou. O Estado de Goiás era outro, hoje é industrializado, competitivo, deixou de ser apenas um Estado agrícola. Hoje tem um agronegócio muito bem estabelecido, além de outras vantagens. Mas você precisa ter alternativas, ter novas ações, novos projetos, novas propostas para conquistar os eleitores de hoje. Eu espero, acredito muito na inteligência e na capacidade do Zé Eliton. Ele tem condições para isso. Para criar isso. Agora, vamos precisar unir forças. O processo não será fácil, o processo eleitoral será extremamente difícil. Como você observou, são 20 anos de conquistas, mas acaba havendo também, como em todo caso de muito tempo de poder, degaste natural. É importante, repito, mostrar o que foi bom, o que foi positivo, o que foi feito. Mas a gente precisa ter novas propostas. Mostrar como será Goiás daqui pra frente. Qual o projeto nosso para o Estado daqui em diante. Acredito muito nisso. Tenho falado isso para o candidato do PSDB à Presidência, Dr. Geraldo [Alckmin], nas nossas reuniões. É preciso ler o momento. É isso que a população quer? Por que? Tem um motivo. Por que está querendo isso? Qual será a nossa proposta para ir ao encontro desse anseio social? É sobre isso que o PSDB precisa refletir, não só em nível nacional, mas também aqui no Estado de Goiás.

E isso está sendo feito? José Eliton já chamou o sr. pra conversar, por exemplo?

A gente tem conversado. Ele montou uma equipe para isso, para planejar. Ele escuta muito. Uma característica positiva dele é que ele tem uma facilidade muito grande de aprender. Se você conversa com o Dr. José Eliton hoje, percebe que ele conhece o Estado de Goiás inteiro. Conhece cidades, problemas, lideranças. É uma pessoa que tem essa capacidade de aprendizagem. Ele escuta, observa e vai absorvendo. Espero isso, e não só eu, porque sou pequenininho. Tem muita gente preparada no Estado que pode dar informações, oferecer ajuda, mas, naquilo que eu puder ajudar, com certeza, vou falar. Até porque, se tem uma coisa da qual não abro mão, é de dar a minha opinião. Isso é fato consumado, e gosto muito disso em mim. Não pretendo mudar. Se (ele) tiver disponibilidade de ouvir, vou dar opinião. Se não tiver, vou dar opinião também. Se não quiser, descarta. Estou fazendo isso em nível nacional. Se tem um candidato que disparou na pesquisa, e com a saída do Lula ele dispara mais ainda, que é um fato a ser estudado, é o Jair Bolsonaro. Você tem que saber por que. Saber o que ele está falando para a sociedade. Hoje a sociedade está vivendo um momento de uma crise de segurança pública muito grande, no Brasil inteiro. Então, nosso candidato tem que ter uma proposta para isso. Tem que chegar e atender a sociedade nesse sentido. Precisamos saber o que está sendo falado, o que as pessoas estão absorvendo, para que a gente apresente uma proposta exequível, que atenda o coração dessas pessoas.

O PSDB nacional está distante da população, do sentimento do povo?

Poderia estar mais próximo. Você tem pessoas extremamente preparadas, qualificadas… Gente que eu não tenho a mínima dúvida de que seria o melhor presidente, pelo preparo, pela estrutura, pela capacidade. Agora, melhor candidato é outra história. Para ser presidente, é preciso ganhar uma eleição.

Está falando de Geraldo Alckmin?

Encaixaria nisso aí. É a pessoa mais qualificada, de todas que se apresentam hoje, para ser presidente. Para São Paulo, talvez seria um excelente candidato, porque a eleição em São Paulo é diferente da do resto do Brasil. Isso é uma verdade. Tanto é que o candidato de São Paulo anda de pulôver, de blazer, para pedir voto. Agora, não adianta andar de pulôver no meio do nordeste brasileiro. Não adianta falar de problemas da Avenida Paulista, de PIB, aqui no sertão goiano, onde o pessoal está mais preocupado com a arroba do boi. Não adianta ir para o sul e não tomar chimarrão. Precisa andar, conhecer o Brasil como um todo. Em São Paulo, a forma de fazer política… Tanto é que está lá há 24 anos. Tanto é que o PSDB, desde Mário Covas, não perde uma eleição lá.

Alckmin emplaca como candidato a presidente?

Espero que sim. Nós vamos fazer de tudo para que sim. Porque, repito, se a gente for pensar no Brasil, pensar no país, no futuro, na segurança econômica, no país como um todo, enfim, é bom que ele ganhe a eleição. É bom que ele seja o próximo presidente do Brasil.

José Eliton é um candidato (a governador) melhor do que Alckmin (a presidente)?

Sim. Os dois são ótimos administradores, mas vou dizer por que, proporcionalmente, acho ele melhor. José Eliton tem uma história. Alckmin também tem. O problema é que comunicação não é o que você fala, é o que as pessoas entendem. O José Eliton tem uma história de rapaz simples que venceu na vida. Nós precisamos contar isso. Nasceu em Rio Verde, foi viver em Posse com a família, lá estudou só em escola pública, chegou na capital, formou-se em Direito, virou um baita de um advogado. Com pouco mais de 30 anos, era um advogado conceituado no Estado inteiro. É uma pessoa que venceu na vida, que lutou, saiu do nada e chegou lá. Temos o Geraldo Alckmin na mesma condição, que saiu de uma família muito simples, estudou, virou médico, conseguiu fazer Medicina e ser prefeito de Pindamonhangaba, no interior paulista, com 21 anos de idade. Depois construiu a carreira dele, foi deputado federal constituinte, deputado federal reeleito, virou vice do Mário Covas. Na morte de Má- rio Covas, tornou-se governador de São Paulo, vencendo outras eleições seguidas. Disputou uma eleição para prefeito de São Paulo, que perdeu. Disputou uma eleição para presente da República, que perdeu. Mas é uma pessoa que… A gente vai ver a história dos filhos dele, por exemplo, e está todo mundo trabalhando. Não tem ninguém bilionário, não tem ninguém com dinheiro em jogos de videogames, recebendo recursos para lá e para cá. Pelo contrário. O filho dele que morreu era piloto da empresa, não tinha helicóptero. É preciso mostrar isso para as pessoas. A história de vida e as propostas dele. O Zé já tem feito isso aqui. Tenho cobrado muito, principalmente, do Geraldo, uma posição mais firme sobre o que ele acredita, falar com mais força. Ele foi governador do maior Estado do Brasil. Foi governador da segunda maior economia do Brasil, e os paulistas quiseram reelegê-lo três vezes. Então, ele tem uma história. Precisa chegar isso à população.

