Sob os pés, história

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Daniela Martins

Mais que calçar ruas, os paralelepípedos de Piracanjuba compõem a trajetória e a identidade cultural da cidade

“A gente fazia o calçamento com a maior dedicação, para ter nosso sustento e diminuir a poeira. Não imaginava que seria tão importante para a história.” Robes Martins

Quem ouve Robes falar dos paralelepípedos que revestem as ruas de Piracanjuba sente nas palavras, no tom de voz, o amor pelo que suas mãos fizeram. E orgulho, ao perceber a importância histórica do trabalho que preencheu 40 de seus 63 anos de vida. Começou cedo, aos 13, como servente. Carregava areia e assistia os mais velhos, que ladrilhavam o caminho. Na hora do descanso, se ocupava de aprender o ofício. Socar a terra, forrar com areia e assentar, pedra a pedra.

– A gente demorava três, seis, até oito meses para fazer uma só rua. Fazia uma linha de pedra no centro e cada um ia de um lado. E fui assim, trabalhando, estudando, trabalhando, estudando…

De servente, se tornou protagonista. Os colegas deixavam  a lida. Mudavam de cidade, de profissão. Alguns morreram. Ele persistia, pedra a pedra. Mais tarde se formou técnico em contabilidade, mas, como diz, nunca entrou em um escritório. Do seu jeito, Robes Martins Dutra fez história.

Memória coletiva

O calçamento de paralelepípedos de Piracanjuba, cidade goiana a menos de 90 quilômetros da Capital, é parte da identidade cultural do povo dali. Todos concordam. Mas nada se fez, pelo menos até pouco tempo, em prol da preservação desse patrimônio. Realidade que inquietou a professora Luzanir Luíza de Moura Peixoto, piracanjubense, psicóloga e mestre em Educação.

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Há dez anos, Luzanir se debruça sobre a história das ruas revestidas de pedras. Nessa missão, reuniu um grupo de professores que a ajudaram. “Piracanjuba já perdeu os casarões e ninguém fez nada. Tem o calçamento, e também ninguém faz nada.” Tal pensamento fez nascer a vontade de se esforçar pela preservação. A dificuldade era o tempo. Compromissos do dia a dia foram empurrando a ideia para a frente. Até que Luzanir se aposentou e o projeto ganhou fôlego, ganhou forma.

Em junho último, duas vitórias foram alcançadas. A primeira, o lançamento do livro ‘Conservação e Preservação do Calçamento a Paralelepípedo na Cidade de Piracanjuba’. “É mais um projeto de preservação que propriamente um livro”, explica Luzanir. “O objetivo principal é cuidar do que é nosso, um museu a céu aberto.”

Nas páginas do livro está assegurado o acesso à memória coletiva, reconstruída e registrada por meio de pesquisas, fotografias e entrevistas com quem ajudou a revestir as ruas de paralelepípedos ou acompanhou o processo. Luzanir ouviu familiares de antigos funcionários da prefeitura de Piracanjuba e contou com a experiência de Robes, o último que permanece na cidade.

“Com o trabalho, sensibilizamos o poder público e a sociedade. Avançamos para evitar a perda ou descaracterização da pavimentação, que possui traços históricos, culturais e bucólicos”, reforça a pesquisadora.

A segunda conquista é a aprovação, pela Câmara de Piracanjuba, de lei que torna as ruas de paralelepípedos patrimônio histórico tombado. Significa uma esperança no peito dos que se preocupam com o calçamento. “Eu tinha tristeza de lembrar da dedicação que a gente teve, do empenho e de ver hoje o calçamento se estragando, ver a situação que está. É lamentável”, comenta Robes.

E ele sabe da importância dessa iniciativa parlamentar. “Disseram que, ao ser tombado, o calçamento vai ter verba específica para sua manutenção.” E Robes quer contribuir ainda mais com essa história. Mesmo aposentado, sem condições de voltar ao serviço puxado, custoso, como diz. “Minha ideia é arrumar duas ou três pessoas e ensinar, para que elas continuem a recuperação do calçamento”, planeja.

Ideia exemplar

A iniciativa e a conquista da população de Piracanjuba são elogiadas pela superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás (Iphan Goiás), Salma Saddi. “Parabenizo a professora por ter perseverado por 10 anos, e a Câmara, por aprovar tão importante lei. Se você retira o que é antigo, a cidade perde a distinção do que é o seu centro histórico”, esclarece.

Salma sugere que todas as cidades goianas que têm esse tipo de calçamento lutem por sua preservação. “Os prefeitos devem refletir muito antes de pensar em retirar. Esse calçamento é muito superior ao que é feito hoje em dia”, salienta. Ela explica que o Iphan realiza um trabalho de conscientização pelo Estado, no intuito de demonstrar caminhos possíveis à preservação da memória das cidades, já que somente prefeituras e Estado têm a prerrogativa de tombar esses patrimônios. E é a partir do tombamento que é possível requerer, em programas públicos, incentivos para aplicar em preservação. “Desejo que Piracanjuba sirva de exemplo para Goiás, quiçá para o Brasil.”

Reverberou

Professora Luzanir Luíza: dez anos de pesquisas pela preservação

O livro tem provocado outra transformação interessante, a mudança cultural. Professor de História e Sociologia, Ildelson Alves de Oliveira é um dos que participaram do trabalho desenvolvido por Luzanir. Morador de Piracanjuba há décadas, ele conta que a população não entendia a importância do calçamento. “Principalmente as mulheres, que gostam de andar de salto”, exemplifica. E algumas pessoas que pensavam que melhor mesmo é o asfalto. É a modernidade. “Agora a conscientização é outra. A gente percebe que as ruas de paralelepípedos já têm mais valor”, assegura.

Ildelson cita vantagens do calçamento, como o fato de permitir a evaporação natural e o escoamento rápido das águas pluviais. E é mais econômico. “Não onera o erário público, uma vez que colocado, os reparos são pontuais”, diz.

Luzanir destaca: nenhuma cidade vizinha de Piracanjuba tem esse tipo de construção. “Caldas Novas, Morrinhos, Buriti Alegre, Aparecida de Goiânia, Bela Vista… enfim, as cidades próximas, não têm esse trabalho característico do período colonial.” De tão importante, o assunto tem chegado às novas gerações. “Professores trabalham esse projeto nas salas de aula, e os estudantes já começaram a perceber o quanto isso é importante para nós”, observa.

É conscientização feita. Pedrinha a pedrinha.

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