A estratégia do confronto

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EM ENTREVISTA À RÁDIO SAGRES 730, CAIADO MIROU JOSÉ ELITON E MARCONI PERILLO. AO DISCURSAR EM EVENTO, JOSÉ ELITON AFIRMOU QUE CAIADO PREJUDICA GOIÁS

Vassil Oliveira

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A semana começou com acirramento público de ânimos entre Lúcia Vânia (PSB) e Demóstenes Torres (DEM), na base governista. Terminou com o assunto voltando aos bastidores. Ela retomou a decisão de se afastar dos eventos públicos do governo, onde ele ocupa espaço largo. Ele apertou o pé em busca da candidatura ao Senado. A tensão vem de longe, e avançará pelo mês de julho, até as convenções, que terminam em 5 de agosto.

Ganhou relevância ao longo dos dias outra disputa, mais estratégia para ambos os lados, mais agressiva de lado a lado e mais decisiva para todos os goianos: José Eliton (PSDB) X Ronaldo Caiado (DEM). O clima é de radicalização. Quanto mais radicalizam, mais para escanteio fica o pré-candidato do MDB, Daniel Vilela (MDB). E menos espaço têm para crescer os outros nomes: Kátia Maria (PT), Weslei Garcia (Psol) e Edson Braz (Rede).

Estrategicamente, Eliton e Caiado buscam se firmar como os nomes que verdadeiramente vão decidir a eleição. Fazem a disputa que interessa. Elementar: quanto mais Daniel for visto pelo eleitor como carta fora do baralho, mais a disputa fica entre os dois. Enfrentar o emedebista em um eventual segundo turno não interessa nem ao tucano, nem ao democrata. E tem o fator máquina: o apoio dos emedebistas órfãos de candidatura competitiva.

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Para entender o peso dos últimos dias na campanha de Goiás, acompanhe a seguir a sequência dos acontecimentos – nada aleatórios. É nos seus movimentos pontuais que o jogo eleitoral se revela. Confi ra também os prováveis desdobramentos e imbricamentos de cada fato, com mais informações e motivações de bastidores. Na medida em que a Copa da Rússia caminha para o final, a eleição ganha novos rumos, e muito mais intensidade.

MOVIMENTO 1

Dia 20, o senador Ronaldo Caiado apresenta nas Comissões de Constituição e Justiça e Assuntos Econômicos do Senado requerimento de convocação do ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, e de convite ao presidente da Caixa, Nelson Antônio de Souza, para prestarem esclarecimentos sobre o empréstimo de R$ 510 milhões ao governo goiano.

A operação de crédito, entende, não cumpre requisitos mínimos estabelecidos em lei, como a nota de capacidade de pagamento definida pela União. Explica: Goiás tem nota C no ranking de capacidade de pagamento (CAPAG) do Tesouro Nacional, quando a exigência é que se tenha notas A ou B para a União autorizar esse tipo de operação.

“A conclusão óbvia é que a Caixa não pode mais emprestar recursos ao Estado de Goiás até que o ente restabeleça sua capacidade de endividamento.” Outra irregularidade anotada pelo senador é que a Caixa concedeu empréstimo recebendo como garantia receitas tributárias, no caso, cotas do Fundo de Participação dos Estados (FPE), o que seria proibido pela Constituição.

“Esse empréstimo é ilegal como já foi apontado pelo próprio Tribunal de Contas da União. Nós já sabemos que o governo de Goiás tem mantido uma gestão irresponsável, sem transparências que deixou as contas do Estado numa situação crítica. Mas, o governo federal precisa explicar como pode dar seguimento a um empréstimo diante de falta de condições mínimas legais para o Estado ter direito a esse tipo de operação”, argumenta Caiado.

Dia 25, a Associação Goiana dos Municípios (AGM) divulga Nota de Repúdio acusando Ronaldo Caiado de fazer “manobra eleitoreira” contra a liberação do empréstimo. “É lamentável a tentativa do senador Ronaldo Caiado (DEM) de inviabilizar a operação de crédito entre a Caixa e o Governo de Goiás, cuja receita será aplicada no desenvolvimento econômico e humano dos municípios goianos, dando sequência ao Programa Goiás na Frente, o maior conjunto de investimentos regionais na atualidade no Brasil”, diz a nota.

Dia 26, a Comissão de Assuntos Econômicos aprova o requerimento de Caiado. “É dever de um senador da República zelar pelas contas públicas do Estado que ele representa”, pondera. “No final de governo, a gestão atual vai deixar bloqueada cotas do Fundo de Participação dos Estados (FPE) sem o aval da União. E por outro lado, nos causa estranheza, e o próprio Tribunal de Contas do Estado fez orientação contrária, que no final de 2017 Marconi Perillo ampliou um contrato com a Caixa para cuidar da folha de pagamento dos funcionários do Estado sem licitação. A licitação deve ocorrer justamente para evitar que o Estado seja penalizado”, afirma.

