Especial de Maio | Mulheres que acolhem mulheres

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Fotos: Daniela Djean

Daniela Martins

As doulas cuidam das mães na hora decisiva. Elas ajudam a humanizar o parto

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Deixe de lado todo pré-conceito sobre parto natural antes de seguir com a leitura. Nenhum dogma, nenhum julgamento antecipado merece espaço diante da grandiosidade que é a experiência do parto humanizado. As imagens mostram, as mães contam, as doulas explicam. Doulas são mulheres que orientam e assistem as mães na hora do parto e nos cuidados com o bebê. A palavra vem do grego. Significa ‘mulher que serve’ .

“Minha cabeça era totalmente virada para o outro lado, que as pessoas conhecem e são levadas a crer que é a melhor opção, a cesariana. No primeiro encontro de gestantes falaram sobre o respeito à mulher, em respeitar a hora do bebê nascer e me deu o click”. A conversa, promovida por um grupo de doulas, elevou a outro nível a experiência da mineira Daniela Djean, 27 anos, com a maternidade.

Era a sua primeira gravidez. Daniela, hoje fotógrafa de parto com curso de doula e apaixonada pelo parto humanizado, comenta que a cesariana era uma ideia egoísta. “Estava fazendo um caminho totalmente contrário ao que era melhor para mim e para meu bebê, pensando somente em mim”, diz. A ficha terminou de cair quando ela assistiu ao documentário “O renascimento do parto”, de 2013, que retrata a realidade obstétrica mundial e, principalmente, a brasileira.

Foto: Mônica Salvador

“Quando a gente sabe o que pode acontecer, o nível de ansiedade diminui e a gente se entrega à experiência. Entendo porque, ao longo dos anos, as mulheres tiveram pavor do parto normal. Elas eram deixadas sozinhas, vivenciando aquela dor, normalmente sem se alimentar por horas. A informação traz uma condução muito mais tranquila.”
Lívia Sebba, psicóloga e doula

Somos o segundo país com maior número de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que as cesáreas não devem ultrapassar 15% dos partos, 52% dos brasileiros vêm ao mundo por meio de intervenções cirúrgicas, muitas vezes desnecessárias. Os dados são do ‘Nascer no Brasil’, grupo de pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública, do Instituto Fernandes Figueira (Fiocruz). O trabalho revelou riscos preocupantes à saúde infantil. Entre as consequências está o nascimento antes da hora. A taxa de prematuridade de bebês brasileiros é de 11,5%, o que em grande parte decorre de cesarianas agendadas, sem necessidade médica.

Intimidade, vínculo

Depois daquele despertar, Daniela se tornou mãe de Francisco, 4 anos, e Aurora, 1 ano. Os dois nasceram de parto natural na presença de doula. Francisco, no hospital. Aurora, em casa. Casada com Patrick Coura, que acompanhou o nascimento dos dois filhos, ela contou com o apoio do marido para se dedicar à fotografia. Em pouquíssimo tempo, viu sua primeira sessão fotográfica de um parto humanizado chamar a atenção. Mescladas em vídeo, as imagens alcançaram 8 milhões de visualizações no Facebook, foram parar no site Catraca Livre e estão no documentário “O renascimento do parto 2”, lançado em maio passado.

Conheça o trabalho de Daniela Djean
Site: www.danieladjean.com.br

O interesse no curso de doula veio nesse ínterim, como uma forma de se tornar uma fotógrafa melhor no ambiente do parto. “Importante para eu saber o meu lugar, sempre dando espaço à mulher, sem interferir na cena e para captar só de longe. Mas sempre disponível para o que ela precisar.” Se necessário, Daniela larga a câmera para ajudar. Pega uma água, faz massagem. O resultado é um vínculo forte, íntimo, e de troca. “Aprendi muito com elas. Na hora do meu parto [de Aurora, em casa], lembrava de várias delas, das técnicas que a ajudaram. Cresci muito com cada uma. Elas me fortaleceram, me fizeram a fotógrafa e a mãe que sou hoje.”

Protagonismo feminino

Fotos: Daniela Djean

Há 31 anos, Simone Garuda deu à luz a sua primeira filha, Rafaella. E a experiência do parto não foi legal. “Fui mãe muito jovem, forçada a respeitar a opinião do médico como a maior de todas. Minha mãe, sogra, marido, todos queriam que eu seguisse aquele médico. Eles decidiram por mim, mesmo eu não querendo. Pude opinar, mas minha decisão não era respeitada”, recorda. Três anos depois veio o segundo filho, Thiago, da mesma forma.

Era o parto e o corpo dela, mas sua voz não foi ouvida. “Não tive o apoio emocional que eu precisava, foi um processo muito doloroso.” Com o passar dos anos, Simone ressignificou a experiência. Estudou yoga, desenvolveu o autoconhecimento, se tornou terapeuta ayurvédica e, há 4 anos, doula. “Decidi ser doula porque não quero que as mulheres passem pelo que eu passei. Acredito que todas têm direito de escolher o que quer. A mulher tem de ser ouvida e considerada.”

