Entrevista | “A população não aguenta mais esse grupo político há 20 anos no poder”

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Foto: Divulgação

Vassil Oliveira

Prefeito de Formosa, Ernesto Roller, é um dos líderes da dissidência do MDB que rompeu com o pré-candidato a governador do partido, Daniel Vilela, para apoiar outro nome, Ronaldo Caiado, do DEM. Nesta entrevista, Ernesto fala sobre os motivos da guerra interna, os possíveis desdobramentos e as chances de Caiado.

Tribuna do Planalto: Ronaldo Caiado está estagnado nas pesquisas? Ele tem um teto para crescer, de 40% de intenções de voto?

Ernesto Roller: Não existe estagnação nas pesquisas, pelo contrário. O que existe é uma liderança consolidada. O teto de todo candidato é, sem dúvida, a vitória. É com esse horizonte que trabalhamos. Isso (o teto de 40%) é um discurso plantado pela oposição, que não consegue reagir nas pesquisas, não é? Porque não consegue chegar ao eleitor com a sua proposta, e aí cria essa ideia de que o candidato que está, em termos de votos válidos, batendo a casa de 60%, teria problemas para crescimento. Isso não nos preocupa.

Qual a melhor estratégia para Caiado: a polarização com José Eliton?

A melhor estratégia é trabalho junto ao eleitorado, mas entendo que polarizar com quem está lá embaixo não é a solução para nenhuma candidatura. O fundamental nessa eleição é o candidato se mostrar ao eleitor com as suas propostas, com a sua história e com as suas realizações, a história de vida. No momento em que o país passa por uma verdadeira descrença da população com relação aos políticos, aquele que detém honradez, resultados eficientes em sua vida pública e muita seriedade certamente tem nisso a sua melhor estratégia.

Todos discursam a favor e enfatizando a necessidade da união das oposições. Por que a teoria não acontece na prática?

Todos nós sabemos que a oposição unida sempre torna o processo mais fácil, isso é histórico. Mas na verdade isso não acontece porque um dos candidatos sequer quer dialogar, não pretende dialogar, não abre espaço para o diálogo e coloca-se como candidato a qualquer custo e a qualquer preço.

“A dissidência no MDB, o sentimento no MDB pró-Caiado, é muito maior do que aquele que aparece”

A dissidência não tensionou mais a relação e acabou inviabilizando de vez o diálogo entre Caiado e Daniel?

Entendo que não. Eu acho que a dissidência, pelo contrário, promove a aceleração de um processo de definição, que é aquilo que todos nós desejamos. Conviver na democracia é respeitar a opinião contrária. O que acontece é que há um grupo de pessoas que não entende que no ambiente partidário você pode e deve conviver com opiniões contrárias e que a maioria decide. Agora, nós do MDB que anunciamos apoio a Ronaldo Caiado fizemos por entender que, como não havia diálogo, como as portas estavam fechadas para o diálogo, devíamos tomar esse posicionamento. Mas não acredito que o tensionamento é por isso. O tensionamento é em virtude de que o candidato do grupo dos Vilela não consegue decolar nas pesquisas, não consegue emplacar uma proposta junto à população e, com isso, torna muito difícil o diálogo na medida em que ele culpa todos nós por isso.

Foto: Divulgação

Qual o tamanho da dissidência no MDB a favor de Caiado?

Não é limitada a um grupo? O número de prefeitos era de 5 e parece não ter aumentado, por exemplo. O que posso dizer é o seguinte: mais do que prefeitos e detentores de mandato, a dissidência no MDB, o sentimento no MDB pró-Caiado, é muito maior do que aquele que aparece. É claro que as pessoas estão aguardando o momento certo porque sofrem ameaças. Se com prefeitos como Adib Elias (Catalão), Paulo do Vale (Rio Verde), Renato de Castro (Goianésia), Fausto Mariano (Turvânia), prefeitos de cidades importantes… Se com prefeitos a arbitrariedade está sendo cometida no sentido de prejudicá-los para fazer valer a vontade do presidente do partido, imagine com os outros. Então, as pessoas estão aguardando. Estamos trabalhando fortemente não para aumentar a dissidência ou trabalhar com números de dissidência. Não buscamos nesse aspecto uma estatística interna do partido. Buscamos a vitória de uma ideia, a ideia de uma mudança importante que tem que acontecer no Estado de Goiás, com a eleição de Ronaldo Caiado.

