Entrevista | Educação se faz com professores motivados e alunos comprometidos

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Foto: Divulgação

Maria José Rodrigues

Servidor efetivo da rede estadual de ensino desde 1999, o novo superintendente executivo de Educação da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce) conhece bem a realidade de uma escola pública da periferia. Também sabe na prática todos os desafios enfrentados no dia a dia por um gestor educacional. Justamente por isso sua indicação para um dos cargos mais importantes da Seduce foi vista com alegria e muito otimismo por coordenadores regionais, professores e gestores educacionais. Formado em História e Pedagogia, Marcelo Ferreira de Oliveira começou a carreira de educador como Pró-Labore (hoje chamado de contrato temporário), foi aprovado em concurso público, trabalhou como coordenador pedagógico e de turno e, em seguida, foi eleito diretor escolar, função que exerceu durante quatro mandatos. À frente do Colégio Estadual Edmundo Rocha, na Vila Mutirão, ele se destacou pelas diversas ações que desenvolveu para resgatar a credibilidade da escola, trazer de volta os alunos que haviam abandonado os estudos e conquistar a confiança da comunidade. A determinação de transformar a realidade da instituição de ensino deu certo e chamou a atenção do então secretário de Educação, Thiago Peixoto, que o convidou a assumir a Subsecretaria Metropolitana de Educação, cargo que ocupou até julho deste ano, quando assumiu a Superintendência Executiva de Educação.

Tribuna do Planalto: Quais são as prioridades e metas do senhor nesta nova função?

Marcelo Ferreira de Oliveira: Dar sequência a todo trabalho que já vem sendo desenvolvido. Esta superintendência é um lugar complexo, por onde passam todas as políticas, programas e projetos em execução na rede pública estadual. Nosso trabalho é acompanhar e executar toda a demanda. Dentro do possível, tentaremos também dar mais agilidade às ações de forma a fortalecer a gestão escolar. Não é fácil, mas acredito ser possível “destravar” a burocracia e atender as necessidades das escolas com mais rapidez.

O que seria possível destravar?

Às vezes um mobiliário ou equipamento… Coisas que já foram adquiridas e já podiam estar na escola para atender alunos e professores e, por conta da burocracia, ainda não estão.

O governo tem investido na construção de escolas padrão século 21, com boa estrutura física, mas avanços na qualidade do ensino passam também por outros caminhos. Como superintendente, o sr. concorda?

Já estamos olhando isso faz tempo. Sabemos que a estrutura é importante e as escolas padrão século 21 demonstram o quanto é fundamental termos espaços adequados para aprendizagem, pois isso potencializa a capacidade do professor de ensinar e do aluno aprender. Entretanto, temos consciência de que isso não é tudo; é apenas uma das muitas dimensões do processo de ensino e aprendizagem. O que verdadeiramente contribui e fortalece esse processo são professores motivados e alunos comprometidos. Gerar essas duas situações é um desafio imenso, mas, na escola onde isso existe, o aprendizado flui maravilhosamente bem. Precisamos também da participação dos pais. Professor, aluno e família representam três personagens extremamente importantes para o processo se dar de maneira adequada. Minha experiência me mostrou que a qualidade do ensino se faz com prédio bacana, com professores motivados e bem formados, com alunos comprometidos e famílias participativas.

Na prática, como seria possível estimular a motivação do professor e o comprometimento do estudante?

Criando um bom clima escolar e dando os recursos necessários para o diretor adquirir os bens necessários para que o professor possa desenvolver bem seu trabalho. O professor que recebe a formação adequada, que está em constante aprendizado, é capaz de transformar seus conhecimentos em aprendizado para seus alunos, pois ele passa a ser o mediador da aprendizagem. É esse professor que garantirá que a escola seja forte do ponto de vista do aprendizado.

Historicamente a motivação para os professores está relacionada a salários melhores. Goiás, recentemente, deu um reajuste à categoria. Podemos esperar bons resultados educacionais ao longo dos próximos anos? Que outros fatores motiva um professor?

Claro que a remuneração salarial é importantíssima, mas junto com ela precisamos dar outros incentivos. Isso inclui melhorar a credibilidade da profissão, criar um clima escolar adequado e fortalecer a figura do professor. O reconhecimento do trabalho dos professores pela Secretaria da Educação, pela comunidade escolar e pela sociedade é fundamental para avançarmos. Precisamos fortalecer a imagem do professor, porque, ao longo dos anos, nossos profissionais foram sofrendo perdas consideráveis não só salariais como também na credibilidade. Felizmente em Goiás, nos últimos 20 anos, a Secretaria de Educação começou a perceber a necessidade de desenvolver ações nessas duas pontas: valorização financeira e restauração da importância do trabalho do professor. Isso contribui bastante para que a sociedade volte a ver o professor como figura essencial para o desenvolvimento do Estado e do país em diferentes aspectos.

