Entrevista | “Vivemos em um Estado machista porque nosso olhar está acostumado”

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Luciene Dias – Doutora em Antropologia Social

Leicilane Tomazini – Especial para a Tribuna

As mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro. Apesar disso, são minoria na ocupação de cargos eletivos. A (falta de) representatividade feminina na política fica explícita na desproporcionalidade do número de candidatas mulheres em relação ao número de mulheres politicamente ativas, que são aquelas que estão aptas a votar e a serem votadas.

No que diz respeito aos partidos políticos, as mulheres compões 44% das filiações. Ainda assim, este número não é refletido na ocupação efetiva dos cargos políticos. Uma medida tomada para tentar reverter esse quadro de desigualdade foi a criação de cotas de gênero. Pelas cotas, os partidos devem ter, no mínimo, 30% de mulheres nas chapas proporcionais.

Em Goiás, apenas alguns nomes de mulheres aparecem na lista de candidatos às eleições de 2018. Disputando o governo, apenas duas (leia mais na página 5). Nesta entrevista, a doutora em Antropologia Social Luciene de Oliveira Dias, que trabalha com pesquisas sobre relações de gênero, fala sobre a participação da mulher na política. Ela chama a atenção, entre outros pontos, para as raízes do patriarcalismo brasileiro e seus reflexos nos fatos e debates de hoje.

Tribuna do Planalto – As chapas que disputarão as eleições ao governo de Goiás contam com poucos nomes femininos. O que explica essa baixa representatividade das mulheres no cenário político?

Luciene Dias – A política em Goiás é resultado de um processo de desenvolvimento e ocupação do Estado conhecido como coronelismo. É um processo histórico que não foi superado totalmente quando discutimos ideologia e imaginário. Pensando a partir da lógica de dominação, é coerente a baixa representatividade feminina, o que não significa que isso seja bom. Essa situação é péssima. Nós mulheres somos a maior parte da população. Precisamos vencer e superar esse processo de dominação histórica que coloca a mulher na base das relações de poder e não no ponto alto. É necessário que as legendas, por exemplo, tenham como ponto de pauta a participação feminina no processo eleitoral, não só para cumprir a lei, mas para superar uma política em que o homem manda e a mulher obedece. Precisamos de um processo de educação cotidiana, forte. Dependemos de ações estratégicas que garantam a representatividade. O fato é que o nosso olhar fica mal acostumado, não estamos habituados a ver mulheres em cargos políticos. Vamos reproduzindo essa história e acabamos sendo coniventes com o machismo. Muitas vezes até sendo machistas mesmo.

O fato da chapa majoritária de Ronaldo Caiado ser formada só por homens. Isto pode afetar o resultado das eleições em um momento que se discute a maior presença da mulher na política?

O senhor Ronaldo Caiado representa muito bem essa estrutura de poder que foi colocada em Goiás. Ele é um homem branco, rico e reproduz essa política há décadas no Estado. Para responder a essa questão, tenho de me colocar na condição de eleitora, aguçar o meu olhar para o que as chapas estão me dizendo e para o meu lugar cotidiano de fala. Se estou em um Estado em que a maior parte da população é formada por mulheres que, muitas vezes, chefiam famílias, criam sozinhas seus filhos, o que justificaria eu votar em uma chapa que em nada me representa? Votar em pessoas que não conseguem ser espelho de mim, que não conseguem me fazer acreditar que o poder é também um lugar possível para mulheres? Vivemos em um Estado machista porque o nosso olhar está acostumado. Quando falo nosso, estou falando de absolutamente todas as pessoas. Temos uma educação orientada para a manutenção do poder na mão dos homens. Como eleitoras, temos de acreditar que a diversidade é uma coisa boa, uma chapa diversa consegue implicitamente dizer, e até mesmo explicitamente, que ela respeita as diferenças, e consegue diversificar pautas. Uma chapa composta só por homens jamais irá conseguir alcançar algumas pautas que dizem respeito exclusivamente às mulheres. Da mesma forma acontece com chapas que são compostas só por pessoas brancas. Jamais irão conseguir fortalecer pautas que não lhe dizem respeito. O olhar é único, é histórico. O nosso olhar sobre o mundo é resultado de todo processo que vivemos, das relações familiares, afetivas, sexuais. Em um país machista, conquistamos um olhar muito especifico sobre relações de poder, um olhar que pode revolucionar. A concepção de poder para quem não ocupa o espaço de poder é diferente, e sendo diferente, novas pautas podem surgir. Só quem sofre violência doméstica sabe que algumas políticas que estão colocadas não funcionam. Só quem sofre estupro sabe das consequências disso numa vida. É lamentável que uma chapa composta exclusivamente por homens ameace a democracia de Goiás.

A violência doméstica não tem sido muito discutida pelos candidatos nesse início de campanha política. Seria diferente se mais mulheres participassem dessa eleição?

