Leitura dos fatos

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Vassil Oliveira

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As fotos e os eventos em Aparecida e Goiânia reforçam a visão de que Iris Rezende está mesmo fechado com Daniel, e não indo em direção a Caiado, como os caiadistas defendem.

Fato relevante por conta das rivalidades históricas, as fotos de Marconi e Eliton com Kajuru viraram troféu para o governo, que usou bem as imagens a seu favor. No horizonte governista, Kajuru, mais do que mostrar seu republicanismo com o gesto de reconhecer a boa ação dos adversários, deu discurso de republicanismo a Eliton e Marconi. E a comemoração no governo foi maior por considerar que, sendo vitrine e alvo constante de um opositor de grande visibilidade como é Kajuru, passa a ter um antídoto contra eventuais novas críticas.

Há o outro lado: Kajuru cumprimentou, discursou, posou para fotos, tudo em evento de interesse social e bandeira sua, como é o Centro Estadual de Atenção ao Diabetes (Cead). Isso passa longe de ter sido copiado e de ser calado por quem quer que seja. Ele tem personalidade e vontade própria. E é comunicador na essência. Governo achar que terá vida fácil está mais para ilusão do que para realidade.

Coube à AGM abrir caminho para o governo abrir guerra contra Caiado, com a dualidade estabelecida: governo que defende Estado X candidato que só pensa no seu projeto. É o discurso dominante dos governistas, é a medida do que acontece de fato: a guerra é, acima de tudo, política.

O governo usou a reação do senador ao empréstimo da Caixa como oportunidade. Ergueu palanque para levar avante a estratégia que já estava clara: investir na polarização direta de José Eliton com Ronaldo Caiado.

Duas questões de ordem nessa estratégia revelada (leia edição da Tribuna na semana passada)

1) Caiado pode ter razão (Goiás dá conta de mais esse endividamento? Pode de fato fazer o empréstimo?), mas pode perder discurso. Tudo dependerá de como a população entenderá o embate. Ou de quem terá mais competência para usá-lo em seu favor: o governo, como desconstrução do democrata; o democrata, para puxar a máscara do governo, que precisa de dinheiro para governar e – a desconfiança subentendida –fazer campanha.

2) a história do asfaltamento da fazenda pode não ser nova, mas tem força para desgastar. É ponto vulnerável para José Eliton;

3) a Caiado também interessa a polarização. Deixar Daniel morrer pelo caminho é sonho e meta comum.

O MDB de Daniel Vilela é uma máquina de campanha (com capilaridade nos 246 municípios goianos) cobiçada pelo democrata (Caiado chegou a dizer, ano passado, que para vencer precisaria do MDB, no que conta com ajuda do bloco dissidente, que no entanto não avança dentro da legenda) e temida pelos governistas (principalmente em um eventual segundo turno com Eliton e Daniel disputando).

A busca da polarização explica, em parte, a decisão do próprio Caiado ir à Rádio Sagres 730, na sexta-feira, 29, rebater as críticas de Jayme Rincón um dia antes. Na prática, Caiado estava confrontando José Eliton, que o criticou nominalmente no meio da semana, e Marconi Perillo, que é a base do seu discurso de mudança e de oposição a 20 anos de poder do ‘tempo novo’.

A polarização é, antes de tudo, um confronto particular entre José Eliton e Ronaldo Caiado. Eliton chegou a vice por fazer parte do DEM. Depois foi para o PSDB.

Um ponto das críticas de Rincón a Caiado chama a atenção: o momento em que o presidente da Agetop argumenta que os estrategistas de Caiado estariam se esforçando para mantê-lo sem falar muito. Para o governo, trata-se de fato negativo: Caiado, quando fala, perde eleitores. Para Caiado, questão de estratégia: é líder, portanto não convém aceitar provocações. Ao comparecer à Sagres, isso foi quebrado, independente de quem tem razão. Com um detalhe: Caiado estava calmo, falou com segurança, deu seu recado.

Leia também: A estratégia do confronto

O que se vê

1) José Eliton tem contra si o desgaste de 20 anos de poder do grupo liderado por Marconi Perillo. As obras e realizações ajudam, dando consistência ao discurso de que muito foi feito. O sentimento de mudança, entretanto, pode jogar de outra forma, no campo subliminar: apesar do reconhecimento aos feitos, prevalecerá o entendimento de que é hora de renovação. Este é o nó a ser desatado.

2) Caiado tem contra ele os seus estereótipos: não dialoga, não une, não conseguirá governar etc. Por mais que negue, sabe que isso tem peso. Na entrevista à Sagres 730, ponderou nessa direção, lembrando que diziam que ele não ganharia eleição majoritária, e ganhou, para senador; que não aglutinaria, e aglutinou: tem hoje 11 partidos ao seu lado; que não teria chapa competitiva para deputado, e conta – números seus – com quase 600 nomes para deputado estadual e federal. Não tem resposta na ponta da língua à toa.