Não há mais diálogo com Daniel Vilela?

Nem possibilidade? Quem convive na vida pública tem que estar sempre aberto ao diálogo, sempre. É claro que há um tempo para as coisas, até para o diálogo há um tempo. Não podemos ficar durante muito tempo a esperar a boa vontade, e esse processo não pode ser definido lá nos 45 minutos do segundo tempo. Mas há sempre, sim, oportunidade para o diálogo com forças políticas que queiram se somar ao projeto de mudança dos rumos político-administrativos do nosso Estado.

O nível de tensão, que parece aumentar a cada dia, não inviabiliza uma possível aliança entre Daniel e Caiado no caso de segundo turno em que apenas um avance?

É sempre uma possibilidade, né, que as rusgas do primeiro turno sejam elementos a se colocar na mesa no momento de um segundo turno. Mas eu imagino que (Daniel e Caiado) são homens públicos que devem pautar a sua trajetória pelo interesse público e pelo interesse do povo do Estado de Goiás. Nenhum dos dois têm ambiente em um segundo turno para apoiar um candidato da base do atual governo, combatido pelos dois.

Não falta mais bombeiro nessa relação? Não tem incendiário demais?

Na política existem aqueles que são mais afirmativos na defesa do seu interesse. Eu não colocaria no campo do bombeiro ou do incendiário. Eu colocaria o seguinte: tem que haver a disposição dos pré-candidatos. Ronaldo Caiado já disse da sua disposição ao diálogo. Tem que haver (disposição) do Daniel. Basta que haja essa disposição do Daniel para que eles sentem, conversem e possam chegar a um bom termo.

Não é contraditório apontar ‘proximidade’ de Daniel e Maguito com o governo – Marconi, em especial -, e até falar em possível acordo entre eles, para firmar Caiado como oposição verdadeira, sendo que Caiado sempre esteve do lado de Marconi?

Você coloca uma questão interessante. Primeiro, quem faz com que haja esse sentimento na política de Goiás com relação a um posicionamento dúbio, notadamente do pai do pré-candidato Daniel Vilela (o ex-governador Maguito Vilela), não somos nós, não é uma ou outra corrente política, é ele mesmo em suas entrevistas. Então, isso não é estratégia nossa, até porque não mandamos nele e não determinamos o que ele fala. Ele fala o que são sentimentos dele e vocês jornalistas assistiram as últimas declarações dele. Agora, com relação ao fato de Ronaldo Caiado e Marconi Perillo terem sido companheiros no passado, vejo isso como algo que não pode ser levado em consideração na medida em que esse mesmo MDB que hoje aí está ajudou a eleição de Ronaldo Caiado e contou com a ajuda de Ronaldo Caiado não só na campanha do Iris (a governador, em 2014), que não se sagrou vitoriosa, mas de diversos prefeitos do MDB. Então, se formos remontar ao passado, vamos ter que nos preocupar, por exemplo, em lembrar quando o pai do candidato pertencia à Arena. Isso não pode ser levado em consideração. O que é fato é que Ronaldo Caiado é um homem que tem posição clara e definida e está na oposição, será candidato pela oposição, sem nenhuma negociação com base de governo.

“Há muito o governo perdeu o rumo no que diz respeito à Segurança Pública do Estado”

Caso seja confirmado na convenção o nome de Daniel como candidato do MDB, o sr. segue a decisão ou continua apoiando Caiado?

Eu já anunciei a minha decisão, apoio Ronaldo Caiado, vou levar a minha postulação à convenção do MDB. Vamos levar e mostrar ao partido que essa é a melhor opção, primeiro, para a população goiana, e, segundo, para o próprio MDB, que não aguenta mais sucessivas derrotas na eleição estadual. Com relação ao que acontecer lá na convenção, vamos aguardar o resultado para ver o posicionamento que será adotado por aqueles que se sagrarem vencedores ou pelos que saírem da convenção como derrotados em sua proposta.

