Jogo truncado. Jogo aberto

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Foto: Divulgação

Vassil Oliveira

Caiado lidera. Zé Eliton e Daniel correm. Todos têm seus triunfos, mas também têm suas dificuldades.

As negociações envolvendo os pré-candidatos ao governo de Goiás avançam para chegar a lugar nenhum. Não é momento de resolver. É tempo de revolver o campo das articulações. Todo mundo trucando, todo mundo escondendo o jogo. Truncado, o jogo está também aberto em todas as direções. Não há favorito. Há movimentação.

O líder nas pesquisas, senador Ronaldo Caiado (DEM), tem mais de uma dezena de partidos colados em sua candidatura. Estão atraídos pela perspectiva de poder. Parte deles, no entanto, sempre fica com o governo estabelecido, que oferece estrutura financeira para os candidatos a deputados (estadual e federal) e cargos a seus líderes – ou seus indicados. Isso se já não ofereceu. Se já não estão lá, no poder.

Até agora, as legendas e seus donos que estão no governo não foram pressionadas a definir de vez um lado, com o custo de perder os espaços que têm. Isso está previsto para acontecer nas próximas semanas, segundo governistas. Será o momento de testar a força da máquina e a resistência da candidatura de Caiado, que conseguiu já superar uma barreira entre as muitas que eram vistas como intransponíveis no seu caminho de sustentar a candidatura: manter-se próximo aos 40% de intenções de voto.

A aposta no governo é de que o senador vai negar aos seus apoiadores a estrutura porque, argumentam, ao longo de sua trajetória ele nunca teria ajudado com recursos e apoio qualquer outro aliado. Será a senha, então, para a ação decisiva, que pode ser definida com desidratação da candidatura. Nesse momento, caso as pesquisas providencialmente mostrem queda nas intenções de voto, o ambiente estará armado para a mudança no jogo. Caso mostrem, se é que dá pra entender.

Daniel Vilela (MDB) também conta com a desidratação de Caiado no tempo e no espaço da reta de chegada das convenções, em julho. Por outras razões. A torcida, no lado emedebista, tem outro viés: ela está fundada na convicção de que os seus milhares de filiados e militantes históricos, quando entenderem que a candidatura de Daniel é definitiva e irreversível, vão ficar com a legenda, e não com Caiado, para onde está apontada, hoje, a tendência de apoio de boa parte.

Desidratação é palavra-chave nesse contexto. Nos últimos tempos, ela tem sido muito usada principalmente pelo deputado estadual José Nelto, dissidente emedebista que, para continuar apoiando o senador, mudou-se para o Podemos, para lá criar trincheira mais contra Daniel do que propriamente a favor de Caiado.

Desidratar Daniel é missão de vida política para o deputado e prefeitos como Adib Elias (Catalão) e Ernesto Roller (Formosa). E de visão estratégica: sem força, Daniel ficaria automaticamente sem autoridade para manter com ele os emedebistas, que, em nome do medo de mais uma derrota, migrariam de mala e voto para Caiado.

Base incerta

Todas essas considerações são variações de um jogo em andamento que comporta ainda lances extras e participações especiais capazes de mudar uma partida. O PP de Alexandre Baldy está em campo e ninguém sabe para onde está chutando. Caso feche com o governo, esvaziará Daniel Vilela, que conta com o partido para formar chapa e passar a ideia de fortalecimento, contra a do esvaziamento, seu maior inimigo nesta altura dos fatos.

Mas pode ser que o PP se posicione, sim, com Daniel. Isso implicará perda de aliado tradicional para José Eliton, e um tropeço para Caiado, que tem vários partidos pequenos, nenhum médio, e verá fragilizada a tese de que é o único da oposição com chance de vitória. MDB e PP, na avaliação geral dos próprios jogadores, é uma dobradinha que impõe respeito.

Daniel mantém diálogo também com PSD e PTB. O PSD está trincado. Vilmar Rocha parece ter definido como meta derrotar José Eliton, tal a disposição que mostra em verbalizar contra suas chances e a favor do fim do ‘tempo novo’, depois de 20 anos no poder desde a primeira vitória do ex-governador Marconi Perillo sobre Iris Rezende (MDB), em 1998. Os deputados federais e estaduais, no entanto, estão fechados com o governador.

Onde isso vai parar? Ninguém sabe. Pode parar até em apoio de Vilmar a Caiado, ou Daniel, com o partido ficando com Eliton. Ou em Vilmar se entendendo com os seus, da base aliada. Diferente do PSD, o PTB não está com problemas internos. O seu caso tem a ver com outro lance: a pré-candidatura de Demóstenes Torres ao Senado.

Semanas atrás, o PTB chegou a anunciar apoio antecipado a Zé Eliton. Na semana passada, porém, a conversa mudou: o apoio permanece, desde que Demóstenes tenha lugar assegurado na chapa junto com Marconi, o outro candidato a senador já definido. Sem isso, o partido pode, digamos, tomar outro rumo, quem sabe o de Daniel Vilela. PTB e MDB são velhos aliados, como PTB e PSDB também são. Coisas da política de resultados de Jovair Arantes.

