Artigo | O moralista

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Um dos enigmas da pós-modernidade é a manutenção de processos medievais de controle social. Dentre as formas de controle está o chamado moralismo. Moralista é um ser anfíbio que vive em dois mundos.

Consagra em sua existência o antagonismo, a vida dupla, a contradição entre o que faz em discurso e o que vivencia na prática.

Para ilustrar posso falar de vários personagens da literatura universal:

Quem não lembra da viúva Perpétua, personagem do romance de Jorge Amado, ‘Tieta’, ou do personagem do rei Dom João V, na obra de José Saramago, ‘Memorial do Convento’? Personagens que faziam todo patrulhamento ideológico da moral e bons costumes, dizendo o que é lícito ou não para uma digna vida social. Pompa, discursos efusivos, ideias forjadas e distribuídas. Mas nos bastidores…

Todavia já na literatura é denunciado o outro lado dos moralistas… Perpétua com sua Caixinha de obscenidades… O rei D. João mantendo como uma de suas principais amantes Madre Paula, denunciando um ciclo pornográfico.

Atuando como analista na prática da psicoterapia vi vários casos de pessoas que sofreram na mão de moralistas. Moralista que apronta todas e que tenta se esconder na fachada de boa pessoa, para isto usando de aparência, poder, de rede de intrigas, de manipulação, de retórica e da violência para manutenção de tais fins.

Vem daí o discurso efusivo dos moralistas. Seu grito denuncia suas próprias falhas de caráter. ”Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” é o seu principal lema. É interessante a percepção que este tipo de pessoa hoje é comum em nossa sociedade, nos mostrando uma base da violência social existente pela intolerância.

Moralistas normalmente são seres egoístas, rabugentos, que adoram a vida proibida e que a frequentam na surdina, na calada da noite, nos bastidores. E usam de violência, de coerção, para subjugarem seus inferiores: família, funcionários, amigos. Muitos são sovinas, como D. Salvador, personagem do livro ‘A Cabana’, de Blasco Ibanez, tendo o sadismo em seu repertório de vida. Assim, além de agressivos os moralistas tendem a projetar em terceiros o mal que vivenciam no mundo. Observam e condenam o mal que eles mesmos criam. É a história do cheirador de cocaína que, tendo como amigos traficantes, fala e discursa sobre a moral e os bons costumes, a preservação da família. Ou o inquieto homofóbico que de madrugada frequenta a rua dos travestis buscando ser sodomizado.

Hoje em nossa sociedade, o moralismo é perpetuado nas religiões, em nossa política e na vida pública, fazendo parte dos discursos políticos que apregoam a moralidade, a família, a igualdade social e que, na prática, induzem nossa população ao endividamento e à eterna espera de mudanças sociais que não vão ocorrer.

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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