3) O maior adversário de Daniel é ele próprio. Daniel vive em estado de ‘se’: se o MDB abraçar seu nome; se conseguir juntar mais partidos e ampliar a aliança; se será ou não capaz de sair da armadilha da polarização entre Eliton e Caiado. Sobrevive em compasso de espera, até as convenções. A boa nova é que pelo menos um ’se’, se desmancha no ar: está cada vez mais difícil seus aliados convencerem que Iris vai abandoná-lo.

Saldo da semana

  • Daniel Vilela produziu poucos fatos, ainda que positivos. E só.
  • José Eliton produziu muitos fatos, mostrou que tem armas para a guerra, e muita munição.
  • Ronaldo Caiado, que tinha desacelerado a pré-campanha, está na defensiva. Tem pouco a comemorar. A não ser que entre como crédito na conta do democrata, por meta atingida, a aposta na polarização puxada por Eliton. E que funcione, igualmente a seu favor, como investimento futuro, o atos de fé e fotos da terça-feira, 26, e da sexta, 29: a caminhada e a cavalgada de que participou até Trindade, em devoção ao Divino Pai Eterno.
  • Kátia Maria, Weslei Garcia e Edson Braz estão no jogo, mas lá atrás, sem fato novo.

Anotações de campanha

Análises e ponderações sobre a disputa em Goiás

01 O fato de a senadora Lúcia Vânia (PSB) mandar mensagem de radicalização – pode trocar a base governista por um lugar na chapa para o Senado ao lado de Ronaldo Caiado, ou até desistir da candidatura – não quer dizer que ela está a ponto de romper com a base. Quer dizer que ela quer ver logo resolvida a situação de Demóstenes Torres (PTB). O problema é como resolver o impasse com o PTB. O previsível: por ora, nem Lúcia Vânia vai romper, nem Demóstenes será afastado dos eventos do governo. A tensão continuará até as convenções.

02 No PSD, há interessados em convencer Vilmar Rocha a ser candidato a deputado federal, esquecendo de vez a candidatura ao Senado. Thiago Peixoto está entre os possíveis nomes para vice de José Eliton.

03 Registre-se: a vice não é prioridade dos partidos. Os partidos querem candidatos a deputado federal, principalmente.

04 No PP, o ministro Alexandre Baldy, presidente do partido no Estado, faz jogo cruzado, procurando agradar tanto o presidente Michel Temer – acenando para o pré-candidato a governador do MDB em Goiás, Daniel Vilela – quanto a base governista de José Eliton em Goiás, que tem a preferência de apoio dos deputados federais da legenda. A questão posta: vai valer a pressão de Brasília ou os interesses de Goiás? É o que de fato importa saber, e o que ninguém, nem no PP nem fora, sabe responder. Há ainda a possibilidade de aliança do PP com o DEM de Ronaldo Caiado, porém tida como a menos provável.

05 As cobranças a uma maior participação do prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), na pré-campanha de Daniel Vilela atendem mais às estratégicos de Ronaldo Caiado e José Eliton do que propriamente a uma questão interna, no MDB. Iris mantém-se fiel ao propósito de 60 anos de vida política: é partidário, logo… seguirá o partido.

06 Nas pesquisas publicadas nas últimas semanas, o que tem chamado a atenção em todos os comandos de campanha é o desempenho de Kátia Maria, a pré-candidata do PT ao governo de Goiás. É a surpresa, para todos. E a avaliação geral é de que ela vai crescer mais. O tamanho do PT na disputa importa para se medir a viabilidade do segundo turno.

07 Na base governista de José Eliton é reforçada a tese, levada à prática ao longo da semana, de que é mais estratégico um 2º turno com Ronaldo Caiado do que com Daniel Vilela. Embora os números mostrem Caiado vencendo José Eliton com boa margem em todos os cenários, o cálculo é o de que, com Caiado na disputa, José Eliton reverteria a desvantagem inicial juntando mais apoios políticos e na sociedade. Pesaria nessa hora – é a avaliação interna – o perfil mais conciliador de Eliton. O receio de um embate no 2o. turno com Daniel vai nessa linha: Daniel contaria com o pai, Maguito, e a estrutura do MDB para também arregimentar apoios. E seria a novidade, a mudança na estrutura de poder. Na guerra máquina do governo X máquina emedebista – o choque de máquinas –, o cenário ficaria imprevisível. Ainda sobre o 2º turno: a Daniel também interessa o embate com José Eliton mais do que com Caiado; Caiado prefere José Eliton por razões óbvias: atrairia o MDB para o seu lado.