No mesmo dia 26, o secretário de Estado da Fazenda, Manoel Xavier Ferreira Filho, reage: “Essa ação (de Caiado) é eleitoreira, só gera desinformação, e tem como único objetivo atrasar a chegada de benefícios programados pelo governador José Eliton para o Estado, adiando a execução de obras importantes para o desenvolvimento goiano”, diz. A contratação do financiamento, segundo ele, está ancorada em autorização da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), por meio do Programa de Ajuste Fiscal (PAF), que monitora periodicamente o equilíbrio financeiro do Estado. Ainda segundo ele, a STN permite que o Estado contraia financiamento de até R$ 677 milhões no triênio 2017/2019.

Dia 27, o presidente do PSDB de Goiás, deputado federal Giuseppe Vecci, coloca mais lenha no assunto. “Isso não me parece condizente com quem deseja ser governador, com quem deseja, certamente, o bem, o crescimento e o desenvolvimento do Estado. Isso é realmente uma visão política estreita e não corrobora novas práticas que a população espera dos políticos”, ataca. “Sinto que, mais uma vez, Caiado vai contra o crescimento do Estado, vai contra melhorar a qualidade de vida das pessoas em Goiás.”

No evento de lançamento do Centro Estadual de Atenção ao Diabetes do País (Cead), Kajuru e Marconi presentes, o governador José Eliton, que durante meses fez ou rebateu críticas de Caiado sempre sem citar o nome, vai direto ao ponto. E isso, depois de elogiar boa prática de parcerias de Goiânia e Aparecida, cidades administradas pelo oposicionista MDB, com o Estado na área de saúde.

Eliton: “Lamentavelmente alguns ainda estão presos no seu passado histórico, de coronelismo antigo, arcaico. Fiquei perplexo de observar ontem, um senador da República por Goiás… e por Goiás, porque, se fosse por outro Estado, eu até entenderia… mas um senador por Goiás trabalhar abertamente contra o Estado de Goiás. E nem teve a vergonha de disfarçar. Eu dou nome aos bois. O senhor senador Ronaldo Caiado foi ontem a Brasília questionar a operação de crédito de R$ 510 milhões que o governo está fazendo. E fazendo pra quê? Para construir rodovias, melhorar infraestrutura, construir equipamentos sociais e médicos como esse aqui que estamos inaugurando hoje. Que situação deplorável, essa.”

Dia 28, em entrevista à Rádio Sagres 730, o presidente da Agetop, agência estadual responsável pela execução das obras do governo, Jayme Rincón, sobe o tom. “Mais uma vez, o senador está prestando um desserviço ao Estado”, diz. Mais: “Toda vez que ele (Caiado) fala, a gente sabe que vem algo em desfavor do Estado de Goiás”. Segundo Rincón, Caiado tem “postura caricata”, com ação parlamentar “sempre em benefício próprio, no sentido de se promover, de se projetar”.

“O que ele está fazendo é uma atitude meramente político-eleitoreira, em desserviço ao Estado de Goiás”, atira Rincón. Outro tiro: “O senador Ronaldo Caiado nunca trouxe absolutamente nada para Goiás. Se ele, efetivamente, tivesse tido alguma ação em benefício do Estado, já teria apontado.” E outro: “Não tem nada concreto, inclusive, não digo de obras, mas de benefícios mesmo, de emendas.”

O presidente admite que obras do Estado estão paradas, porém, invertendo eventual cobrança, condiciona a conclusão delas ao empréstimo. “Esse financiamento está sendo obtido exatamente para conclusão dessas obras. Não vi o senador, em momento algum, criticar a contratação destas obras, a execução, as formas como elas foram licitadas.” E recorre à lógica: “A Caixa não emprestaria o dinheiro para quem não tem condições de pagar.” Citando folha de servidores e fornecedores, conclui: “O Estado continua cumprindo suas obrigações rigorosamente em dia.”

Na sexta-feira, 29, falando igualmente à Sagres 730, Caiado vai para o contra-ataque. Primeiro, pondera, com calma, que está ali para apresentar sua versão dos fatos. “Não estou aqui baixando o nível”, diz. No entanto, dá o seu recado, mirando em Jayme Rincón: “De forma alguma eu vim aqui polemizar com o Paulo Preto do Marconi (Perillo)”. Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, é apontado como operador financeiro do PSDB. Seu nome aparece em denúncias de desvios de verbas em São Paulo nos governos de Geraldo Alckmin, pré-candidato tucano à Presidência.

Caiado reitera seu entendimento de que o empréstimo é inconstitucional e aumenta o endividamento do Estado, já alto. Aprovar mais esse financiamento, afirma, é irresponsabilidade. E não poupa o banco. “A Caixa passou a ser uma instituição politiqueira”, afirma. Em mais uma resposta às declarações de que está impedindo a captação de recursos para conclusão de obras e novos investimentos no Estado, atira em José Eliton.

Citando que há cerca de 400 obras paradas em Goiás, o senador apresenta folha com um mapa. E fala: “Nós temos aqui uma rodovia que está asfaltada, que vai de Posse a cidade de Guarani. E depois de Guarani de Goiás nós temos aqui uma estrada de terra que vai até o parque estadual de Terra Ronca. Veja bem a prioridade do governo. Ao invés de continuar o asfalto de Guarani até a Terra Ronca, o governador fez uma rodovia paralela a esta que já existe por R$ 65 milhões e essa rodovia só passa na fazenda do governador. Onde é que está a condição de um governador de Estado que prioriza uma obra de interesse pessoal? E todas as ligações do Nordeste goiano paradas.”