Qual o mote, ou discurso, para ganhar a eleição?

Ernesto Roller – Prefeito de Formosa (MDB).
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Em outra pergunta eu disse que o eleitor vai avaliar muito a história pessoal de cada candidato: ele não ter envolvimento com Lava Jato, não ter envolvimento com procedimentos errados, a sua história de realizações, a sua história de trabalho. Esse é um ponto. E o segundo ponto que verificamos é esse sentimento de mudança, porque é perceptível que o Estado não aguenta mais, a população não aguenta mais esse grupo político há quase 20 anos no poder, e com a perspectiva de apenas mudança de nome, mas mantendo a mesma filosofia. É preciso mudar isso e esse é o maior sentimento da população.

A eleição nacional terá peso na disputa em Goiás?

Não acredito que a eleição nacional terá tanto peso na disputa goiana. Nós sabemos que no Brasil, por mais que tenha um modelo contestado, e eu particularmente contesto esse modelo, há muito pouca vinculação da eleição estadual com a eleição nacional.

O governo de Michel Temer, que é do seu partido, é indefensável?

Inteiramente indefensável. Apresenta algumas conquistas no campo econômico. Aí nós tivemos uma melhor, e isso não se pode negar. Mas é um governo que enfrenta inúmeras dificuldades, é um governo que enfrenta problemas de natureza moral, notadamente que alcançam a figura do presidente da República, e isso torna muito difícil a ação política desse mesmo governo.

O entorno do DF será sempre a terra do NEM – nem Brasília, nem Goiás?

Essa é uma luta histórica de todos nós do Entorno do Distrito Federal. Queremos a presença cada vez maior do Estado de Goiás na região, não só no campo de realizações, de liberação de recursos, mas de uma política pública permanente de fortalecimento econômico. Essa região cresce, tem sua população crescendo em progressão geométrica, e enquanto isso as soluções econômicas crescem em progressão aritmética. O que precisamos é do trabalho forte de um governador que seja comprometido com o fomento da atividade econômica, que tenha resultado abrangente, com desenvolvimento também social e qualidade de vida para todos.

O Sr. foi secretário de Segurança. Como avalia a atual gestão na área, em Goiás?

Há muito este governo perdeu o controle, perdeu o rumo no que diz respeito à Segurança Pública no Estado, seja sob o aspecto de investimento, seja sob o aspecto até de moral de todas as corporações que trabalham na Segurança. Vejo que esse governo patinou durante seus quase oito anos de mandato na questão da Segurança Pública, deixando a população refém de uma violência cada vez mais crescente.

O dinheiro do Goiás na Frente, programa do governo do Estado, já chegou a Formosa?

Aqui em Formosa não fomos chamados nem para assinar o convênio. Houve a promessa de R$ 5 milhões, o município de Formosa tinha restrições com relação às certidões, entramos na Justiça, conseguimos ordem judicial que autorizasse a celebração de convênio para a transferência do recurso, e nada disso foi feito. Como disse, não fomos chamados sequer para assinar o convênio. É uma clara política de perseguição e, mais uma vez, apenas discurso, e Formosa é prejudicada. Por isso, o sentimento da população de Formosa também é de mudança, porque ela assiste há muitos anos um governo sempre prometer, sempre fazer festa na hora de prometer, mas esquecer que essa promessa tem que ser cumprida.

Prefeitos reclamam de crise. Em Formosa, a crise paralisou a administração?

É um ponto muito interessante. Temos muitas dificuldades em relação a essa crise e, mais ainda, o mais sério, é o endividamento público. Temos aqui um endividamento muito alto da prefeitura, que vem de prefeitos que no passado não recolheram os valores da Previdência, que não recolheram suas obrigações com a Receita Federal. Formosa vive um caos em virtude de todo esse passivo havido ao longo da sua história.

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