Entrevista | “Não vamos nos aliar ao PT”

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Foto: Internet

Fabrício Rosa – Pré-candidato ao Senado

Daniela Martins e Fagner Pinho

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No dia 22 de abril, o Psol, em uma reunião interna, definiu que o então pré-candidato ao governo estadual pela sigla, o policial rodoviário federal Fabrício Rosa, passaria a ser pré-candidato ao Senado, dando lugar a Weslei Garcia. Nesta entrevista concedida à Tribuna do Planalto, o agora pré-candidato a uma cadeira no Senado explica como foi realizada a reunião que definiu esta movimentação no tabuleiro e afirma que não restou mágoa e que respeitou a decisão do partido. Ele também explica como ocorreram as conversas com o PT, que buscou a formação de uma Frente das Esquerdas no Estado, e revela que em momento algum o Psol chegou a cogitar união com o partido de Lula e Dilma. Confira a entrevista completa.

Tribuna do Planalto – O Psol tem uma pauta progressista e sabemos que trabalha diversas questões de liberdade, o que a gente não encontra dentro do militarismo. O senhor, como ex-militar, concorda que a esquerda não está sabendo conversar com o militarismo, como defende um deputado de seu partido, Marcelo Freixo?

Fabrício Rosa – Concordo. A gente tem que conversar com os trabalhadores da Segurança Pública. É preciso que os policiais percebam como trabalhar isso. Só assim a gente vai conseguir fazer com que a Polícia seja para o povo mesmo. Então, o policial tem que se sentir como um membro do povo, é uma polícia para a sociedade, e não uma polícia para as elites governantes. É preciso que a gente faça com que o policial se perceba enquanto povo, enquanto trabalhador, e as esquerdas têm tido dificuldade nisso. A esquerda no poder não conseguiu atender as pautas dos policiais, especialmente das bases. As pessoas não sabem, mas 80% dos policiais são a favor da desmilitarização. Os oficiais são contra, a cúpula da polícia é contra, mas a base é a favor. A esquerda no poder nunca encampou essa pauta, os policiais cobram a chamada carreira única. É uma característica brasileira o fato de você fazer um concurso e não conseguir chegar ao topo, que é ocupado pelos delegados, pelos oficiais, pelos coronéis. O normal seria que na instituição pública os melhores chegassem ao topo. No Brasil não tem isso. Existe uma luta pela carreira única que a esquerda não soube acompanhar, implantar isso, e houve também o que a gente chama de ciclo completo, que é a mesma instituição que está na rua ter a prerrogativa de fazer a investigação.

Em relação às pautas mais dominadas pelo discurso da direita, como a questão do Código de Processo Penal, de penas mais duras, a esquerda também falhou em não discutir esses pontos?

Sim. E a discussão foi dominada pela direita. Esse é um dos motivos de eu escolher o Psol. A sociedade tem uma impressão de que com a criação de mais presídios – e todos os pré-candidatos ao Senado têm essa mesma visão, inclusive do PT –, a sociedade tem impressão que vamos resolver aprisionando mais e criando mais presídios. Aí estaremos numa sociedade melhor. O que me levou a escolher o Psol é justamente o contrário, não fazemos parte de uma esquerda punitivista, que acha que o aprisionamento vai resolver. O presídio no Brasil não é uma solução para os problemas. O presídio no Brasil faz parte do problema, majora e amplia o problema. Ele não é só uma escola, é uma agência de empregos. Vinte por cento dos presos cometeram furtos, crimes patrimoniais sem violência. Setenta por cento das mulheres presas comercializaram uma substância que foi colocada na ilicitude de maneira aleatória e política. Então 70% das mulheres são traficantes. É uma moça de 19 anos que foi presa na rodovia, que tem um filho de cinco anos e que comercializou um pacote de maconha. E a gente fala que é traficante e joga essa mulher por dez anos na cadeia. Retira o direito dela de ser mãe, retira o direito do filho de ter uma mãe, que é uma das coisas mais importantes da vida, e acha que estamos construindo uma sociedade melhor.

Foto: Mônica Salvador

O sr. fala em mudar o foco da discussão sobre Segurança Pública. As questões sociais são importantes nesse debate?