O parto não influencia somente mãe, o filho sente igualmente os resultados dessa experiência. Simone defende que essa fase da vida da criança é extremamente importante para ser um adulto saudável e seguro. “O momento do parto fica guardado, gravado para sempre no inconsciente. Se hoje temos adultos inseguros, isso é o reflexo de um parto com muita intervenção”, avalia.

Nascer e viver

‘Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer’. A frase do cirurgião francês Michel Odent é citada por Lívia Sebba, mestre em psicologia, doula e acupunturista, e demonstra o poder que a forma que o filho chega ao mundo tem na mãe e no bebê.

Lívia assegura que o parto assistido, a doulagem, não é modismo. É um movimento ainda tímido, mas que tem crescido. “Quando a mulher nos procura já tem um anseio pelo parto humanizado. A gente traz o poder da informação. Mostramos que o parto natural é a maneira mais saudável para ela e para o bebê. É benefício para a saúde dela, a saúde reprodutiva, física, emocional. É o que é natural.”

Foto: Monique Oliveira

“Ver uma família renascer, uma mulher se transformar ali diante dos seus olhos… Esse encontro é uma coisa fora de qualquer outra que a gente possa explicar. É incrível, lindo, máximo. Planto essa sementinha de um parto positivo, de um parto onde a mulher seja protagonista e seu bebê espere a hora de nascer.”
Daniela Djean, fotógrafa de parto, na foto com o marido Patrick e a filha Aurora

 

Juntas, Simone, Lívia e Michelle Oliveira criaram o Materdoula, grupo que dá apoio a casais, gestantes e oferece curso de doulagem em Goiânia. Do ano passado para cá, formaram 30 doulas e outra turma está em atividade. As três também estão à frente da Associação das Doulas do Estado de Goiás, entidade recém-criada que deverá reunir as cerca de 70 profissionais dessa área que, estimam, há no Estado.

Acolhimento

Quando a mulher procura uma doula já tem o desejo de vivenciar o parto humanizado. A missão da profissional é devolver à mulher o protagonismo na hora do nascimento de seu bebê. O caminho para tal é oferecer informações durante a gravidez e o apoio no momento do parto. “Nós passamos as informações, com evidências científicas, e a partir disso, ela procura o profissional, a equipe que vai acompanhar o parto.” Esse poder conquistado com a conscientização, com informação, diminui a ansiedade da gestante. “Ela vê o que é natural e o que não é natural acontecer e, na hora do parto, a mulher está entregue ao momento, ao que está para acontecer. E se não for natural o que está acontecendo, ela já sabe.”

É importante reforçar, continua Lívia, que doula nenhuma acompanha o parto sozinha. O médico ou enfermeira obstetra sempre está presente, seja no parto hospitalar, seja no domiciliar. “Doula não é parteira, há uma confusão muito grande nesse aspecto”, adverte Simone Garuda. “Doula não faz avaliação clínica da gestante, não ausculta batimentos do bebê nem faz exame de toque vaginal. Nossa função é cuidar da mulher no sentido de ambiência, técnicas de alívio da dor. Dar informação e acolhimento”, explica a psicóloga. A doula oferece o apoio emocional. “Dizemos ‘está tudo bem, você pode vocalizar, pode gritar. Se entrega, você consegue’. É o incentivo.”

Nesse trabalho, a doula segue a diretriz do acompanhamento obstétrico definido pela gestante com o seu médico. “A gente não se sobrepõe à conduta médica”, observa Lívia. Se há respeito, há também uma integração entre a equipe hospital e as doulas. “Tem maternidade em que vamos acompanhar partos e a equipe nos recebe de braços abertos.”

Foto: Mônica Salvador

“Toda mulher tem direito a ter uma doula. A gente gostaria que a realidade fosse assim. A doula traz conforto psicológico, físico, emocional para a mulher, o que é muito importante na hora do trabalho de parto. É como se fosse um anjo da guarda daquela mulher, que está ali para proteger, amparar e acolher a mulher no momento do parto.”
Simone Garuda, doula e terapeuta ayurvédica

Estudos apontam que a participação das doulas aumenta a condução de partos naturais, aqueles em que o bebê nasce sem intervenções médicas, como anestesia, analgésicos ou substâncias para acelerar as contrações do útero. Também reduz, em casos de partos normais, o uso de analgesia, anestésico em menor proporção que o usado em cesáreas, além de diminuir a incidência de partos assistidos por fórceps ou vácuo extrator, dois instrumentos que são ligados à cabeça do bebê para retirá-lo por via vaginal.

Confira o trabalho da Materdoulas @materdoula

“Lógico que se houver a necessidade de intervenções clínicas, de realização de uma cesariana, a equipe médica está ali para isso. Mas é importante dar oportunidade a essa mulher para o corpo dela responder da forma mais natural e saudável possível”, orienta Lívia Sebba.

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