Artigo | A Copa do Mundo, eleições e o vira-latismo de Nelson Rodrigues

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Celso Tracco

Há exatos 60 anos, o Brasil ganhava sua primeira Copa do Mundo, vencendo a Suécia, lá em Estocolmo, pelo placar de 5×2. Nelson Rodrigues, um célebre jornalista, dramaturgo e escritor, decretava que finalmente havíamos superado o complexo de “vira-lata”. Nelson era um crítico daqueles que julgavam que pela miscigenação, pelo calor dos trópicos, pela falta de disciplina natural da nossa cultura social, o brasileiro não servia para nada. Na visão de Nelson, o brasileiro tinha uma baixa autoestima, um complexo de “vira-lata”. Assim a Seleção já saiu desacreditada, vencer na Europa, jamais. Nós brasileiros, já entrávamos perdendo. Como é que um “escravo” podia vencer o “patrão”? Bem, nesses 60 anos vencemos outras 4 Copas e somos, até agora, o maior vencedor no futebol mundial. Parece que deixamos de ser “vira-latas”.

Mas em outro evento, muito mais importante, as eleições de outubro, já sabemos quem será o perdedor: o de sempre! O povo brasileiro. A frágil democracia brasileira vive seus piores momentos dos últimos 30 anos. Pelas últimas pesquisas mais de 30% dos eleitores estão indecisos, ou votarão em branco/nulo. (Mais de 50% dos brasileiros dizem que não se mobilizarão para a Seleção, o desencanto é geral). Existem cerca de 15 pré-candidatos, muitos completamente desconhecidos para o povo. Mas ganhe quem ganhar, dificilmente poderá governar o país, pois o partido, provavelmente, não fará maioria no Congresso e este, mesmo renovado, permanecerá fragmentado. Continuaremos com as negociatas de sempre tendo o presidente de comprar apoio. Com que dinheiro? Ora o de sempre, o chamado dinheiro público, aquele dos impostos, aquele que não vai para a educação, para a saúde, para a segurança, para a infraestrutura. Ou seja este povo, perdedor, continuará a ser massacrado pelo infame sistema político brasileiro.

Quando é que nós, o povo, iremos vencer nosso complexo de vira-lata? Quando entenderemos que os políticos eleitos, devem servir ao povo e não se servir dele? Quando iremos entender que, numa democracia, a verdadeira autoridade emana do povo e não do político eleito? Devemos olhar com muita atenção para o nosso campeonato mais importante: o campeonato da cidadania consciente, onde o vencedor deve ser o cidadão que deve ter uma vida mais justa e participativa. Nosso sistema político não joga para o povo, portanto, cabe ao povo vencer seu complexo de vira-lata e mudar esse time corrupto, anacrônico, ineficaz e despótico. Já passou da hora do povo brasileiro vencer, mas para isso, ele precisa aprender a jogar.

Celso Luiz Tracco é economista e autor do livro ‘Às Margens do Ipiranga – a esperança em sobreviver numa sociedade desigual’.

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