Entrevista | “[Conversa com Eliton] prejudica muito, porque fica parecendo que a Rede não sabe o que quer”

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Fotos: Mônica Salvador
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Edson Braz – Ex-procurador-geral do Trabalho em Goiás

Daniela Martins e Fagner Pinho

Ex-procurador-geral do Trabalho em Goiás e membro Procuradoria-Geral do Tribunal Superior do Trabalho em Brasília, Edson Braz agora tenta dar um novo salto em sua carreira: dentro da política. E o primeiro desafio já é grande: ser o candidato da Rede Sustentabilidade ao governo de Goiás, tentando quebrar a polarização entre base aliada e oposição encabeçada pelo MDB há 20 anos, e hoje nas mãos do DEM. Para tal, de pronto precisa superar as indefinições dentro de seu partido, uma vez que há outra pré-candidatura postulada pela advogada Sara Mendes, e conversas da porta-voz feminina do partido com o governador José Eliton, em uma reunião meio nebulosa ocorrida há duas semanas. Nesta entrevista concedida à Tribuna do Planalto, Edson explica que seu objetivo, a priori, é manter seu nome nas convenções para daí buscar integração com a candidatura nacional de Marina Silva.

Tribuna do Planalto – O senhor foi procurador do Trabalho, como entrou para a política e porque a Rede?

Edson Braz – Eu sempre tive uma participação que eu chamasse de política social, sem ser política partidária. Onde nasci, no Rio de Janeiro, em uma favela, a gente passou a cuidar da nossa comunidade sem esperar tanto do poder público. Nós tínhamos uma associação, que ajudava a colocação de esgotos, de água, distribuição de energia elétrica e a coisa foi fluindo nesse sentido. Eu tive sempre uma vida ativa na comunidade que pertenço porque quando você se omite, perde até o direito de reclamar, de questionar. Então, foi dessa maneira. Aí quando se criava a Rede, o Aguimar Jesuíno, que era conhecido do tempo de Ministério Público, ele como advogado, perguntou: Vamos ajudar fundar a Rede, um partido diferente? Eu li o manifesto, vi as coisas e vi que era um partido diferente e que casava muito bem com o que eu pensava.

Como foi o processo para definição do seu nome dentro da Rede para as eleições 2018?

Olha, tem um grupo que a gente chamaria de “o grupo pragmático, materialista”, que acha que eleição precisa ter recursos, recursos materiais, que seria a velha política, dessa forma. E tem um grupo que chamamos “idealista”, que pensa que a política é possível fazer com um novo campo político, com uma forma diferente, que a ligação é direta com a sociedade, em intermediações, e foi isso que nos animou. Dentro do partido, então, nós tivemos uma reunião no dia 9 que, dos presentes do Diretório, chamado Elo, eu tive a unanimidade, nove votos, foi oficializado, comunicado inclusive aos meios de imprensa e comunicação e perante o Elo Nacional. E nós, conseguindo uma defesa dessa candidatura própria.

Tem outro nome que se coloca também?

Uma recém-ingressa na Rede, Sara Mendes, uma advogada, se propôs à candidatura de governadora. Nessa reunião, ela estava presente, ela pôde apresentar a candidatura dela, com toda a democracia própria da Rede, e ela não teve nenhum voto. O encaminhamento foi para que minha candidatura fosse aprovada exclusiva e assim que está sendo. Só que na Rede, assim como eu falei, não há a decisão de um xerife, alguém que vá determinar, então ela insiste, e é legítimo isso, com a candidatura dela até a convenção. Mas eu acho que essa situação dúbia gera um desgaste, um problema para essa candidatura majoritária, tanto que quando dois meses antes, se adiou a decisão por uma candidatura majoritária e eu fiquei quieto, fiquei esperando uma oficialidade dessa candidatura.

Ainda existe alguma parte do partido que defende coligação com outros partidos?

[Quem defende coligação com outros partidos] são, principalmente, as pessoas que ingressaram recentemente na Rede, praticamente no último dia de filiação partidária. Essas pessoas acham que uma coligação com os grupos predominantes em Goiás permitiria a quebra de cláusula de barreira com maior facilidade. Outro grupo pensa diferente, que é o grupo ao qual eu pertenço, que eu acho que, na verdade, esses partidos procuram a Rede para pegar um selo de ética, um selo de boa conduta, já que eles estão tão questionados e rejeitados. E nós achamos que não, como a Marina diz: é melhor perder ganhando do que perdendo a credibilidade que a Rede tem, é o partido que mais combate a corrupção no Brasil, essa credibilidade não pode ser perdida.

“A Rede é pequena em estrutura, mas em idealismo é gigante. Se tiver outros partidos com esse mesmo perfil, não tem problema em fazer coligações. A recusa é com o grupo dominante histórico”

Está faltando união dentro do partido, em vista de que há duas semanas parte da Rede iniciou conversas com o governador José Eliton?

