O fantasma que nos escraviza

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Foto: Internet

Jorge Antônio Monteiro de Lima

Qual o medo lhe mobiliza, retira sua razão, lhe escraviza? Quem é seu senhor, a quem diariamente você reverência? Como analista e psicólogo clínico, percebo que é comum encontrar pessoas com alguns tipos de medos específicos. São marcas da pós-modernidade.

Um tipo extremamente comum: o que tem medo de alegria. Vive a autossabotagem, fuge ou ignora a individuação. É natural perceber muita acomodação, apatia, racionalismo. Vive-se pouco e se justifica muito. Há pessimismo e reclamação, e as coisas não dão certo e o autoboicote transforma, sistematicamente, uma pessoa com talento em um ser sem expectativas.

O que farei quando tudo der certo e a vida estiver tranquila? Reclamar demais, rabugice, pessimismo, excesso de crítica atrapalham a vida. Hoje temos de ensinar pessoas a se divertirem, a se soltarem, a sorrir e a viver. É assustador.

Existe uma legião de pessoas embotadas, que não sabem o que querem da própria vida. Estão perdidas ou focadas em superficialidade, o que a médio prazo é desastroso. É natural atender em consultório jovens e adultos que viraram um problema familiar por que não sabem o que querem da vida… iniciam três cursos superiores e não terminam nenhum. Têm inaptidão para o trabalho, vivem cansados, sem força de vontade.

“Hoje temos de ensinar pessoas a se divertirem, a se soltarem, a sorrir e a viver. É assustador.”

Outro medo da pós-modernidade é o de se relacionar. Paradoxalmente vivemos na era da comunicação, mas muitas pessoas reclamam de isolamento e solidão. A vida virtual gerou extrema paranoia e os poucos contatos físico e pessoal têm gerado vários casos de pessoas com enorme dificuldade de se socializar e de se envolver. Fazer amigos, conviver em família, namorar, se permitir a ter experiências, manter vínculos e uma vida social sadia têm sido aventuras épicas. E poucos se jogam nelas.

Há muitas pessoas travadas que criam desculpas, fogem do convívio social. Preferem fi car em um quarto assistindo a séries. Dizem ‘prefiro animais a pessoas’. E é notório o empobrecimento gradativo da socialização nos tempos de hoje. Ainda há o aumento da falta de educação, cordialidade, gentileza, carinho e tudo que deveria fazer parte da nossa humanidade. Vivenciamos uma violência diária, simbólica e sistêmica, que tem gerado um enorme medo de envolvimento. As pessoas tentam se proteger e acabam paralisadas para a vida.

Jorge A. Monteiro de
Lima é analista, pesquisador
em saúde mental, psicólogo
clínico e mestre em
Antropologia pela UFG
Foto: Divulgação

 

 

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