Especial de Maio | Mãe de sangue, mãe por afeto

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Família – Luana, Lívia e Lucas com as mães Mônica e Suzana: um amor construído

Daniela Martins

Suzana e Lívia são exemplos de como o amor pode ser fruto da decisão e da convivência. Amor materno também nasce com filhos já grandes

Tecido pela vida, o laço que une Suzana, Mônica, Luccas, Luanna e Lívia se fortaleceu na convivência, na decisão de amar. É o ponto fora da curva no crescente número de casais homoafetivos que resolvem ter filhos. Casais que planejam a gravidez, a inseminação e lutam para registrar a criança com nome de duas mães ou dois pais.

Suzana Borges de Castro, pedagoga, e Mônica Salvador de Paula, fotógrafa, não planejaram nada. A vida desenhou o destino das duas, que têm pouco mais de três anos de casadas, quatro de relacionamento e dividem a maternidade dos filhos de 18, 20 e 22 anos.

Suzana, a mãe biológica, havia saído de seu segundo casamento, de 12 anos, com três filhos adolescentes. Mônica, a mãe afetiva, tinha deixado uma relação de 6 anos, e nutria o sonho do casamento, da maternidade. Queria um ‘time de futebol de salão’: cinco filhos. O acaso tratou de juntá-las. A filha mais nova, Lívia, estava com 14 anos, e Suzana precisava de uma fotógrafa para registrar os 15. Uma amiga em comum indicou Mônica.

A aproximação fluiu e a sintonia passou do profissional ao pessoal rapidamente. Início tranquilo, boa convivência entre os cinco, mas sem muito envolvimento. “Ela era a namorada da minha mãe e eu era a filha da mulher que ela namorava.” A fala da caçula retrata bem a situação.

Não demorou para a história se transformar. Em uma consulta de rotina, Suzana descobriu que a mais nova da turma, a jovem dançarina apaixonada por ballet, sofria de insuficiência renal. A doença de Lívia foi um susto que sacudiu a estrutura de toda a família. O quadro evoluiu e se agravou em uma velocidade ímpar.

O amor como escolha

Nesse ponto da história está a decisão de amar. A escolha de Mônica de fi car. “Era o começo da relação? Era. Eu poderia sair? Poderia.” O namoro era novo, e Suzana passou a não ter tempo para as duas. Estava completamente envolvida com a saúde da filha e ainda sem saber o quanto a experiência se tornaria pesada.

A companheira até podia escolher ‘cair fora’. Mas sair era covardia, define Mônica. O momento de decidir amar.

“O amor é uma sucessão de decisões!”, resume a psicóloga Gabriella Assumpção Alvarenga Schimchak. A terapeuta familiar explica que a gente decide amar a todo momento. Acontece quando você acolhe o outro e ouve sua história. Quando decide conhecer sua família. E no simples, nas atitudes do dia a dia. Quando entra no supermercado e leva o que a outra pessoa gosta. “O amor é uma construção relacional e para que prospere é necessário escolher por e para ele.”

Ainda nas primeiras consultas, Suzana e Mônica descobriram que Lívia estava com apenas 5% de funcionamento dos rins. Logo o sistema renal paralisou e a caçula iniciou a hemodiálise. “Foram duas horas no consultório com o médico explicando a situação dela, já estava gravíssima”, recordam.

Mal começou o tratamento, e o quadro clínico piorou. Lívia fi cou 103 dias internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Com altas e baixas na pressão, infecções por todo o corpo causadas pelos acessos da hemodiálise, ela ia e vinha da UTI. Foi quando Lívia começou a olhar diferente para Mônica. “Eu tinha perdido a fala, desaprendido a andar, a movimentar o meu corpo e não escrevia. E ela todo dia estava lá. Eu sabia que a Mônica já tinha um sentimento por mim, que tinha construído. Mas eu não tinha a possiblidade, ainda, de construir um sentimento.”

Amor, entrega e companheirismo

“Depois que transplantei, fui olhar e percebi que a gente havia construído um sentimento sim. Ela [Mônica] já tinha, e eu estava descobrindo isso. Olhei o que estava sentindo. Gosto muito da Mônica. Ela me ensina muita coisa, sei que ensino muita coisa pra ela. A gente tem um lado de mãe e filha muito grande. Chamo ela de mãe, de Mônica, falo para as pessoas que ela é minha mãe… Por mais que a minha mãe seja a Suzana, pelo carinho, afeto e a forma que tento olhar tudo, a Mônica também é, porque ela tem o mesmo carinho.” Lívia Castro

Construção e convivência

Rede de apoio – Lívia ao lado das mães, dos irmãos e das avós,
Oneida Luzia de Castro (materna) e Joana D´Arc Fernandes (paterna)

Para a psicóloga Gabriella Assumpção, o amor se dá na convivência, na disposição para a aventura de conhecer o outro: “É no contato diário ou frequente que se reconhece o amor”.

