Escolas usam ioga para deixar crianças menos ansiosas

0
690
Foto: Divulgação

Maria José Rodrigues

Iniciativa também visa contribuir para que as crianças possam crescer mais calmas e pacíficas, além de menos estressadas

A oferta de práticas semanais de ioga e meditação como atividade complementar foi um fator decisivo para que a nutricionista Danielle Domingues Meira Kimura escolhesse a escola onde matricularia sua filha, Carolina Kimura, de 4 anos. Desde agosto do ano passado, ela é aluna da Montessori Casa Escola, no Setor Sul, instituição de ensino que baseia seu trabalho nas propostas da educadora italiana Maria de Montessori, autora de um método pedagógico que prioriza a liberdade e a autonomia das crianças durante todo o processo de desenvolvimento infantil. Adepta de ioga por muitos anos, Danielle acredita que a prática regular de meditação e exercícios faz com que sua filha adquira mais conhecimento e percepção de seu próprio corpo.

“Isso dá à criança a possibilidade de se manter mais calma e tranquila, duas coisas essenciais em um cotidiano tão imediatista e ansioso”, diz. Para a nutricionista, essa percepção corporal e a tranquilidade proporcionada pela respiração profunda e pelos movimentos corporais, aliadas à educação emocional, trazem como resultado uma riqueza de autoconhecimento, autoempatia e empatia pelo outro. “Tudo isso contribui para uma criança mais saudável e preparada para uma convivência mais respeitosa com outras pessoas, tendo a consciência de sua responsabilidade e a do outro frente às situações cotidianas”, observa. Idealizadora do projeto Crescendo Zen, que desde 2016 leva aulas de meditação para diversas turmas da Educação Infantil em Goiânia, Rachel Melo reforça o pensamento de Danielle. Segundo ela, o objetivo da iniciativa é contribuir para que as crianças possam crescer mais calmas e pacíficas, além de menos estressadas e ansiosas.

Como saldo positivo, ela cita a melhoria da interação entre essas crianças e o mundo que as cerca. “O principal intuito da meditação nessa fase é estimular o florescimento de conceitos humanísticos universais, como generosidade, compaixão, amorosidade, cooperação, a solidariedade, tolerância e o respeito com todos os seres do planeta. E com isso ampliamos as possibilidades para que esses valores se consolidem no sujeito em formação. Na verdade, estamos plantando sementes para resultados futuros, já com o foco em uma sociedade mais humana e sensível, além de seres mais saudáveis de corpo e mente”, explica. Formada em Administração de Empresas e Direito, Rachel Melo usufrui dos benefícios da meditação há 15 anos. No ano passado, ela foi ao Japão participar de um retiro espiritual que durou oito meses.

No mosteiro onde ficou, de junho de 2017 a fevereiro de 2018, ela lembra que uma das práticas incluía o uso da técnica com crianças. Ela conta que o projeto Crescendo Zen existe desde 2016 e que atualmente está sendo desenvolvido em três escolas de Goiânia: duas particulares e uma municipal. O público atendido inclui alunos de 2 a 6 anos de idade, faixa etária marcada pela formação da personalidade e fundamental para a construção mais sólida de valores. “São muitas as vantagens que a ioga e a meditação proporcionam às crianças. Trabalha a paciência, concentração, memória e raciocínio que, por sua vez, colaboram também com o processo de aprendizagem”, acrescenta a pedagoga Stela Bandeira Cruvinel, fundadora e diretora da Montessori Casa Escola. A instituição de ensino incorporou ioga e meditação como atividades pedagógicas complementares a partir de fevereiro deste ano.

Mãe de quatro crianças, todas alunas da escola que ela dirige, Stela cita como principais ganhos o controle das emoções, a própria percepção da criança como ser humano e maior tranquilidade ao lidar com situações de estresse ao longo da vida. “É perceptível a construção global da criança, ou seja, não podemos falar apenas de um resultado específico, mas integral”, destaca. Rachel Melo complementa: “O objetivo primordial das duas técnicas é possibilitar às crianças um encontro com sua verdadeira essência. É um olhar para dentro, e não o contrário. Já está tudo ali, dentro dela mesma; nosso papel é apenas ensinar como trilhar esse caminho”.

Saúde já reconhece as práticas integrativas e complementares

Rachel Melo, idealizadora do projeto Crescendo Zen, e Stela Cruvinel, fundadora e diretora da Montessori Casa Escola: controle das emoções.

