Diversidade | Outros olhos

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Foto: Mônica Salvador

Daniela Martins

Eles e elas fizeram suas escolhas na hora tratar de amor e sexo no trabalho

O preconceito vivido na adolescência deixou marcas que balizam as escolhas de L., 34 anos, no ambiente profissional. Formada em turismo, a estudante de pedagogia prefere não se identificar na reportagem nem falar de sua vida particular no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) em que trabalha como professora. Casada há três anos com uma pedagoga, com quem constrói uma história de amor há sete anos, L. mantém sua relação homoafetiva como um assunto para fora dos muros da unidade.

O CMEI fi ca na região periférica de Goiânia, e parte considerável dos moradores, funcionários e pais dos alunos é evangélica. “Onde o Estado não atua, a Igreja atua. Eles são pessoas de um discurso muito intolerante”, avalia a professora. São atendidas na unidade crianças de 1 a 5 anos, o que requer dos professores – como L. – não apenas o ensino de uma sala de aula comum, mas um cuidado próprio dessa idade em que os pequenos estão no processo de conhecer o mundo, ganhar autonomia, cuidar de seu próprio corpo, de receber estímulos.

Essa realidade torna mais delicada a situação de L. Ela explica que quando se trabalha com criança, o cuidado é redobrado porque há, historicamente, um preconceito social velado de se imaginar o homossexual como alguém desrespeitoso, promíscuo ou até pedófilo. “Fiquei com medo, não que na instituição tenha isso… existe é no mundo. Cresci vendo essa atmosfera negativa acerca do homossexual. É um processo histórico”, observa.

Jovem, L. se deparou com esse preconceito, esse ódio. “Tinha uns 16, 17 anos. Não havia nem beijado uma mulher, e pelo meu comportamento, meu jeito de vestir, começaram a falar que eu era lésbica. Meninas que eram minhas amigas, que andavam comigo, do nada nem olhavam mais na minha cara. Não queriam andar com uma lésbica para não sujar a reputação delas.” Pior ainda foi entrar na sala de aula e ver o quadro cheio do seu nome seguido por insultos do tipo “sapatão”.

“No meu caso, me falta coragem! É não querer nem passar pelo processo de aprovação, preconceito e rejeição. Falta querer provar que sou mulher, tenho relacionamento homoafetivo e sou uma pessoa legal, sim”, desabafa.

A professora conta que sempre foi muito careta. As experiências que acumulou em sua história a fi zeram optar por chegar ao mercado de trabalho e simplesmente não falar sobre quem é. “Pelo medo de não enxergarem que sou um ser humano, boa profissional. E de me julgarem diante do que sou, que é algo íntimo e só se refere a mim.”

Não só LGBTs perdem. As empresas são prejudicadas pelo preconceito que não combatem no ambiente de trabalho.

Difícil acesso ao mercado

Encontrar espaço no mercado de trabalho não é tarefa fácil para as Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBTs), principalmente para pessoas trans e travestis. Procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Goiás (MPT-GO), Tiago Raniere ressalta que, em regra, o mercado de trabalho acaba reproduzindo os estigmas presentes na sociedade. “O comportamento das empresas é o de não contratação. A discriminação ocorre, aprioristicamente, na fase pré-contratual, na seleção”, aponta.

“Amigas minhas ouviam que não era legal esse ‘tipo de gente com elas’. Eu percebia que pessoas que conviviam comigo também sofriam” –  Karla Ariella

Foto: Mônica Salvador

A cabeleireira Karla Ariella, 40, que o diga. Ela é trans e, apesar da sua vocação ser uma profissão em que, supõe-se, o preconceito seja menor e a inclusão maior, Karla encontrou dificuldades, viveu situações constrangedoras.

Depois de 20 anos trabalhando com duas amigas em um salão de cabeleireiros em Goiânia, teve vontade de respirar outros ares e se mudou para o Rio de Janeiro. Lá entrou também em um salão. “E houve resistência pelo fato de eu ser trans. Muitas vezes amigas minhas ouviam que não era legal esse ‘tipo de gente com elas’, que não era legal para a reputação do salão. Eu percebia que pessoas que conviviam comigo também sofriam.”

Precisou voltar para Goiânia, retornar ao salão que mantém com suas amigas. Ela considera que conseguir espaço é delicado. “Mesmo sendo em uma área que acolhe… entre aspas”, avalia. Mudar só é possível, diz, se abrir um negócio próprio.