Sim. Quando a gente vai estudar Segurança Pública, analisamos os índices de mortalidade dos países. O Brasil tem uma das taxas de mortalidade mais altas do mundo. Em números absolutos, nenhum país mata mais que o Brasil. Em números relativos, a gente está sempre entre os dez nas pesquisas mundiais. E os estudiosos ficam tentando entender porque o Brasil é assim, vamos fazer diferente. E quando vamos analisar as taxas de outros países, percebemos que a desigualdade social está completamente ligada aos índices de violência. Países menos desiguais são os menos violentos. É preciso reduzir a desigualdade. Hoje percebemos que houve um abandono da juventude. A criminalidade está muito ligada à juventude em todos os países, mas houve um abandono. Não há políticas públicas sérias para os jovens em Goiânia, nem em níveis estadual e federal. Não há políticas públicas contundentes que deem conta das demandas novas da juventude. O que o jovem quer é wifi nas praças, pista de skate, grafite. São novas demandas, e faltam alternativas. Todos os candidatos que você entrevistar vão falar isso. Mas, de fato, a gente precisa construir uma estrutura política que dê conta disso, porque os jovens são cooptados pelo chamado tráfico, justamente por não terem outra oportunidade.

“Eu passei por projetos sociais, passei quase fome. Isso faz uma diferença. É o meu diferencial”

Se todos os candidatos têm esse discurso, qual o seu diferencial?

Primeiro, sou um jovem, venho da pobreza. Um candidato que passou por essas necessidades tem um diferencial grande. Minha mãe é merendeira, tenho seis irmãos, meu padrasto, que me criou, é pedreiro. Eu passei por projetos sociais, quase passei fome. Isso faz uma diferença. Eu só mudei de vida mesmo quando passei na PM. Foi quando consegui me estruturar,  aos 19 anos. Venho dessa realidade. Segundo, venho de um partido que luta por isso. Basta ver os votos dos nossos seis honrosos deputados federais. São só seis, mas que fazem muito barulho. Não é demagogia estar no Psol. Jean Wyllys, Chico, Freixo, Ivan Valente… não há ninguém lá falando uma coisa e fazendo diferente na vida pessoal.

É por isso que o partido não quis participar da reunião proposta pelo PT, da Frente das Esquerdas?

Foto: Mônica Salvador

Na verdade, o Psol nunca participou de nenhuma reunião com o PT nem este ano, nem em outro. E nem vai participar, se depender de mim e do grupo que faço parte. A gente reconhece todos os avanços do PT. Reconhecemos, de fato, o PT fez um governo que tem qualidades muito boas. Isso deve ser reconhecido. Os caras criaram quantos IF’s [Institutos Federais]. É tanta coisa bacana, o Samu, a CGU [Controladoria Geral da União], Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida. Nisso a gente concorda. Entretanto, existe outro ponto que a gente discorda radicalmente, do fisiologismo, de algumas alianças. Não vamos nos aliar com PT para o PT se aliar com – não vou por todos os MDB nesse cenário –, mas com a parte do MDB que tem Eduardo Cunha, Renan Calheiros. Não dá, entendeu? A gente tem uma paciência revolucionária. É saber que vamos crescer de uma maneira não tão rápida. Queremos crescer mais e limpos. E é um desafio ser da era pós-PT, se a gente pode falar isso. Não vamos nos aliar ao PT, como nunca nos aliamos. Não teve isso no cenário nacional nem no estadual.

Vocês foram procurados?

Sempre somos. Não pela Katia Maria, mas várias lideranças. E não é uma coisa de agora também não. Entretanto, a chapa vai ser do Psol. O Psol sempre lançou candidatos próprios, Luiz Heleno, Luciana Genro.  Em Goiás sempre teve também.

A princípio o sr. era pré-candidato a governador neste pleito. Ficou alguma mágoa pelo partido ter escolhido Weslei Garcia mais uma vez?

De forma alguma. Primeiro que sou novo no partido, são três anos no partido. Respeito a construção do Weslei. De fato há uma construção. O Psol Goiás tem 25 diretórios no interior, eu não estava na maior parte da construção desses diretórios, quem estava era Weslei. Ele ajudou a fundar o partido em 2004. Respeito essa construção. Não houve prévias de todo mundo votar. Não teve isso. O que teve foi uma reunião do diretório no dia 22 de abril, essa reunião do diretório tem 17 delegados, que foram eleitos no Congresso do Psol estadual no ano passado. O grupo que me apoia teve sete votos e o grupo que apoia Weslei, dez. Então, essa decisão expressa as forças construídas dentro do partido. Se fosse uma visão mais pragmática, eu tenho mais visibilidade que Weslei. Mas não foi essa a visão e respeito totalmente a escolha.

O partido está preparando o plano de governo, como está nesse momento?

Uma coisa também que me fez escolher o Psol é que nele há muitos encontros e muitas brigas também, muitas formações. A gente discute o tempo todo o plano de governo. Isso aqui [e mostra o volume de papel] vem de discussões do nosso governo. O plano de governo é discutido continuamente.

E já tem uma data para apresentação?

Ainda não.

O sr. está viajando o Estado?