Sim, na Rede existe uma coisa que nós chamamos de consenso progressivo, as coisas não entram na disputa e bateu [o martelo]. Vai se conversando até chegar a um senso comum. E, na verdade, a porta-voz feminina, que é a Eva, junto com as outras pessoas que acham que a proporcional coligada seria a melhor estratégia da Rede, continua na atuação até a convenção. E o outro grupo que entende que a majoritária é a solução para vencer a cláusula de barreira e manter a Rede dentro de seus princípios institucionais, continua. Mas das decisões dos órgãos de direção do partido não está havendo problema porque a decisão tem sido firme na candidatura majoritária.

Isso atrapalha a sua postulação?

[A conversa com Eliton] prejudica muito, porque fica parecendo que a Rede não sabe o que quer, fica parecendo que a Rede é um partido sem direcionamento, e não é assim. Nós temos uma estrutura orgânica que sabe de onde vem, onde percorrer e o que quer, inclusive a própria Eva, que visitou o Palácio, oficialmente dentro do partido ela disse que a versão dada pelo governo não é aquela, que ela teria ido buscar o apoio para uma causa de uma comunidade que estava com problema de água e com a Saneago, para resolver o problema de uma comunidade, para explicar o que seria uma agricultura sustentável, que agricultura sustentável precisa de água também, né? Então, ela nega que tenha ido lá para levar a Rede para se coligar e que isso teria sido desvirtuado pela equipe do governador e tanto pelo governador. Ela foi com um propósito, eles deram um viés totalmente diferente. Então, foi essa explicação que ela deu dentro do partido. Mas eu não sei o que aconteceu, eu não estava na reunião.

Goiás vive uma polarização há anos, entre a base aliada encabeçada pelo PSDB e a oposição, encabeçada pelo PMDB e neste ano pelo DEM. Como o sr. pretende trabalhar dentro dessa polarização?

Quero romper essa polarização em Goiás. A ideia da Rede é ter um novo campo político que não fique sujeita a esse, como chamamos, loteamento do Estado de Goiás, loteamento da política. Hoje as pessoas dizem assim: Eu tenho estrutura, tenho comigo não sei quantos prefeitos, não sei quantos deputados federais. Ou seja, uma ideia muito quantitativa de posse. Eu estou com isso, me pertence, estou com isso, me pertence. Só que nós percebemos nas pesquisas que tem um pessoal que se recusa a ser de alguém, de partir desse feudo, desse inventário que eles apresentam. Nós tivemos no Tocantins 50% de abstenção, votos nulos e brancos e aqui no Estado de Goiás, na última pesquisa que nós vimos, 18% não foi votar, 200 mil votos em branco, 200 mil votos nulo, nós tínhamos aí 1,2 milhão votos que não eram do Ronaldo Caiado, não eram de José Eliton, não eram de Daniel Vilela, e estavam querendo opção e a gente quer esses votos.

Isso entra na perspectiva de que há um descrédito muito grande hoje por parte do eleitor e querer trabalhar em cima desse descrédito para mostrar uma nova plataforma?

Isso, uma opção. Na Rede, chamamos de um novo campo político, que seria voltado para essas, propositivo, para que se resolva as coisas em prol da sociedade.

Como levar isso ao eleitor?

Então, é um desafio muito gostoso porque nos faz criativos. Tem aquela brincadeira, né, a necessidade faz o sapo pular. Então, a gente está procurando esses caminhos, e uma coisa que está muito gostosa e a gente fica até um pouco romântico são os voluntários, as pessoas que falam: Quero participar, estou contigo. Então, nós estamos criando as redes sociais, as pessoas se movimentando, é claro que dentro do permitido, nós não fizemos nenhum alavancamento, não estamos fazendo nada. É diferente, um vai passando para o outro, para o outro, para seus contatos, sem ser o uso daquelas ferramentas. A gente acha que essa ideia pegando, essa onda, e está pegando, vai fazer diferença sem dinheiro.

“Quero romper essa polarização em Goiás. A ideia da Rede é ter um novo campo político que não fique sujeita a esse, como chamamos, loteamento do Estado de Goiás, loteamento da política”

Depois de 20 anos do “Tempo Novo” em Goiás, qual a sua observação desse período? Há um desgaste?

Há um livro chamado A Revolução dos Bichos, que parece exatamente isso. A pessoa começa certo, com bons propósitos, a coisa vai fluindo, depois vai, começa a andar um pouquinho mais ereto, daqui a pouco está fazendo a mesma coisa que os humanos faziam na Revolução dos Bichos. Eu acho que aconteceu isso. Por isso a Rede não é favorável à reeleição. Em nosso estatuto é proibida essa ideia de reeleição para que não aconteça isso, essa acomodação, a pessoa achar que é dona do poder. A Rede tem como forma profilática de combater isso a não reeleição.