08 Vale lembrar: Caiado continua firme na tentativa de sedução ao MDB, mas não espera apoio de Daniel Vilela em um eventual 2º turno. Foi o que deixou claro à Sagres 730 um dos coordenadores da campanha de Caiado, Samuel Belchior, há cerca de duas semanas.

09 O ex-governador Marconi Perillo (PSDB) é a expectativa de consolidação da unidade na base aliada e da candidatura de José Eliton, e, ao mesmo tempo, a maior preocupação dos oposicionistas. Assim, vai continuar sendo o maior alvo. Até agora, não por acaso, tanto Caiado quanto Daniel, Kátia Maria e Weslei Garcia, do Psol, têm como foco comum, no discurso, os quatro governos dele e seus 20 anos no poder. Daí o quase consenso em se dizer que esta eleição será plebiscitária sobre o legado de Marconi. Isso é problema, mas é também um elogio: a sua marca é a que incomoda e define o rumo do jogo.

10 Na entrevista à Sagres 730, Caiado colocou Marconi na roda de forma pensada. Em vez de bater boca com Jayme Rincón, ele busca confronto com aquele que justifica seu discurso de mudança. A ver: a reação de Marconi.

11 Voltando a Iris: seu legado é maior que Goiânia. Está sedimentado na História. Para Daniel Vilela, é diferencial competitivo de resistência. Iris é o avalista que Daniel tem e que Caiado gostaria de ter para si. Por isso, também será alvo. Estará na eleição de qualquer forma – direta ou indiretamente. Com dona Iris candidata a deputada federal, ele inevitavelmente vai agir. No seu tempo.

12 Pesquisas e mais pesquisas eram mais que previsíveis com a proximidade das convenções. Isso é sempre estratégia de quem está no governo. Guerrilha. Só é surpresa para uma oposição amadora. Só é problema quando falta estratégia – ou recursos.

13 Na sexta, 29, a TV Record divulgou novos números do instituto Real Time Big Data. Caiado caiu de para 49,3% em dezembro, para 37%, e Daniel, de 15,8% para 5%. José Eliton foi de 12,6% para 15%. Kátia Maria tem 3%, e Weslei Garcia, 1%.

14 Ironia do destino? A disputa hoje em Goiás é ‘tempo novo’ X ‘tempo novo’. Ronaldo Caiado (DEM) está na base do grupo que chegou ao poder em 1998 com Marconi Perillo (PSDB), derrotando Iris Rezende (MDB). José Eliton chegou ao governo com ajuda de Caiado, e se manteve por obra e decisão de Marconi. Hoje, Caiado lidera uma disputa em que Marconi e Iris estão em desvantagem. E o MDB, que perdeu para uma oposição unida lá atrás, vai desunido para o combate de outubro, com uma dissidência preferindo arriscar-se a ganhar com um ex-adversário (Caiado) do que perder com um nome próprio.

15 Palavra de ordem em alta: desconstrução. A desconstrução do líder é a construção do caminho de quem está atrás e quer vencer. Agora começa o jogo pra valer. Agora é que o favoritismo inicial de Ronaldo Caiado será verdadeiramente testado. Seu teto não é a intenção de voto em 40%. Seu teto é a medida da sua competência para, depois de alçar voo, seguir voando, e subir mais. O maior problema de quem lidera não é bater no teto, até porque só assim é possível rompê-lo. O maior problema é bater no chão. Despencar.

16 A) Ronaldo Caiado tem plano de voo faz tempo. Sua campanha está medida e focada. Se errou ou não ao responder Jayme Rincón/José Eliton, só o tempo vai dizer.

B) José Eliton está concluindo a estruturação de sua campanha, com marketing e equipe de ação política. Não é amador.

C) Daniel Vilela ainda não definiu rumo de sua campanha, muito menos equipe. Essa demora incomoda, internamente.

D) Weslei Garcia tem discurso de oposição ao governo (PSDB e partidos aliados), às tradicionais forças de oposição (MDB à frente, e agora também o DEM) no Estado, e de contraponto ao PT. Está especialmente focado nas redes sociais, neste momento contando sua história de vida como professor no entorno de Brasília.

E) Kátia Maria passou os últimos dias estruturando sua campanha e vai agir de forma planejada, com militância animada. Na largada, quer deixar claro que tem propostas de verdade e um perfil que a diferencia nas propostas e na ação dos outros candidatos.

F) Edson Braz, da Rede, ainda é um nome se apresentando para a guerra apostando na militância espontânea para puxar a campanha. Um sonho.

17 Para pensar: a disputa política hoje em Goiás é digital. A guerra analógica ficou no tempo.

Vassil Oliveira

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