Artigo | O tempo das coisas

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Foto: Internet

Jorge Antônio Monteiro de Lima

O ontem se foi no agora… O amanhã, que esperava, jamais chegou… É o saudosismo do não vivido, não feito, não presenciado… Anseio do amanhã como uma possibilidade que, de possibilidade, sempre muda seu trajeto caminhando para outras bandas… Tempo é terra de ninguém, livre por natureza, dono e proprietário de sua própria vontade. Senhor absoluto e titânico do destino.

Na vida existe um tempo para tudo, regido pela sincronicidade. O tempo de nascer, crescer e amadurecer, morrer. Tempo de repudiar e amar, tempo de dar as costas ao passado e o tempo da frente vindouro, o futuro… Tempo do real e concreto e tempo do abstrato e da fantasia…da incoerência e dos sofismas…. tempo de nos perdermos na eterna busca do reencontro com nossa consciência, tempo do banimento do paraíso e tempo do repouso na rede. Tempo de agir ou o tempo do permanecer estático.

Tempo de Santo Agostinho, Kant, Hegel ou do eterno pipoqueiro do parque ancião – homem velho, rei dos animais?

Mas para além do tempo existe o tempo perdido, o tempo da procrastinação, do poderia ter feito, um tempo de prisão, culpa, jaula, incômodo, que poderia ter sido… Mas que se perdeu. É semelhante ao tempo do adeus, que demarca psicologicamente o sentimento de perda e de culpa, invariavelmente queixa frequente de consultório, ligada à apatia, falta de vontade, comodismo, preguiça, um tempo que castiga, judia, maltrata. É o sentimento de culpa pelo que poderia ter sido feito e não foi. Muitos pacientes trazem em sua história a reclamação de algo que se perdeu em sua vida, do tempo perdido que torna-se eterno por meio da culpa.

“Procrastinar é crime contra a própria consciência, crime sem perdão”

Conheci um senhor há alguns anos que dizia ser o homem mais sortudo e azarado do planeta… Sortudo porque sozinho ganhou na megasena acumulada… azarado porque, por preguiça, tendo os números que seriam sorteados em sua mão, deixou de jogar. Tudo porque estava sem vontade de caminhar duas quadras.

Jorge A. Monteiro de
Lima é analista, pesquisador
em saúde mental, psicólogo
clínico e mestre em Antropologia
pela UFG.
Foto: Divulgação

A culpa advinda de não se perdoar por algo que podia ser feito, mas não foi. E o tempo do exato, a hora certa de cada coisa se esvai no ralo cósmico do mal feito, tornando-se posteriormente um crime pela cobrança da própria psique. Procrastinar é crime contra a própria consciência, crime sem perdão porque deflagra a perda da sintonia, a ruptura com a harmonia das coisas e se esvai. Hoje em dia existem milhares de pessoas que diariamente procrastinam sua própria existência e seu destino.

 

 

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