Fala-se muito do novo dentro da política. Até o momento, existe o novo dentro do cenário colocado que tem José Eliton, Ronaldo Caiado, Daniel Vilela, Weslei Garcia, Kátia Maria e o sr.?

Esse novo eu não queria que ele dependesse de pessoas, e sim de ideais e do próprio partido. Ele tem uma concepção. Não adianta botar pessoas novas de idade ou recém-ingressadas dentro de um ambiente contaminante, que ele vai sair por outro lado.

Entre José Eliton, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado, algum representa o novo?

Eu prometi que não vou fazer observações sobre pessoas. Eu vou dizer assim, Eliton, Caiado e Daniel estão vinculados a uma estrutura que não é nova, que é arcaica. É uma mera continuidade dessa situação que nós combatemos com pessoas diferentes. Por isso que eu falei que o novo não deve ser analisado pelas pessoas, deve ser analisado pela estrutura, o pensamento.

Como a Rede está preparando palanque em Goiás para Marina?

Isso vai depender com esse entrosamento da campanha dela nacionalmente. Nós estamos aqui disponíveis e dispostos a nos integrar a esse planejamento da Marina.

Essa integração ocorrerá após as convenções?

Exatamente, quando estiver tudo definido, aí nós vamos saber como a coisa deve acontecer e atenderemos às comunicações.

Como o sr. avalia a posição de Marina não ter apoiado Dilma Rousseff no segundo turno em 2014 e ter preferido o Aécio?

A Rede é um partido diferente, existe uma coisa chamada reserva de consciência. Nenhum membro da Rede é obrigado a fazer aquilo que violente sua consciência. Eu particularmente não teria feito a coligação, eu achei que não era algo que somasse à Rede naquilo que ela se propõe, mas a Rede está muito magoada com as mentiras, com os ataques do PT, Fake News, toda aquela campanha de desqualificação da Marina. Então, entre se aliar a uma posição ou ficar de outra, ela achou que deveria fazer e fez de uma forma transparente, com base em programas. Eu particularmente não faria, preferiria ficar neutro.

Nos cenários das pesquisas nacionais sem o nome do ex-presidente Lula, nota-se que há um crescimento vertiginoso de Marina Silva. Isso mostra uma identificação do partido e de Marina com os ideais de centro-esquerda?

Acho que não. A leitura que eu faço é diferente, que a Marina seria protetora dos programas sociais que ajudaram a população a ter moradia, ter acesso às universidades, alimentação mais básica, e em outras candidaturas isso pode correr perigo, como a gente vê a tentativa de empurrar uma reforma trabalhista, uma reforma previdenciária, uma carga tributária que em nada beneficia a população. Então, eu penso que isso não é identificar Marina como coligada umbilicalmente com o PT, mas do cenário aparece quem é que daria continuidade aos programas sociais do governo PT, que tanto ajudou a população seria Marina. É assim que eu interpreto.

O sr. já tem um plano de governo?

Nós já temos diretrizes que são especificadas e nós estamos customizando para o Estado de Goiás. Estamos ouvindo bastante as pessoas, a ideia é ter um programa de governo que venha de baixo para cima, que não seja cabeça de intelectuais. Nada contra os intelectuais, nós entendemos, até como professor, que temos que ter uma parte empírica, prática e teórica, e os dois têm que ter uma harmonia para que a coisa funcione. Então, nós estamos nessa fase, mas podemos afirmar que é essencial, pelas pesquisas que fizemos, a segurança, porque a segurança atinge toda a sociedade, rico, pobre, velho, novo, homem, mulher. Não adianta atacar a violência sem atacar as causas, e essa injustiça social, a falta de oportunidade dos jovens, que são arregimentados pelo tráfico e pelo crime, a gente pretende acabar com isso. A ideia de prevenção na parte de segurança, e a repressão que for necessário nesse momento, porque não dá para tratar bandido de fuzil com flores. Nós temos que capacitar a polícia, treinar, para que tenha esse enfrentamento sem perdas, que a inteligência da polícia seja a parte forte para quando intervir seja com menos danos, tanto para um lado quanto para o outro, porque tem que preservar vidas. E nessa igualdade nós pensamos na escola de tempo integral. Nessa escola de atenção integral, a criança, o adolescente seria o eixo, o centro, mas viriam junto as famílias, aí teria atenção de saúde, esporte, lazer, cultura, todo esse envolvimento até com a prevenção da parte de segurança mesmo, para que as pessoas tenham essa cultura.

O sr. ainda conversa com outros partidos?

Eu particularmente não tenho conversado com ninguém, não procuro ninguém, porque acho que a melhor opção da Rede é com chapa pura. Eu brinco assim que a Rede é pequeno em estrutura, mas em idealismo é gigante. Se tiver outros partidos com esse mesmo perfil, não tem problema em fazer coligações. A recusa é com o grupo dominante histórico.

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