Fala mais: “Como o governador pode dizer que o Ronaldo Caiado está fazendo uma ação politiqueira quando nós sabemos bem como esse dinheiro vai ser usado? São para apenas algumas grandes empreiteiras. Esse dinheiro não é para obra, é para grandes empreiteiras. Porque elas vão receber para viabilizar amanhã uma prática, – caixa dois de campanha, – que a Lava Jato já disse que não será admitida no processo eleitoral de 2018. Como senador da República tenho o dever de cuidar do Estado que eu fui eleito para representar. Devo zelar pela saúde fiscal do Estado.“

Na entrevista, Caiado confirma informação de seu aliado Samuel Belchior, que em entrevista à Sagres 730 afirmou que os dissidentes emedebistas não vão bater chapa com Daniel Vilela na convenção do partido. Sobre uma possível participação do vereador Jorge Kajuru (PRP), de Goiânia, em sua campanha, ele revela: a negociação segue em aberto, conduzida por sua esposa, Gracinha Caiado.

MOVIMENTO 2

Na quarta-feira, 27, o governo do Estado faz barulho para inaugurar o primeiro Centro Estadual de Atenção ao Diabetes do País, batizado de Cead. Investimento de R$ 1,5 milhão, com R$ 400 mil mensais de custeio. Presente ao evento, o vereador Jorge Kajuru, que é portador de diabetes. Adversário conhecido e duro do governo, Kajuru elogia a iniciativa, que é uma de suas principais pautas.

“Essa data representa a maior alegria”, diz, fazendo referência aos seus 57 anos de idade. Acrescenta estar feliz “como parlamentar e como cidadão, por fazer parte dessa obra, como criador, e por ter a participação espontânea do governador José Eliton, do secretário Leonardo Vilela, e antes, mesmo com todas as nossas divergências, do ex-governador Marconi Perillo, pensando nos quase 1 milhão de pessoas com diabetes em Goiás”.

Kajuru aponta o que considera mais importante, independente das diferenças ideológicas: “Nós soubemos separar os nossos conflitos, as nossas diferenças ideológicas, e pensamos num projeto que é histórico e que será um legado para o resto da vida. É o primeiro Centro de Diabéticos do Brasil, e com certeza será referência para outras capitais nos copiarem.”

“Esse é um dia histórico”, destaca Marconi Perillo, fazendo referência ao Cead, mas inevitavelmente ecoando o outro fato: o ‘reencontro’ com Kajuru, que em 1998 abriu espaço na antiga Rádio K do Brasil para denúncias e críticas ao PMDB, ajudando na sua primeira vitória, mas que logo passou a lhe fazer crítica fortes, até se tornar um de seus maiores antagonistas.

Neste contexto, fotos com Kajuru estendendo a mão para cumprimentar um carrancudo Marconi, com os dois se cumprimentado, e, ainda, com ambos e José Eliton sorrindo, correm pelas redes sociais. O próprio governo trata de divulgar as imagens, e também vídeos com discurso positivo do vereador. Capitaliza ao máximo.

Na quinta-feira, 29, uma informação fechando o ciclo: na mesma quarta em que posavam juntos para foto, advogados de José Eliton e Jorge Kajuru fechavam acordo de conciliação para extinção de ação na Justiça, em que o governador pedia R$ 100 mil em indenização por danos morais por conta de postagens do vereador nas redes sociais chamando-o de “poste” e de “litrão”. O acerto foi confirmado à jornalista Fabiana Pulcineli, de O Popular.

MOVIMENTO 3

DANIEL VILELA NÃO ENTROU NO EMBATE, MAS MOSTROU QUE O CASAL IRIS ESTÁ FECHADO COM ELE

Na segunda-feira, 25, a primeira-dama de Goiânia, Iris Araújo, recebe título de cidadã aparecidense em evento com presença dos prefeitos da capital, Iris Rezende, e de Aparecida, Gustavo Mendanha, do ex-prefeito e ex-governador Maguito Vilela e do deputado federal e pré-candidato a governador Daniel Vilela. Iris também é homenageado. O clima é de confraternização, contrastando com discurso dos adversários, que apontam azedume na relação entre os Vilela e o casal Iris.

“Aqui hoje vemos o encontro de gerações, eu e Daniel Vilela, representamos a maturidade e a força de um partido que no Estado nunca recuou, e não vai ser agora”, diz dona Iris. Pré-candidata a deputada federal representante do município, ela conta oficialmente com o aval de todos.

Na terça, 26, o homenageado é Daniel Vilela, com título de cidadão goianiense. Mais um momento rico para fotos, com os Vilela e o casal Iris outra vez juntos.

Na sexta, 29, mais encontro e mais fotos de Daniel, Iris Rezende e Iris Araújo, na retomada dos mutirões pela prefeitura de Goiânia.

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