Representatividade é tudo. Imaginemos uma situação em que eu já tenha sofrido violência doméstica e você não. Nós duas nos sentamos numa reunião para elaborar políticas públicas de combate a este tipo de violência. Minha voz pode não ter a expertise da jurisprudência, das ciências humanas e sociais, mas é a voz da experiência. É uma voz que tem que ser ouvida com uma atenção muito especial. A voz da experiência é fundamental nesse caso específi co da violência doméstica para garantir a vida das pessoas. Política pública só vai conseguir efetivamente provocar mudança, se tivermos representatividade na tomada de decisão. Sem mulheres na política, é praticamente impossível superar a violência doméstica, já que ela atinge os corpos femininos.

A lei estabelece cotas para candidaturas femininas e o percentual de filiadas a partidos chegou a 44%, índice que não se espelha nos cargos políticos. Essa divergência está associada à falta de voz ativa das mulheres dentro dos partidos?

De forma alguma! Não acredito que essa diferença tenha relação com a falta de voz ativa das mulheres. Essa divergência tem relação com a forma que os próprios partidos elaboram suas estratégias de representatividade. Muitos partidos políticos fazem chamada em massa, porque compreendem a cota como número e não como representatividade, e é lógico que muitas mulheres aceitam desempenhar esse papel. Mas elas aceitam porque estão dentro de um sistema de poder que faz com que elas hajam dessa forma. Generalizando mesmo, pensando em partidos de centro, esquerda e direita, muitas mulheres têm uma atuação muito digna em termos de representatividade dentro dos partidos. Elas estão atuando cotidianamente. Essa falta de representatividade no poder faz parte de uma forma histórica com a qual conduzimos o poder e a política, não podemos culpabilizar a mulher por essa situação. Nem todos os homens estão na política, nem todas as mulheres precisam estar. A cota é fundamental para garantir uma representatividade mínima. Mas o processo histórico demanda tempo, temos que educar homens e mulheres. As cotas entram como medida imediata, e quando preenchidas, mesmo que de forma mínima, fomentam o debate. Falando em termos de filiação e não de candidatura, o preenchimento dessas cotas diversifica o espaço. Se antes uma composição partidária feita única e exclusivamente por homens possibilitava que uma piada machista fosse colocada, provocasse o riso e morresse por si, agora isso não é mais possível, o próprio constrangimento gera o debate. Já temos, historicamente, muitas candidaturas masculinas, “agora eu quero, vou pela minha pauta que é a pauta feminina”.

Há ao menos 40 propostas no Congresso Federal que tratam de uma maior participação feminina na política partidária e na administração pública. Por outro lado, a ascensão de algumas mulheres está vinculada a políticos tradicionais, por laços familiares. Que prejuízos isso traz à expressão política das mulheres?

É uma ameaça à representatividade, é um processo de silenciamento. É como se as mulheres estivessem sempre à sombra dos homens. É um modelo que o patriarcalismo impôs e que silencia, inviabiliza e prejudica a luta feminista. É como se as mulheres não tivessem conquistado ainda autonomia sufi ciente para construírem suas próprias vidas. E isso vai além da carreira política. Só posso construir minha vida se houver um homem ao lado? Podemos pensar isso nas nossas relações familiares. O pai determina qual caminho a filha irá seguir, depois o namorado, o marido… O movimento sufragista, por exemplo, exige que as mulheres, muitas vezes, abram mão da vida doméstica e familiar para levantar a bandeira do sufrágio universal. Quando fazem isso, elas são taxadas de não defensoras da moral e da família. Ao receber essa pecha, elas têm a sua integridade de vida dificultada. Esse movimento de acompanhar o caminho imposto pelos homens, seja na família, no círculo de amizades, é totalmente prejudicial à democracia, mas principalmente prejudicial ao movimento das próprias mulheres pela conquista da sua autonomia e liberdade. Uma mulher que precisa de um homem para existir politicamente, ideologicamente, não é uma mulher plena, completa. Ela não consegue se enxergar como um ser pleno. É uma luta cotidiana por conquista de espaços.

Primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff sofreu impeachment e muitas críticas. Qual a mensagem desses fatos sobre a presença feminina na política?

A maior parte das críticas populares infundadas, e não estou fazendo uma defesa ao governo Dilma, são expressões da misoginia nacional. Não falo de teses, dissertações e pesquisas, estou falando da vida cotidiana, o que se ouve nos corredores, nas ruas. A maior parte das críticas que foram impostas ao governo Dilma, principalmente durante o processo que a retirou do poder, são expressões da intolerância em se ter uma mulher no posto de maior poder desse Estado. Nós, enquanto nação, ainda não conseguimos conceber isso, e essas críticas não passam pela competência e pela execução. Quando se critica um homem no poder, por exemplo, as críticas dizem respeito ao cargo. No caso das mulheres, a responsabilidade é devolvida a elas. A ex-presidente Dilma teve sua vida sexual questionada, assim como a estrutura familiar que construiu ao longo da vida. Quando a mulher está no poder, se faz uma associação imediata ao emocional, à fragilidade e à incompetência. Infelizmente, ter a presença de uma mulher no cargo de maior poder, foi um momento para que o país manifestasse toda a sua misoginia e intolerância.

O candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, foi rotulado como machista após comentários a respeito das mulheres. Como um candidato assim influencia na conquista de espaço político pelas mulheres?