Um senão é Jovair mais uma vez ser alvo de denúncia com repercussão nacional, envolvendo pagamento de propina no Ministério do Trabalho, dominado pelos trabalhistas. Outro senão está na longa exposição negativa de Demóstenes desde que seu nome surgiu em escutas da PF nas operações Vegas e Monte Carlo, o que culminou na cassação de seu mandato no Senado. Acusado de favorecer Carlinhos Cachoeira, o procurador nega o fato (e nada foi provado), admitindo a amizade.

No centro da discussão está outra aliada, que por enquanto está fechada com o governo: a senadora Lúcia Vânia, do PSB. Por enquanto. Lúcia Vânia é a preferida dos governistas incomodados com Demóstenes para compor a chapa majoritária com José Eliton e Marconi Perillo – embora não pareça, tal o espaço dado ao petebista na agenda do governador. Ela aparece bem nas pesquisas de intenção de voto e tem desgaste mínimo.

A senadora já deixou claro que prefere ficar na base, que ajudou a formar e onde está a maior parte de seus apoiadores diretos. Mas já, também, acenou que pode tomar outro rumo, caso se sinta desprestigiada. Tomar outro rumo pode ser tanto se alinhar com Caiado, que a mima, quanto com Daniel, que tenta seduzi-la. Pode ser também simplesmente não ser candidata.

Qualquer que seja a alternativa, resultaria em um baque grande para Zé Eliton e Marconi. Colocaria por terra a unidade do ‘tempo novo’. Por sinal, também derrubariam esse discurso de união o afastamento tanto de PSD ou do PTB. Ou de todos. Como segurar a manada, neste caso? Como impedir uma natural desidratação de Eliton, com os governistas correndo para se acomodar onde estará a perspectiva de poder, retirada com a desunião aliada?

Daniel ganharia com o fim da unidade dos partidos ligados ao governo, mas o maior beneficiado seria inegavelmente Caiado. Por ser o líder, e porque já há movimento espontâneo de governistas dispostos a apoiá-lo, talvez esperando apenas o momento certo, o desenrolar dos fatos, a capitulação de Zé Elitou e/ou de Daniel. Não fica afastada nem mesmo a possibilidade de uma definição do jogo no primeiro turno.

Marconi em campo

O fi m da Copa do Mundo é apontado como o instante em que será deflagrada a corrida final pelos apoios e alianças. E o fim pode vir antes do jogo final: com uma possível desclassificação da Seleção Brasileira. A partir daí, será o apocalipse. Antes, um lance terá influência decisiva, também no entendimento de quem acompanha de perto as disputas no Estado: a volta de Marconi Perillo ao jogo.

Marconi estava em viagem pelo exterior. Voltou e permanece à parte. Segundo definição do governador José Eliton à Rádio Sagres 730, ele será governador e Marconi, coordenador da campanha da reeleição. Cada um no seu papel, dentro de uma ação coordenada, focada, objetiva. No jogo, o ex-governador é um diferencial que impõe ritmo próprio e respeito. E pouco importa, nesta etapa da disputa, o fato de pesquisas mostrarem que ele está com imagem desgastada: estamos falando de combate com jogadores políticos, e não com o povo. A disputa pelo voto tem hora pra chegar.

Quer dizer que enquanto a bola rolar na Rússia, Marconi estará jogando em todas as áreas partidárias em Goiás, e isso significa mais pressão sobre um Daniel açodado pelos companheiros e sobre um Caiado pouco incomodado por enquanto em seus fundamentos eleitorais. Uma questão em aberto para Marconi será novamente o seu poder de resiliência, uma vez que o PSDB está no epicentro do fogo político nacional, com denúncias estabelecidas e ameaças de mais denúncias por vir.

Marconi será o velho Marconi capaz de virar eleição, como fez em outros anos, e como é esperado que faça de novo (motivo, talvez, de a base ainda estar contida como água em uma represa prestes a estourar)? Ou os tempos mudaram? Nos ombros de Marconi é jogado o futuro da base aliada, mais do que no de Zé Eliton. Eliton tem a perder a reeleição; Marconi tem a perder mais: a própria eleição. Eliton terá tempo, ainda que curto, para organizar sua saída, caso perca; Marconi, o que fará sem mandato?

Marconi é visto como o favorito para o Senado, mas não é isso que as pesquisas têm mostrado. Em todas, ele está empatado com Lúcia Vânia e não muito distante de outros nomes, como do vereador Jorge Kajuru, de Goiânia (PRB). Longe de ser uma unanimidade, ele tem adversários conhecidos e também desconhecidos, se se considerar que o desgaste de sua imagem pode fazer despontar nomes pouco conhecidos, como o ‘novo’ se contrapondo ao ‘velho’.