Qual é o maior adversário do PSDB em Goiás? Caiado? Ou o MDB ainda pode ocupar esse espaço?

Hoje o maior adversário do PSDB em Goiás é o Caiado. Politicamente, eleitoralmente falando, o adversário político (da base aliada) é o Caiado. Ele está à frente das pesquisa. É o candidato do qual é preciso se aproximar, que precisa ser ultrapassado. Agora, não desprezo o MDB, que tem os 246 municípios de representatividade. O Daniel tem garra, tem um certo preparo, é filho de um ex-governador. Não podemos desconsiderar essas coisas. Ele está trabalhando, correndo atrás. Mas hoje a disputa é com Caiado.

“Continuarei sendo, enquanto for deputado federal, servidor público. Se deixar de ser deputado, deixo de ser do público, mas vou continuar servindo”

A polarização entre José Eliton e Ronaldo Caiado é boa para a candidatura de José Eliton?

Olha, é uma pergunta que eu nem saberia responder, com toda a sinceridade. É bom para a democracia termos três, quatro candidatos competitivos. Não gosto de polarização no Brasil, apesar de que a história de Goiás sempre foi de polarização. Sempre existiu. Talvez o Caiado esteja assumindo uma posição que outrora era do MDB. Mas essa polarização nunca foi salutar. O bom é ter três, quatro candidatos. Também não quero 20 candidatos, como foi em 1989, e como está se avizinhando agora na eleição presidencial. Mas ter três, quatro candidatos competitivos que possam fazer um bom debate, é muito salutar para a democracia, e para o debate eleitoral em si. Agora, se vai dar certo ou não, se é bom ou não, isso tem gente muito melhor do que eu para avaliar.

Essa é uma eleição plebiscitaria, em relação aos 20 anos do chamado Tempo Novo no poder em Goiás?

Vão tentar fazer (com que seja), vão tentar transformá-la numa eleição plebiscitária. Como eu disse, cabe a nós mostrar o que é bom, o que é importante. Mas temos que mostrar também que agora tem outra ideia, outra alternativa para o Estado. É essa junção que vai nos proporcionar a vitória.

  O acirramento de ânimos na discussão nacional, esquerda-direita, os extremos, o sr. acredita que isso vai se refletir nas eleições?

Olha, está se refletindo nas pesquisas, pelo menos. Se vai chegar à eleição, é outra história. O debate ideológico é positivo. O debate político é positivo. Ter posições claras em certas coisas, e defender essas posições por meio do bom debate, da boa luta, é positivo. O que não pode é extrapolar e passar para algo que é anticivilizatório. Desculpa o neologismo. Mas que é fora do que a gente acredita como democrático, como controle próprio, pessoal, domínio próprio. Você não pode partir para a violência, para o quebra pau, para o xingamento. O debate ideológico-político é importantíssimo. Veja os Estados Unidos. Lá, tem dois lados. Você tem 500 partidos, mas a população elegeu dois para votar.

Lá polariza de verdade…

Polariza, e esse debate existe, ele acontece. Apesar de que, no partido Republicado, parece que há dois partidos ali dentro. Tem o partido do (presidente Donald) Trump e tem o partido dos antigos dentro do próprio Partido Republicano. Mas são pensamentos ideológicos que se assemelham, pelo menos. Isso é bom, importante. É positivo. O que não pode ter é esse acirramento que ultrapasse o controle civilizatório e que passe para a violência. Mas aí existe uma coisa que se chama lei, existe polícia, e precisa agir.

O que ainda o anima a se dedicar à política?

Olha, vou ser muito sincero. Às vezes você até sente um certo desânimo, principalmente porque quer fazer as coisas e há uma certa dificuldade para isso. A burocracia existe não é só nas estatais, é no governo em si – aliás, no Brasil não é burocracia, é ‘burrocracia’ – e também no processo legislativo. Quando você vai para o Executivo, até tem mais condições de mostrar seu trabalho. Pelo menos, um pouco mais. Não pode tudo, mas pode mais do que uma pessoa no Legislativo. Mas, se quem tem boas intenções, tem certo preparo, pensar em abandonar a luta que está sendo travada no dia a dia, o que será do país? Se as pessoas que estão lendo agora essa entrevista, que gostam, que entendem, que têm boas intenções e sejam corretas, não entrarem no processo político, o que será do nosso país no futuro? Eu me considero muito da resistência. Continuo porque não me conformo com o que está acontecendo. Quero dar a minha contribuição de mudança. Enquanto a sociedade e Deus entenderem que posso contribuir, estou à disposição. Continuarei sendo, enquanto for deputado federal, servidor público. Se deixar de ser deputado federal, deixo de ser do público, mas vou continuar servindo.

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