Césio 137 | Ainda não acabou

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Personagem decisivo para o fim do ciclo do acidente, Geraldo Guilherme conversou, 30 anos depois, com Carla

Daniela Martins

Depois de três décadas do acidente e 10 anos da primeira publicação, jornalista lança edição ampliada de sobreviventes do césio. Livro desenha rostos, eterniza as memórias dos protagonistas e busca verdades que se esvaem por trás dos números da tragédia radioativa

Letras e fotografias em um só tom. No mesmo azul que deslumbrou, naquele setembro de 1987, as pessoas que viram o pó radioativo brilhar no escuro. A cor marcaria tragicamente essas vidas. Para sempre. É emblemático o tom nas páginas do livro-reportagem Sobreviventes do Césio 137, da jornalista goiana Carla Lacerda, que será lançado nesta quinta-feira, 9, às 19h, no Coruja Café. É a segunda edição, revista e ampliada, publicada pela Nega Li Editora e Selo Eclea.

Na apresentação do livro, a jornalista Larissa Mundim, da Nega Li, ressalta que a segunda edição cumpre a função de atualizar e redimensionar uma história que, enfatiza, ainda não terminou. “Três décadas se passaram e, somente com distanciamento no tempo e espaço, nos será permitido compreender aspectos relevantes que estão vindo à superfície, à medida que esse terrível desastre radiológico ocorrido no planeta Terra vai ganhando contornos mais humanizados”, observa.

Uma das sombras que permanecem na memória do Césio 137 é a relação causal do acidente com os casos de mortes por câncer de pessoas vítimas diretas e indiretas da tragédia, ao longo desses 30 anos. Os dados informados oficialmente pelo governo do Estado, em três datas que marcaram a tragédia, são inconsistentes.

Em 2007, quando o acidente completava 20 anos, o Estado falava em 12 óbitos desde 1987. Pouco depois, nos 25 anos, esse índice teria subido para 15. Em 2017, na coletiva sobre os 30 anos, o número divulgado surpreendeu quem, como Carla, acompanha a história do Césio 137. Nesse último dado, o Estado considera que seriam apenas 6 mortes. Essa dúvida está no livro, faz parte da parte técnica sobre o acidente radioativo.

Mais que Números

Humanizar a história do Césio 137 é a peculiaridade da obra de Carla Lacerda, uma escrita permeada pelo jornalismo literário (JL). “A partir desta base conceitual e técnica, recontei o trágico episódio do acidente sob o ponto de vista das vítimas”, explica a jornalista. O livro Hiroshima, de Johyn Hersey, considerado marco do JL moderno, inspirou a produção do conteúdo inédito que marca esta segunda edição de Sobreviventes do Césio 137.

Em Hiroshima, Hersey reconstitui o dia da explosão da bomba atômica que matou 100 mil pessoas na cidade japonesa, tudo a partir do depoimento de seis sobreviventes daquela agosto de 1945.

Por aqui, Carla fez o mesmo. Com três personagens do maior acidente radioativo em área urbana no mundo, ela reconstituiu o dia em que a cápsula de césio foi retirada de um aparelho utilizado para tratamento de câncer. O tal aparelho foi encontrado por dois jovens em um terreno baldio onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), área que hoje abriga o Centro de Convenções de Goiânia.

A primeira versão de Sobreviventes do Césio 137 data de 2007, quando Carla Lacerda era repórter do jornal Hoje. Ela recebeu do editor Edmar Oliveira a proposta de fazer uma série de reportagens sobre os 20 anos do acidente. Mergulhou em pesquisas, em reportagens até então publicadas e escolheu seu caminho: contar a história sob o ponto de vista de Lourdes das Neves, Odesson, Wagner Mota, Marli da Costa, Maria Badia e outras vítimas, as protagonistas da tragédia.

Nesta segunda edição, Carla contou com a colaboração do jornalista Yago Sales, que incentivou a releitura de Sobreviventes. Yago assina um dos making of do livro, que tem ainda o prefácio do jornalista e documentarista goiano Vinicius Sassine.