Embora os benefícios da meditação e ioga para a formação integral das crianças sejam inquestionáveis, a idealizadora do projeto Crescendo Zen, Rachel Melo, comenta que, ao contrário do Japão, no Brasil ainda são poucas as instituições de ensino que demonstram ter, de fato, preocupação com o desenvolvimento pleno das pessoas. “O que nós temos, em grande maioria, são escolas de performance, que priorizam o ensino focado mais nos indicadores de desempenho dos alunos do que a formação integral do ser”, lembra. De forma mais ampla, apesar do número ainda inexpressivo de escolas que desenvolvem iniciativas semelhantes ao Crescendo Zen, é possível considerar como um avanço importante o reconhecimento pela rede SUS (Sistema Único de Saúde), em 2017, dos aspectos positivos de práticas terapêuticas que incluem não apenas ioga e meditação, como também a arteterapia, biodança, musicoterapia, aiurveda, reiki, entre outros.

Tendo em vista que a melhoria da qualidade de vida envolve diferentes setores da sociedade, esse reconhecimento no campo da saúde acaba abrindo boas perspectivas para que as práticas integrativas e complementares também conquistem seu espaço na área educacional.

Foto: Divulgação

Para a pedagoga Anna Maria de Oliveira, instrutora de ioga Lúdico na Educação e coach educacional, o fato de a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) definir como prioridade a abordagem das habilidades socioemocionais pode ser visto como uma conquista significativa. “As práticas integrativas, em especial a meditação e ioga, são caminhos poderosos para o resgate da saúde. É prevenção. Não acredito que fique somente no papel. Há resistências, o que é natural. Mas ao olharmos para a dor do ser humano é impossível não validar outras formas de cura, prevenção e cuidados menos invasivos”, avalia.

Entrevista

“Meditação e ioga ajudam a integração da mente, do corpo e das emoções”

Anna Maria de Oliveira é pedagoga com formação em arte educação, instrutora de ioga Lúdico na educação, coach educacional, especialista em desenvolvimento humano, consultora pedagógica para professores e escolas, graduada em cursos complementares como reiki tibetano e técnicas corporais aiurveda e fundadora da Academia Confluência, pela qual está produzindo um livro que será lançado em outubro e tem como tema principal o relato sobre suas experiências como professora de ioga infantil. Nesta entrevista ao caderno ESCOLA, ela fala sobre seu trabalho e sobre como vencer a resistência de muitos educadores e pais sobre a incorporação da meditação e ioga às práticas pedagógicas das escolas.

Tribuna do Planalto: O que levou a senhora a esse despertar sobre os benefícios do ioga e meditação na educação infantil?

Sou apaixonada por educação desde pequena. Sempre gostei de partilhar o conhecimento e ajudar meus irmãos e amigos no processo de aprendizagem. Influenciada por meus avós paternos, desde a adolescência estudo sozinha astrologia, mitologia grega e celta. Meu trabalho como pedagoga tem como causa o despertar de uma nova consciência, inspirar o florescimento da essência de crianças e adultos para uma vida linda, feliz, próspera e cooperativa!

E quais as vantagens dessas técnicas para a formação da criança?

 Um dos aspectos mais positivos é promover a reconexão com a essência verdadeira do ser humano. A prática da meditação e do ioga incentiva a integração da mente, do corpo e das emoções. Meditar e praticar ioga com leveza, brincadeiras, músicas adequadas e momentos de silêncio trazem paz interior, confiança, eleva a autoestima e fortalece a mente e a autonomia da criança.

A partir de que idade é possível trabalhar com crianças e ter boas respostas?

É possível começar com crianças no berçário, de maneira lúdica e tempo reduzido, respeitando as necessidades e demandas dessa faixa etária.

Tem se tornado comuns crianças com quadros de ansiedade e depressão serem tratadas com medicamentos da moda. É possível reverter esse quadro com práticas terapêuticas não convencionais, como ioga e meditação?

Observo que as demandas exigidas das crianças são semelhantes, muitas vezes, às dos adultos e isto vai criando situações de tensão, baixa concentração, ansiedade e depressão. A natureza da criança vai sendo “adulterada” e o seu ritmo natural de desenvolvimento é desconsiderado.

Como ioga e meditação também trabalham o comportamento da criança, podemos dizer que são boas alternativas no combate à violência nas escolas?

Sim! As cenas de violência no ambiente escolar podem ser minimizadas, pois a prática de valores humanos é parte da filosofia do ioga, que destaca valores como cooperação, solidariedade e respeito a si e ao outro e com o ambiente. Não é teoria, é prática! A qualidade de vida e das relações sociais muda, se transforma. E a sociedade só se transforma com amor e respeito genuínos.

E como vencer a resistência de muitos pais e educadores que relacionam essas práticas com religião?

Essa pergunta é o cerne da questão! A resistência de pais, educadores e gestores escolares é grande e uma das formas de lidar com isto é convidá-los a vivenciar uma prática leve, com foco para introspeção, respiração e autopercepção. A experiência é o melhor caminho. E também esclarecer que ioga e meditação não são religiões, são ciência, arte e filosofia de vida.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here