Amor nasce no companheirismo. “Costumo dizer que a gente começou a relação meio de ré. Coisas que acontecem em um relacionamento mais antigo, no nosso aconteceram logo. Tudo de muito difícil, aconteceu no começo”, relata Suzana. Em situações assim, continua, tem de ser uma relação forte, de muito comprometimento, senão não vinga. “Ela não tinha a mulher em casa, as poucas vezes em que estávamos juntas eram ligadas no telefone, no hospital, porque a gente não se desligava da Lívia.”

O relacionamento foi se fortalecendo à distância, com muita oração, confiança, entrega e colaboração. “Em termos de relação, nós vivemos tudo isso.” Mônica fazia o possível para ajudar. Levava e buscava os filhos no hospital, dava suporte para Suzana, inclusive financeiramente. Os cuidados em tempo integral de Lívia obrigaram a mãe a deixar o trabalho na escola. “Por muito tempo, a Mônica fez as despesas da casa sozinha”, destaca.

Compromisso – Família reunida no casamento de Mônica e Suzana

E as complicações continuavam. Os muitos focos de infecção causaram uma endocardite, infecção no coração. Era preciso uma cirurgia de peito aberto. O médico chamou a família e deu a notícia de que possívelmente Lívia não voltaria.

Realizada no início de 2014, em 21 de janeiro, data do aniversário de Mônica, a cirurgia deixou todos aflitos, mas foi um sucesso. Depois de mais esse susto, Lívia chegou a passar um tempo em casa antes de viajar para Porto Alegre (RS), onde fez o transplante, em 2016.

Em casa, no período pré-transplante, ela passou a fazer diálise peritoneal. O catéter é inserido no abdômen e ligado a uma máquina com a substância que entra e sai do corpo, fazendo as vezes dos rins. Uma alternativa à hemodiálise. O procedimento dura a noite toda. Se dava qualquer problema, a máquina apitava. Suzana e Mônica ficavam alertas.

“A Mônica foi cuidando de mim e eu fui pegando aproximação dela, um carinho muito grande”, conta Lívia.

15 anos – No dia de seu aniversário, Lívia estava internada

Nas situações de dor, ressalta a psicóloga Gabriella Assumpção, você reconhece e vivencia sua própria fragilidade. Essa experiência ilumina a importância do outro, a necessidade do compartilhar da sobrecarga inerente às situações de extremo sofrimento. “Isso evidencia o quanto necessitamos do outro na nossa própria trajetória. Dependendo de como o companheiro ou a companheira se posiciona nesta hora, o amor pode sim ser ampliado e se fortalecer.”

Suzana tem certeza disso. “Criamos uma relação forte, solidária e de companheirismo entre todos nós”, afirma. Os laços foram fortalecidos. Surgiu uma rede em prol da saúde, dos cuidados de Lívia, que envolveu as avós materna e paterna, e os familiares de Mônica.

Reconhecimento

Quando o namorado decidiu pedir a mão da filha do meio, Luanna Castro, em casamento, o pedido foi feito às duas mães, Suzana e Mônica. O lugar especial foi conquistado pela fotógrafa a partir da admiração que suas ações geraram no coração de Luanna. “Ela ter se desdobrado por conta da minha irmã fez a gente ver que a Mônica merecia minha mãe, e que a gente a aceitaria na nossa família.”

Luanna diz que, depois das avós paterna e materna, considera também Mônica como uma mãe. “Tenho um carinho, um respeito muito grande pela Mônica. Tanto ela quanto a família dela nos acolheram muito bem.”

Outra atitude, do filho mais velho, demonstra o amor que os três têm pela mãe que os adotou. No Dia das Mães, Luccas deu um anel de presente para Suzana e um para Mônica. “Ela é a mãe nossa sim”, diz. Para ele, a namorada de Suzana os acolheu como família. “Ela sabia que viríamos nós três e a Xena”. Xena é a maltês, a paixão da casa.

Há uma gratidão por Mônica ter sido e ainda ser a pessoa certa. “Ela não era mãe antes de nos ter. Mas assumiu minha mãe, cuidou da Lívia e eu não esperava isso de mais ninguém.”