“É preciso saber ouvir, ter empatia”

Tribuna do Planalto – O que o leitor pode esperar desta reedição? Tem personagem novo, história inédita?

Carla Lacerda – Sim, uma das novidades é o depoimento do Geraldo Guilherme, uma das vítimas e quem levou, junto a Maria Gabriela, esposa do Devair, a bomba de Césio até a Vigilância Sanitária, de ônibus, dando fim ao ciclo do acidente. Na época dos 20 anos do acidente, tentei encontrá-lo. Não consegui e relatei isso no livro. Agora, ele mora em Goiânia e nos deu um depoimento que é riquíssimo em detalhes. O livro é uma edição revista e ampliada. Há várias melhorias, a começar pelo processo da escrita, com um amadurecimento meu como autora. Nessa edição, começamos com uma grande reportagem no estilo do jornalismo literário, concatenando as histórias de três personagens centrais: Odesson, Dona Lourdes e Wagner, um dos rapazes que encontraram o aparelho no lote abandonado. A partir dos três relatos, é construída a narrativa de como ocorreu o acidente com o Césio. Já a segunda parte é uma reedição do conteúdo lançado em 2007, as histórias dos personagens com as atualizações necessárias. Mais novidades são as partes de informações técnicas, em que mostramos as inconsistências nos relatórios de óbitos por câncer entre as vítimas do Césio. Também vale destacar o making of e a colaboração que o jornalista Yago Sales deu nesta reedição.

Qual a sensação de conhecer de perto, tão profundamente, a história das vítimas do Césio?

Sinto-me privilegiada pela oportunidade de contar a história do césio 137, um acidente que teve dimensões e consequências mundiais. Escolhi contar sob o ponto de vista das vítimas porque é importante resgatar a história oral, a memória. No jornalismo, nós ficamos muito presos a fontes oficiais, aos especialistas. É importante dar publicidade a memórias, sentimentos e pensamentos das vítimas, que são testemunhas involuntárias dessa tragédia.

Essa experiência mudou você de alguma forma?

Com certeza. Mudou a Carla aos 26 anos, quando escrevi a primeira edição e me mudou agora, aos 37. Não tem como você passar por uma história dessas sem ser sensibilizada, sem tentar se colocar no lugar e pensar ‘e se eu tivesse acontecido comigo, e se eu tivesse sido uma vítima direta, se tivesse a minha vida completamente virada ao avesso?’. A primeira parte do livro se chama ‘Duas vidas em uma’, que foi uma fala do Odesson, tio da Lady das Neves. É como ele descreveu seu sentimento: existe uma vida antes do acidente, e essa vida depois. Uma vida com tudo o que eles tinham antes, e não só coisas materiais, mas a própria memória, documentos, fotos de valor afetivo… tudo foi perdido pelas vítimas. E tem essa vida depois, o preconceito que a gente sabe que existe. E eles sem ter voz ativa. Então sempre tento me colocar no lugar e pensar como seria se eu estivesse no centro de tudo isso. Saber escutar o próximo e ter empatia são exercícios muito grandes que nós jornalistas devemos perseguir diariamente.

Tem alguma história, algum relato, que tenha lhe tocado mais?

Todos os relatos me tocaram bastante. Esse processo de apuração, quando você faz uma imersão na história dos personagens, isso mexe muito com você. Eu me recordo, na primeira edição, durante as reportagens, que eu dormia e acordava pensando no acidente, nas entrevistas e sonhava com tudo isso. É um processo de ebulição emocional muito grande, tanto na primeira quanto agora na segunda edição. Todas as histórias me tocaram, considero todas histórias singulares.

Por que conhecer e perpetuar a história de vida das vítimas do acidente do césio 137?

É muito importante conhecer e perpetuar essas histórias. Primeiro por ser uma forma de respeito às vítimas, já que a gente trabalha para que essas histórias não caiam no esquecimento. E para que não venham à tona apenas a história desse dia e os dados oficiais divulgados pelo governo, mas as recordações, memórias e sentimentos das vítimas. Que eles também possam ser perpetuados. É importante a gente difundir e divulgar a memória do acidente com o Césio para que situações semelhantes não voltem a acontecer.

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