A vingativa classe média

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Marcos Marinho

Marcos Marinho Pesquisador e professor em Comunicação Política Foto: Internet

 

Recentemente assistimos a uma das mais poderosas manifestações classistas no Brasil nos últimos anos: a paralisação dos caminhoneiros. Esta paralisação foi poderosa tanto no sentido de impactar diretamente o país em níveis social, econômico e político, como ao mexer com o contexto já desequilibrado do ano eleitoral.

Infligindo novas derrotas ao, já em frangalhos, governo de Michel Temer, a paralisação dos profissionais de transporte de cargas, num aparente misto de “greve” e locaute, ocupou estradas e redes sociais digitais com uma fúria que há muito tempo não se via no país. Apesar das tentativas de comparação com as manifestações sociais de 2013, o que os caminhoneiros fizeram foi bastante além, conseguindo pressionar o governo a agir de modo impensado, atabalhoado e ineficaz. Mais uma vez, Temer e sua farândola erraram no timing, nas ações e no posicionamento perante os demandantes, o mercado e a opinião pública.

Trago neste texto uma reflexão que, acredito, ficará bastante mais relevante com o aproximar das urnas: o desejo de vingança dos eleitores. Movidos por um ressentimento que foi alimentado pelos discursos de populistas que se sucedem há décadas na luta pelo poder político, com ênfase para os períodos eleitorais, os brasileiros, a meu ver, decidirão seus votos em 2018 tendo como importante filtro a raiva que sentem por tudo e todos que, em seu julgamento, os estão fazendo sofrer.

Destaco da massa eleitora a classe média, um grupo social que é constantemente configurado e reconfigurado a partir de dados estatísticos que atendem aos interesses de grupos de poder. De aparência amorfa e comportamento mimético, este grupo de pessoas que, de acordo com definições questionáveis, compõem o extrato central do atual losango de classes brasileiro, têm um papel crucial na estrutura do país.

“A classe média se nega a debater a equalização e o ganho coletivo. (…) Não perceberam que a única hipótese de terem um futuro melhor é se ele for melhor para todos.”

A classe média brasileira funciona como um amortecedor social. Situada entre os polos condensadores de sentimentos poderosos e consolidados, qual  seja a revolta da classe baixa e o medo da classe alta, reúne uma “maioria” distribuída entre as gradações habilmente desenhadas para oferecer uma certa noção de mobilidade.

São movimentos de identificação desidentificação que evitam o endurecimento do sistema e, com isso, sua ruína. Ela expande-se em momentos onde a sensação de conquistas e felicidade contagia seus membros e retrai-se nas fases onde a escassez e a desesperança lhe tomam de assalto.

Empurrada em sentido oposto pelos de cima e pelos de baixo, a classe média vive no não-lugar, caracterizada pela ausência de coesão, sem identificar as pautas mobilizadoras que a tirariam do exercício constante de acomodação. Decantada em várias camadas com desejos e aspirações diversos, tolerâncias e intolerâncias flexíveis, a classe média atua para impedir as rupturas que se fazem necessárias para a transformação do sistema social brasileiro. Por suas características, torna-se impossível de ser cooptada em seu todo, impedindo um sentimento de unidade.

Vivendo de generalizações convenientes que oferecem níveis de aglutinação e atomização insuficientes para despoletar algum movimento massivo em qualquer direção, a “entidade” classe média segue amortecendo o país, dando conforto para os que se deitam sobre ela, e evitando a explosão dos ódios e desespero dos que sucumbem embaixo dela.

No caso específico da paralisação dos caminhoneiros, sobre a qual iniciamos este texto, pude  perceber a manifestação do ressentimento aleatório das pessoas agindo apartado de qualquer senso crítico e disposto a apoiar qualquer coisa que, em seu entender, infligisse perdas e sofrimento ao governo, aos políticos e a todos que, mesmo sem um configuração clara e coerente, são alvos de seu ódio: comunistas, PTistas, professores de história, intelectuais, e todo grupo que perfile no painel de culpados por sua infelicidade.

As medidas adotadas pelo governo impactarão diretamente na classe média, mas isso aparentemente não foi relevado quando das várias mensagens de apoio nas mídias sociais. Restou- me claro que, em cada frase, hashtag e bandeira exposta, estava incandescente não um sentimento empático e solidário pelas figuras dos caminhoneiros, que sofrem com condições péssimas de trabalho e baixa remuneração – isso sempre foi assim e a classe média nunca demonstrou se importar, principalmente quando percebia que para contribuir com os caminhoneiros acabaria pagando mais pelos fretes. Ali havia, e ainda há, o rancor, o ressentimento e a raiva contra um sistema que está longe de ser compreendido, mas que, em seu entendimento, é culpado por afastar essas pessoas do sonho de pertencer ao andar de cima. O mais importante de repensarmos o comportamento da classe média brasileira não é o desejo mim ético de viver a vida dos ricos e famosos, em certo nível é legítimo o sonho de mais conforto e prazer, mas o fato de o custo da realização deste sonho ser a precarização da vida de outros. Conseguir a manutenção do status social à custa da depreciação da mão de obra alheia, da redução de direitos dos que fazem do esforço cotidiano, físico e intelectual, a manutenção do sustento de suas famílias (e, por que não, de seus sonhos) é cruel.

Em sua dificuldade de se perceber enquanto uma classe que está apartada da riqueza, concentrada há séculos em alguns sobrenomes, e que não tolera a ideia de ser parte da base estrutural que suporta o país, a classe média se nega a debater a equalização e o ganho coletivo. Envenenada com slogans individualistas e mitos do self made man americano e dos empreendedores de palco que enriquecem ao vomitar frases de efeito, esta classe social é corporificada por trabalhadores, uns com rótulo de empregado, outros de empresário (micro e pequenos), que não perceberam que a única hipótese de terem um futuro melhor é se ele for melhor para todos.

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