Os doutores da educação

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Professora Simone dá aula a Nicole na casa da estudante, impossibilitada de frequentar escola. / Fotos: Mônica Salvador

Maria José Rodrigues

Conheça o primoroso trabalho de professores da rede pública estadual que se dedicam a atender em casa os estudantes impedidos, por motivos de saúde, de frequentar a escola

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Nicole tem 10 anos, está no 5º ano do Ensino Fundamental e mora no Jardim Maria Inês, em Aparecida de Goiânia. Murillo, 16, faz o 2º ano do Ensino Médio e reside no Parque das Paineiras, em Goiânia. O ponto que une as histórias de vida dos dois é que eles são alunos da rede pública estadual e não conseguem frequentar regularmente as aulas. Por isso, necessitam de atendimento educacional domiciliar.

De idades, bairros e séries diferentes, Nicole Lourenço Rios e Murillo Henrique Gonçalves Elias também têm motivos distintos que os impedem de ter uma vida escolar normal. Ela foi diagnosticada, ainda bebê, com uma doença crônica de natureza genética. Já o rapaz apresentou, há cerca de um ano e meio, sintomas de transtorno do pânico.

“Nic sempre teve a imunidade muito comprometida e por isso adoecia com facilidade. Frequentar a escola, com tantas crianças, era correr riscos. E depois que ela passou a usar o cateter ficou ainda mais arriscado”, explica a mãe de Nicole, Poliana Rios.

Ciliana Valéria Gonçalves, mãe de Murillo Henrique, lembra que os primeiros sinais da doença no filho surgiram de forma inesperada. Ele começou demonstrando medo de ir à escola, mas o quadro evoluiu rapidamente e chegou ao ponto de o adolescente passar mal só de falar na possibilidade de voltar ao colégio.

Desde 2016, Murillo não frequenta a escola e recebe, em casa, o atendimento pedagógico necessário com as visitas da professora Viviane Andrade.

“Não tenho palavras para agradecer o carinho e atenção que ela dá a ele”, diz ela.

Ciliana reconhece a importância do trabalho realizado pelo Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar (NAEH) e destaca a necessidade de maior divulgação do projeto. Na sua opinião, as aulas em casa têm ajudado de forma magnífica o desenvolvimento de Murillo, que faz uso de medicamentos, conta com acompanhamento médico e não tem previsão de retornar à escola.

Nicole Rios: rotina entre aparelhos médicos e cadernos / Fotos: Mônica Salvador

“Todo mundo precisava saber dessa iniciativa, pois muitos precisam e não sabem que podem buscar esse tipo de ajuda”.

A mãe de Nicole enxerga no atendimento pedagógico domiciliar um meio de inclusão essencial para os portadores de patologias impedidos de ter uma rotina escolar.

“É uma esperança para que todos possam dispor das mesmas condições e oportunidades na vida”, acrescenta.

Poliana conhece o trabalho do NAEH bem antes da assistência oferecida hoje a Nicole. O filho João, que recebeu o mesmo diagnóstico da irmã e faleceu aos 8 anos de idade, também foi atendido em casa pelas professoras do projeto. As aulas para a garota são ofertadas três vezes por semana, das 7h30 às 11 horas.

Murillo Henrique: desde 2016 tem aulas somente em casa / Fotos: Mônica Salvador

A responsável por esse trabalho é a pedagoga Simone de Andrade, autora de uma monografia apresentada em 2015 com o tema “Pedagogia Hospitalar”. A professora afirma que, embora haja um planejamento prévio, é impossível prever como será a aula para um estudante acometido de alguma doença.

“A criança está em casa, mas é como se estivesse internada no hospital. Então a imprevisibilidade faz parte do nosso cotidiano. E é normal se, às vezes, tivermos que interromper os estudos por conta das dores, náuseas, sonolência, indisposição ou outros fatores”, revela.

“Quando me casar, quero deixar tudo pronto em casa”

No dia em que a equipe de reportagem do ESCOLA foi à residência da família para acompanhar uma das aulas, Nicole reclamava de dores e precisou ser medicada. Quinze minutos depois já estava melhor e de volta às tarefas. Mesmo tendo bom desempenho em português, é a matemática que mais atrai a menina.

Sob os cuidados da mãe, enfermeira Monisleia e professora / Fotos: Mônica Salvador

“Nic tem ótima concentração e me impressiona pela agilidade em fazer cálculos mentais”, ressalta a professora.