Viajo o Estado, mas essa viagem faz parte da minha militância de vida. Dou aula no interior, faço projetos sociais no interior. Rodo o interior porque isso faz parte da minha vida. Ontem [quarta-feira], eu estava em Brasília. Na semana que vem estarei em Morrinhos.

E o que o sr. tem notado?

A questão energética, a prestação de serviço da Enel piorou, ficou mais caro. Com relação à Saneago, o governo de Goiás já começa a fazer movimentações para privatizaá-la A Saneago, hoje, é forma por 75% de capital do Estado e 25% de fundo de participação do município. É um modelo muito bonito esse fundo de participação dos municípios. Os municípios mais pobres acabam sendo ajudados pelos mais ricos. É um modelo cooperativista. E o estado de Goiás quer vender 25% desses 75% deles. Então, existe um cenário de venda, porque existe um olho gordo internacional em cima das riquezas brasileiras, que se expressam por meio dessas empresas públicas.

O sr. vai fazer crowdfunding?

Com certeza. Tomara que a gente seja ajudado por todas as forças progressista do Estado. Temos em Goiás R$ 150 mil para gastar com as candidaturas do Psol, nessa nova verba que foi aprovada em 2017. Tem o Fundo Partidário que é aquele outro mais antigo. Então, é pouco para todas as candidaturas, governador, senador, deputado federal, deputado estadual. De fato, a gente percebe que é um partido pobre. Então, o crowdfunding é uma tecnologia muito importante. A gente quer utilizar.

O partido pretende lançar quantos deputados?

Não há uma previsão. Realmente não sei, mas pela leitura que faço, temos em torno de 30, sem contar o PCB, mais 30 e poucos deputados estaduais, 20 e poucos deputados federais e os candidatos a senador.

Dentro dos adversários ao Senado, algum se diferencia de outro ou o sr. vê todos muito parecidos?

Para o Senado, Marconi Perillo e Lúcia Vânia vem de uma origem muito parecida, as bases políticas são bastante parecidas, ligadas às oligarquias que governam o estado de Goiás há muito tempo. Demóstenes, com todo respeito à figura pessoal e à de procurador, mas acho uma vergonha para o estado de Goiás eleger Demóstenes. Ele não foi inocentado pelo STF [Supremo Tribunal Federal]. Isso tem que ficar muito claro. O STF considerou que as provas eram inválidas, invalidou uma operação. É uma vergonha para o povo goiano, que fala em mudança, votar em alguém que comprovadamente é ligado ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. O Kajuru, eu acredito que tem características boas, é importante pessoas que denunciam. Mas o Kajuru tem irresponsabilidade em vários temas.

Há quem defenda que a esquerda tem que fazer união em cima de uma candidatura, talvez do Ciro Gomes, e ser pragmática. O sr. concorda?

Acredito que há espaços para múltiplas ideologias em nosso país. Esse espaço tem que continuar existindo. Não somos a favor de aliança com Ciro Gomes. Ciro Gomes tem suas qualidades, é um dos políticos do cenário nacional que mais entende de economia e a gente tem que respeitar isso. Concordando ou não com o entendimento dele. Mas o Psol do Ceará tem denúncias graves sobre a família do Ciro Gomes e do próprio Ciro, enquanto coronelistas, perseguidores, pessoas que não produzem, de fato, na governança do Estado aquilo que pregam na teoria. Mas não é só por isso. Nós do Psol não nos aliaremos porque acreditamos que é importante, no espectro político, o nosso ponto de vista ideológico.

Foto: Mônica Salvador

O eleitor tem se mostrado bastante decepcionado com a política ultimamente. Como trazê-lo de volta para a discussão?

Essa decepção com a política é extremamente perigosa. Nós sabemos disso. A decepção com a política leva a acreditar em uma não política. E essa não política poderia passar por algum tipo de intervenção, como a intervenção militar. Isso é terrível, é o pior dos mundos. É preciso fazer as pessoas voltarem a acreditar na política.

Ainda nesse cenário, a cultura do ódio dificulta uma campanha com o seu perfil?

Dificulta. No entanto, estou acostumado com ódio. Fui criado  em um cenário de ódio. Nasci dentro do ódio, eu fui criado em sala de aula discutindo todos esses temas com policiais, eu já dei aula na Rotam, na PM eu dou aula. Então, o ódio não vai me convencer a ser odioso. Uma das ferramentas para conseguir conquistas mentes e corações é a metodologia do afego. Não estou dizendo que não perco as estribeiras de vez em quando. Mas você precisa conseguir dialogar com a sociedade.

“Não houve prévias. O que teve foi uma reunião do diretório e o grupo que me apoia teve sete votos. O que apoia Weslei teve dez”

 

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