Foto: Mônica Salvador

Não são apenas LGBTs que perdem. Empresas são prejudicadas pelo preconceito que não combatem no ambiente de trabalho. É o que defende Raniere. “A omissão na inclusão provoca desperdício de recursos, talentos e potencialidades humanas, com efeitos negativos na produtividade e competitividade das empresas e no desenvolvimento econômico da sociedade”, esclarece.

O caminho para promover a diversidade na relações de trabalho começa pelo fim da discriminação no momento da contratação. Para ele, a inclusão de pessoas travestis e transexuais no mundo do trabalho deve ser feita de forma integral, com a sensibilização de todos os setores por meio de campanhas e formação do quadro de funcionários e funcionárias. “É necessário garantir a proteção e o respeito em todas as fases do contrato de trabalho, bem como, garantir a permanência do vínculo e autoestima desse grupo de pessoas”, reforça Tiago Raniere.

Constrangimentos

Foto: Divulgação

“Ela me perguntou se eu realmente era gay. De início, o tom de voz e o sentido de inferioridade ao falar a palavra ‘gay’ me paralisaram, mas respondi ‘sou ser humano assim como você’.” Túlio Camelo

Gerente em uma franquia de fast food, Túlio Antônio Camelo, 30, passou por situações constrangedores no trabalho por ser gay. Para tentar driblar as dificuldades, chegou a criar um segundo perfil nas redes sociais. “Quis evitar esse olhar diferente sobre minha pessoa. Acabamos por desenvolver outra personalidade dentro de um contexto”, comenta.

Em sua empresa, a maioria da equipe é mulher. Uma delas já o deixou paralisado, sem ação. A situação, conta, foi tensa. “Ela me perguntou se eu realmente era gay. Sem muitas delongas: ‘você é gay’? De início, o tom de voz e o sentido de inferioridade ao falar a palavra ‘gay’ me paralisaram. Mas respondi ‘sou ser humano assim como você’.”

Ambientes de trabalho formados por homens podem ser igualmente embaraçador. “Lidar com grupos de homens falando sobre suas aventuras sexuais com mulheres, mexendo com mulheres e até conversando assuntos de futebol podem ser constrangedores a um rapaz homossexual”, relata. Na tentativa de driblar a situação, Túlio pesquisava sobre partidas de futebol, apesar de não gostar do esporte. “Sempre tive comigo essa questão, saber um pouco a ponto de desenvolver um assunto.”

Experiências de violência verbais e até de ameaças físicas, o gerente também tem para contar. Quando trabalhava em uma rede de cinema, se viu agredido por um cliente que ele teve de abordar por descumprir normas da própria empresa. Era seu trabalho. Túlio começou a ser chamado de ‘viadinho’. “Ele me agrediu verbalmente diante de outros clientes, mandou eu cortar ‘esse cabelo’, ‘ter cabelo de homem’”, lembra. Foi ainda ameaçado, o cliente disse que pegaria Túlio ‘lá fora’ e ‘daria uma surra para ensinar a ser homem’.

O medo de denunciar o homem por homofobia e ser novamente ameaçado fez Túlio não ir atrás de seus direitos. Ele explica que a denúncia pode aumentar, intensificar o ódio contra as pessoas ofendidas e discriminalizadas. “Falta estrutura que defenda realmente essa porcentagem de pessoas LGBTs”, lamenta.

Silêncio

Tiago Raniere: mercado reproduz estigmas sociais
Foto: Divulgação

De fato, poucos são os casos que se tornam denúncias formalizadas. “Não chegam muitas denúncias ao Ministério Público, acredito que por medo de ser expor mais uma vez, ou por falta de esclarecimento de onde denunciar”, aponta o procurador Tiago Ranieri. Ele reforça que é importante mudar essa realidade. “Quando se sentir discriminado ou sofrer assédio moral ou sexual no ambiente de trabalho, denuncie ao MPT”, orienta.

cie ao MPT”, orienta. As denúncias podem ser feitas pessoalmente nas unidades do Ministério Público do Trabalho em Goiás ou pelo site (www.prt18.mpt.mp.br)

Realizado no início de junho, em Goiânia, o II Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás (Digo), que teve o apoio do MPT-GO, levantou o debate sobre a realidade LGBT no mercado de trabalho com o tema “A empregabilidade LGBT+”.

Idealizador do Festival, o produtor audiovisual Cristiano Sousa diz que o tema foi escolhido a partir de reuniões realizadas com organizações não governamentais (ONGs), em que conheceu de perto a história de Rayanne Eduarda, uma trans que, demitida de um call center, voltou a se prostituir para sobreviver. “O incrível é que recebemos um público variado. Muitos feedbacks de pessoas não LGBTI que tiveram curiosidade de visitar e adoraram”, conta.

 

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