Ele pode interferir quando vende o discurso da honestidade, porque competência ele não tem. Nas próprias falas, Bolsonaro admite isso quando não discute saúde e educação. Ele ameaça quando se legitima no lugar de poder. Em uma de suas entrevistas, ao ser interrogado por uma jornalista, ele fala que ela é mulher, que tem sexto sentido e sabe que ele não rouba. Vamos pensar no Supremo Tribunal Federal, ele usaria sexto sentido para identificar falcatrua? Não! Por que o candidato fala isso para uma mulher? Porque sabe que quando devolve o emocional como lugar de fala, ele a fragiliza, impõe-se enquanto macho, e vai reproduzindo esse discurso ad infinitum. Ele prejudica à medida em que grita. O grito é uma marca do patriarcalismo. Bolsonaro fala de uma forma muito imposta, inclusive com jornalistas durante entrevistas, e isso oprime! Fui jornalista por 14 anos, e se alguém gritar comigo em uma entrevista, eu tremo, fico nervosa, perco o raciocínio. E não é porque sou mulher. É porque sou um ser humano! E o patriarcalismo impõe que essa reação de fragilidade é exclusiva das mulheres.

Manuela D’Ávila, do PCdoB ganhou visibilidade como pré-candidata à presidência. Hoje é vice na chapa petista. Essa mudança pode ser encarada como algo negativo?

Se a Manuela D’avila estivesse em outro partido, que não tivesse selado acordo com o PT, como fez o PCdoB, penso que essa discussão seria mais complexa, mais profunda. Como a Manuela desde o início já sabia que seria candidata, mas que o PCdoB já havia selado esse acordo, vejo esse movimento dela como esperado, como respeito à união entre partidos. Em termos de representatividade feminina é lógico que é uma perda! Gostaria de ver várias mulheres encabeçando as chapas para presidência da República, mas devemos respeitar os processos. Não são todas as mulheres que têm essa coragem de expor seu corpo, sua vida, sua família. A Kátia Maria, candidata ao governo de Goiás, é um exemplo de uma mulher extremamente corajosa. Ela está na linha de frente contra Ronaldo Caiado, que representa tudo de conservador e reacionário que Goiás tem. Acredito que a Manuela D’Ávila deu uma contribuição muito grande para o movimento. O mesmo caso se aplica a Janaína Pascoal, que foi convidada por Jair Bolsonaro para ser sua vice, e abriu mão por outras razões.

Manuela D’Ávila foi interrompida diversas vezes pelos entrevistadores durante o “Roda Viva”, da TV Cultura. Esse episódio é regra ou exceção no dia a dia das mulheres?

É uma regra! O que aconteceu com a Manuela D’Ávila no “Roda Viva” é uma expressão do que acontece todos os dias na vida de qualquer mulher nesse país. Nossa fala é deslegitimada, é interrompida, é desmerecida o tempo todo. No rádio, nós que somos da comunicação, isso foi feito por justifi cativa técnica. A nossa voz não tinha a impostação adequada até pouquíssimo tempo. A voz era considerada pouco grave, mas o que é o pouco grave? Algo associado ao histérico? Algo que não merece ser ouvido? Manuela D’Ávila reagiu por diversas vezes durante a entrevista, chegou a falar que os entrevistadores gostam mais de falar do que a entrevistada. Mas a própria reação não é validada. É mais uma pecha sobre o corpo feminino que não acontece com o masculino. A entrevista do Boulos, por exemplo, que tem uma voz bem linear, mas uma voz de homem, não foi interrompida! Até mesmo com relação às perguntas há diferenciação. As perguntas direcionadas a Manuela eram relacionadas à família, estética, idade, tipos de questionamentos que não se costuma fazer aos homens.

O candidato à presidência Geraldo Alckmin tem como vice Ana Amélia do PP. Nas palavras do candidato, a senadora gaúcha representa empoderamento. Mas sua escolha da vice é uma tentativa de alcançar o eleitor conservador. O que essa união entre representatividade feminina e conservadorismo pode representar na luta pelos direitos da mulher?

A decisão do Alckmin é a decisão que muitos partidos têm tomado quando falamos de representação feminina. Por exemplo, o PP em Goiás busca uma representatividade, que na fachada estampa o que a mulher sempre representou para a política partidária, que é a estética, a beleza. Quando os partidos políticos no Brasil são obrigados a cumprir cotas, a busca que fazem pelas mulheres não é desinteressada. Faz parte de uma forma de compreender as relações de gênero no país. Quantas mulheres com deficiência esses partidos colocam? Quantas mulheres negras? Mulheres pobres? Mulheres lésbicas, com uma estética fora do padrão heteronormativo? Eles não as colocam porque o imaginário nacional nos convenceu que existe um tipo de mulher que, compondo um partido, uma chapa, vai reproduzir o ideal. Essa chapa é uma representação da família tradicional brasileira, um modelo que não fala por todos, não alcança todas as pessoas. Nosso dia a dia é muito mais complexo que isso. Não dá para falar dos estereótipos e desconsiderar tudo que a mulher fez e faz para chegar onde está.

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