Simone afirma que, fora o problema de saúde, sua aluna é uma criança com atitude normal para a idade. Frisa também que o fato da menina nunca reclamar por estar privada de sair de casa e de conviver com amiguinhos da sua faixa etária é algo que a impressiona muito.

“Isso só me faz admirá-la cada vez mais e ter um carinho ainda maior”, diz.

O comportamento de Nicole demonstra que não há nenhum exagero por parte de sua professora. Ligada o tempo todo a um cateter venoso central, acoplado ao corpo desde 2014 e por onde recebe os medicamentos e a alimentação, a garota não demonstra incômodo nenhum em ter que levar junto com ela, por onde for, o pedestal de soro.

Poliana, a mãe, é formada em enfermagem e web designer, mas decidiu deixar o mercado de trabalho para se dedicar à filha em tempo integral. Ao lado dela e do pai, Roger, duas enfermeiras se revezam dia e noite, já que Nicole precisa dormir ligada a um aparelho de respiração artificial não invasivo (Bipap), acoplado a um balão de oxigênio.

Além das aulas em domicílio, a rotina da menina inclui três sessões semanais de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Quando está em casa, Nicole tem como companheiro inseparável o cachorrinho Francisco. Da raça shitsu, ele tem dois anos e foi um presente no aniversário quando sua dona fez 9 anos.

Medicada, Nicole aguarda a dor passar para voltar à aula / Fotos: Mônica Salvador

Sempre atento, ele a acompanha até o quarto, assim que termina a aula, para buscar uma enorme caixa de brinquedos, onde estão dezenas de apetrechos de cozinha: pratos, panelas, talheres, copos, canecas. Um pouco maior, junto com as miniaturas coloridas, tem um fogão e um forno microondas. Estudo concluído, chegou a hora de Nicole soltar a imaginação e sonhar com o curso de Gastronomia que pretende fazer quando se tornar adulta.

“Quando me casar, quero deixar tudo pronto em casa para que meu marido não tenha dificuldades se for preciso preparar o almoço ou jantar”, justifica.

“Sei que Deus me enviou ali para ajudar de alguma forma”

A professora Simone de Andrade integra a equipe de profissionais do Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar da Seduce desde março deste ano. Formada em Pedagogia e Letras, ela ressalta que, em casa ou no hospital, é preciso respeitar o ritmo do aluno, ter calma e persistência, pois se trata de um trabalho pedagógico diferenciado.

Simone comenta que, apesar de ter conhecido a família de Nicole somente há dois meses, se sente totalmente integrada ao universo de Poliana, Roger, Nicole e Francisco.

“Toda vez que chego na casa deles, sei que Deus me enviou ali para ajudar de alguma forma. Meu carinho por todos é enorme e nunca me esqueço de que ali está uma família que me abriu as portas de sua casa sem nem me conhecer direito”, comenta.

Poliana também reconhece que existe na relação com a professora uma reciprocidade de sentimentos.

“Nicole gosta muito da Simone e nós também. Ela é responsável, paciente, compreensiva, respeita os limites da minha filha e seu trabalho é pautado na amizade, confiança, amor e carinho”, diz.

Direito garantido

No Hospital das Clínicas, a profª Sebastiana trabalha o tema “Copa do Mundo”, sobre os continentes e os países envolvidos no torneio / Fotos: Mônica Salvador

O atendimento educacional hospitalar ou domiciliar é um direito previsto na legislação para toda e qualquer pessoa que esteja matriculada na rede pública de ensino e fique impedida, por questões de saúde, de frequentar regularmente as aulas. Pais e responsáveis podem fazer a solicitação, por meio da própria escola, ao Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar (NAEH), que integra a Gerência de Inclusão da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce).

Dados do NAEH mostram que hoje são realizados 363 atendimentos educacionais, sendo 181 mulheres e 182 homens. A grande maioria tem até 10 anos de idade. Desse total (363), 57 recebem a visita do professor em domicílio e 306 em instituições hospitalares de Goiânia e do interior.

Dos 57 estudantes cadastrados no atendimento pedagógico domiciliar, 27 são meninas e o restante, meninos. Já as Classes Hospitalares, que funcionam hoje em 10 instituições de saúde da Capital e do interior, atendem 154 mulheres e 152 homens. Em todo o Estado existem hoje 53 professores capacitados para exercer a função. A capacitação dos profissionais é feita pelo próprio NAEH.

 

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