Um outro Caiado

Esta será principalmente uma eleição plebiscitária, em que os 20 anos de mando de Marconi serão julgados. Caiado e Daniel tratam de alimentar isso. Kátia Maria (PT) e Weslei Garcia (Psol), também. Todos têm na ponta da língua críticas mordazes contra os tempos tucanos no governo. Tem também o que pesquisas apontam: o cansaço da população com o mesmo e mesmo grupo mandando há duas décadas.

Marconi pode mover peças. Pode fortalecer Daniel deixando escapar um ou mais partidos da base que não impliquem tanta perda para seu lado. Pode apostar na polarização com Caiado, jogando tudo para esvaziar de vez o emedebista. Pode investir todo seu capital no esvaziamento não de Daniel, mas de Caiado já no primeiro turno. E pode ser que não tenha mais tanto poder para mexer no tabuleiro, e seja ele próprio atropelado pelos fatos.

E o grande fato relevante é a persistência de Caiado no jogo. A sua resistência aos ataques que começam a surgir. A sua proficiência em jogar diferente do que esperavam dele: ciscando para dentro (formando aliança ampla de partidos), evitando conflito com Iris (apesar do apoio do prefeito de Goiânia a Daniel), fugindo de ataques convulsivos contra aliados (para manter o MDB ao seu lado).

Caiado está fazendo sua parte, procurando errar o menos possível e construindo sua candidatura com paciência e persistência, quando todos esperavam que fosse acabar sozinho, colocando tudo a perder. Como grande ativo a favor, ele tem o discurso de oposição contra os governos do Estado e federal. Mesmo a lembrança de que fez parte, direta e indiretamente, de 16 anos do ‘tempo novo’ no poder não abala seu favoritismo. Mesmo o fato de ter participado da ascensão de Michel Temer à Presidência da República cair na sua conta.

Caiado está ganhando a eleição e, para reverter isso, será preciso mais do que aposta na histórica polarização entre emedebistas e herdeiros da velha Arena em Goiás. E é o que Marconi, Zé Eliton e Daniel farão, a grande expectativa daqui pra frente. Isso mais outras variantes imponderáveis: as articulações nacionais, novas denúncias envolvendo quem está em campo no Estado – PSDB, MDB, DEM etc. –, um virtual impeachment do presidente, alianças eleitorais nacionais com reflexo local. Por aí.

Nesse ambiente, a indefinição dos partidos é jogo de cena do jogo maior, indefinido por sua singular natureza política. E a tensão é arma de longo alcance que troca de mãos, como na troca de cadeiras dos jogos de salão. E é impossível saber o final de tudo porque nada impede que o líquido e certo, de repente, se desfaça em um novo lance que resulte em aliança impensada, ou acabe com laços bem estabelecidos. Não por vontade, mas por mero senso de oportunidade eleitoral. Ou sobrevivência política.

Esquerda livre

Os cenários são amplos, não se esgotam. Com o confronto estabelecido entre Ronaldo Caiado, Daniel Vilela e José Eliton, Kátia Maria e Weslei Garcia têm liberdade para construir suas campanhas. O problema: com estruturas pequenas, estão à parte no jogo principal; a virtude: eles só têm a ganhar. Kátia já ganhou, de certa maneira: sua candidatura é uma vitória pessoal, o reconhecimento à sua liderança, que se firmou no ano passado, quando assumiu o comando petista em momento de baixa partidário, com desgaste máximo, e reconstruiu a legenda percorrendo todo o Estado.

O PT tenta construir uma aliança de esquerda, porém não avançou além do apoio do PCdoB. O objetivo, no entanto, é maior: garantir palanque para a candidatura de Lula – ou de outro nome, dentro da perspectiva do ex-presidente definitivamente ficar fora da eleição. Kátia Maria sabe de suas chances, e não se acomoda. Está montando plano de governo e buscando se posicionar como novidade em um processo marcado por representantes de velhos grupos políticos do Estado. Objetivo primeiro: ir para o segundo turno.

Também o Psol tem projeto nacional, centrado na candidatura de Guilherme Boulos à Presidência. Boulos recebeu elogios de Lula, surge como novidade e tem chamado a atenção com um discurso bem posicionado à esquerda, sem radicalismo. Está em ação, o que faz a candidatura de Weslei, em Goiás, estratégica para o alargamento de seu projeto. Favorece outro nome, pré- candidato ao Senado: o agente da PRF Fabrício Rosa, com reconhecida militância na área de direitos humanos. Weslei com um pé no entorno do DF; Fabrício com os dois em Goiânia.

Ao contrário de Caiado, Daniel e Eliton, que lutam para se estabelecer antes da campanha de fato começar, Kátia e Fabrício só não estarão na disputa por força das circunstâncias. Independente de como os outros chegarão lá, lá os dois estarão. E não significa que outros nomes não possam surgir daqui até agosto. A porta da esperança está aberta. E por ela só não passa quem não se estabeleceu.

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