Análise | As ruas vão decidir a eleição

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Vassil Oliveira

O que vai decidir a eleição em Goiás é o campo, a rua, a disputa direta. Caiado tem a liderança, José Eliton tem a máquina do governo e Daniel Vilela tem o maior partido do Estado. Se os números indicam um jogo definido, os fatos apontam em outra direção. Cada um tem sua vantagem, mas também desvantagens consideráveis.

Na semana passada, Caiado mostrou suas cartas, e armas. A sua chapa: ele governador, Lincoln Tejota vice, Wilder Morais e Jorge Kajuru senadores. Ao tirar mais um nome da base, Tejota, o senador fez barulho. Lançou a ideia de porteira aberta para debandada de aliados do governo para o seu lado. Ao anunciar Kajuru junto, mexeu com os brios do MDB.

Mas o que foi alardeado como esvaziamento da base, na prática o tempo mostrou não ter passado de revolta de companheiros. Dos que ficaram contra o que saiu, Tejota. O deputado estadual sempre foi um dos maiores beneficiados pelo governo, muitas vezes em detrimento de outros nomes mais próximos de Eliton e do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). Ele e o pai, Sebastião Tejota, conselheiro do TCE.

A decisão de Tejota, de mudar de lado, foi tratada como ingratidão, mas principalmente como traição. E isso levantou raiva e gritaria geral, na base. Passado o primeiro momento, no entanto, o da notícia, a conta que ficou foi a do alerta – a base precisa agir logo, somada a um rojão: Caiado prometia chapa com partidos fortes, fechou com partidos pequenos.

Para esta semana, os aliados esperam mais movimentação do ex-governador Marconi Perillo, que consideram um pouco ausente, mais preocupado com a articulação nacional de Geraldo Alckmin para presidente. No final de semana, ele já se fez mais presente. Reuniu-se com Jovair Arantes e garantiu a permanência do PTB na base. O recuo da candidatura de Demóstenes Torres ao Senado estava acertado, mas havia o perigo de o PTB tomar outro rumo.

Para Marconi resolver logo: a vice de José Eliton. Thiago Peixoto (PSD), tido como nome natural, pode ficar fora da chapa principal, para dar lugar a um nome a ser definido em consenso por Jovair, pela presidente do PR, Magda Mofato, e por outros partidos aliados, como o Solidariedade. A própria Magda é uma escolha possível; a tucana Raquel Teixeira, apenas se referendada por essas lideranças.

O PP só indicará o vice se se acertar com essas mesmas lideranças – sempre elas batendo o martelo, de agora em diante, o que está acertado. E se andar rápido. A demora de Alexandre Baldy em decidir o rumo do PP incomoda. E será cobrado dele uma posição rápida. Se de tudo Baldy decidir não ficar na base, o impacto já está medido: o dano ficará restrito a ele e ao apoio formal da legenda (tempo de TV), porque os deputados federais seguirão com Eliton.

A amarração das pontas é tarefa para Marconi porque todos querem negociar com ele. Nada contra Eliton. Apenas o pragmatismo de quem sabe que só com Marconi em campo é possível juntar os aliados, manter a unidade e motivar todo mundo para fazer o que está faltando: ir a campo para reverter o jogo, hoje favorável a Caiado.

Governistas consideram que a base está empacada mais na espera por Marconi do que na ação dos adversários, principalmente na de Caiado. Com Marconi em campo, o ânimo muda, entendem. Sua habilidade em campanha é exaltada por todos, e considerada essencial para puxar os inseguros e acomodados. E ele tem falado reservadamente que está motivado “como nunca” para a disputa deste ano.

Caiado se beneficia com a demora na reação da base governista e aproveita para vender isso como fraqueza e capitulação do principal adversário. A ideia de debandada, simbolizada na adesão de Lincoln Tejota, e parte da estratégia de investir tudo nesta reta final das convenções. Mostrar entusiasmo e convicção inarredável da vitória é arma para assustar adversários – e, assim, atrair apoios.

A Daniel Vilela, sem fatos novos para apresentar – à espera do PP –, restaram dois movimentos nos últimos dias: aprofundar o discurso de oposição verdadeira, enfatizando o ‘marconismo’ explícito na chapa de Caiado, e capitalizar o que seria o único ponto positivo da definição de Kajuru: mais empenho do prefeito de Goiânia, Iris Rezende.

Havia expectativa de que Kajuru ficasse na chapa do MDB, como candidato a deputado federal. E isso foi frustrado. Porém, a solução para o passivo com Iris – a contrariedade do prefeito com a presença de Kajuru no grupo – foi comemorado. Iris é alvo frequente do vereador na Câmara. E é considerado tão importante para o sucesso da candidatura de Daniel que pode aparecer até em seu jingle de campanha.

O anúncio da chapa de Caiado serviu para ligar a base governista, que passa a ter pressa na definição de sua aliança de partidos e apoios; para cutucar o MDB, que viu urgência também em apresentar fatos que provem que está no jogo com chances, e não cada vez com menos chances; e para ‘turbinar’ – expressão de um cabalista semana passada – a campanha do senador.

Caiado está na dele. Enquanto dizem que sua candidatura não se sustenta, ele apresenta novidades e segue em alta, nas pesquisas. Não precisa mais do que isso para deixar em fogo alto o principal trunfo para quem quer vencer uma eleição: a perspectiva de poder. Sem máquina e sem estrutura partidária, elevar ao máximo a virtude que tem é básico e elementar.

Como num campo de guerra, os exércitos estão se posicionando para o enfrentamento, que virá na campanha de fato. Os números indicam a largada. A chegada é outra história. As intenções de voto hoje serão suficientes para Caiado assegurar os votos em outubro? Na hora em que a campanha virar fogo e paixão, quem terá mais soldados e mais disposição para impedir o avanço do inimigo?

Eleição não é feita de expectativa. É pé no chão e foco no resultado. Pesquisa levanta poeira. Mas não garante voto na urna.20

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