Seria trabalhar para recuperar a autoestima do professor?

Exatamente. Melhorar a autoestima dos profissionais é uma tarefa da Secretaria da Educação e não do diretor ou da diretora da escola apenas. É uma tarefa que envolve esforços da própria instituição, do poder público e da sociedade, pois todos lucram com a restauração da imagem do professor. Felizmente isso vem avançando em Goiás. Temos muitos desafios pela frente, mas o professor vem alcançando conquistas constantes ao longo das duas últimas décadas tanto do ponto de vista financeiro quanto da credibilidade da profissão.

Quais são as principais qualidades de um bom diretor de escola?

Primeiro ter compreensão plena da função social da escola e trabalhar em função disso. O diretor que tem esse entendimento tem grandes chances de fazer uma boa gestão, já que reconhece que a escola deve ser um espaço de oportunidades para as crianças, jovens e adultos que ali estão. Com essa compreensão, ele vai desenvolver um trabalho técnico com foco no pedagógico. O bom diretor é aquele que se preocupa em encontrar diferentes formas para que o aluno aprenda e conquiste sua autonomia; que se ocupa em estar envolvido com os professores, alunos e pais, buscando criar condições para que o aluno alcance o aprendizado.

Por muito tempo, o trabalho do diretor priorizava a parte administrativa em detrimento do pedagógico. Isso vem mudando?

Felizmente, sim. Hoje temos consciência de que o diretor que gasta mais tempo preocupado com a área administrativa tende a ter a gestão fracassada porque a escola é um espaço de aprendizagem e, se o aluno não aprende, a gestão é falha. Ao contrário, na escola onde o aluno aprende, a gestão é de sucesso. O bom diretor é aquele que está completamente envolvido com o processo pedagógico; é óbvio que ele terá que se dedicar também às demandas administrativas, mas também precisa estar atento para buscar a aproximação da comunidade com a escola e vice-versa, porque a escola também precisa estar presente na comunidade.

O perfil da função de diretor então mudou nos últimos anos?

Mudou muito. O diretor de hoje precisa dominar todas as dimensões da gestão escolar, mas tendo clareza de que o principal aspecto é o pedagógico. Se ele entender isso, direcionará melhor o dinheiro enviado à escola, organizará melhor o espaço físico, potencializando a capacidade do professor de ensinar e também criará condições favoráveis à aprendizagem do aluno. O gestor educacional que tem o pedagógico como prioridade terá, sem dúvida nenhuma, uma gestão de sucesso.

O sr. tem uma carreira profissional na rede estadual como professor e gestor. Isso facilita seu trabalho no cargo de superintendente executivo de Educação?

Acredito que sim, pois conto com credibilidade e confiança para realizar meu trabalho. Existe uma confiança muito forte que, aliás, é recíproca. Por ter sido diretor por quatro mandatos, sei bem das dificuldades de estar à frente de uma escola pública e do compromisso que esses professores e diretores têm com suas comunidades. Se não fossem pelo trabalho dessas lideranças, estaríamos numa situação muito delicada. Hoje, na rede pública estadual, estamos em um momento que chamo de maturidade: maturidade pedagógica e administrativa.

O que significa essa maturidade?

Que os diretores estão cada vez mais preocupados em aprender, em se capacitar, em apresentar resultados de aprendizagem. E não são resultados meramente quantitativos, são qualitativos. Por eu ter passado por todo esse processo, todos eles têm a clareza de que estou falando do que eu conheço, que estou falando da minha vivência profissional. A comunicação é mais fácil e essa dinâmica de bom relacionamento entre os profissionais e a secretaria fortalece muito a escola em si. Tem, inclusive, uma pesquisa recente que mostra um cenário nacional diferente, onde a escola diz não confiar nas políticas executadas pelas secretarias de educação. Essa visão é fruto de um passado onde, durante muito tempo, quem geriu as secretarias não tinha nenhuma experiência prática de gestão escolar. Há muito tempo Goiás tem feito isso de forma diferente, colocando em cargos administrativos pessoas que realmente entendem de educação, seja na função de secretário ou nas superintendências, gerências e coordenações regionais. Isso é um fator que facilita muito a relação da secretaria com as escolas. É inegável que existem conflitos, mas essa relação direta e de confiança contribui bastante para bons resultados.

Ocorreram eleições diretas para diretores na rede estadual recentemente com predominância de candidatos na disputa pelo segundo ou terceiro mandato. Que avaliação o sr. faz disso?

Esse processo eleitoral, totalmente democrático, permitiu o surgimento de novos líderes educacionais e também fortaleceu o trabalho daqueles que já vinham desenvolvendo gestões de sucesso. Considero que foi um processo eleitoral mais completo que possibilitou o reconhecimento e a valorização das boas experiências. Também tivemos aqueles gestores que, frente a regras mais duras, não alcançaram os resultados educacionais esperados e não puderam disputar novamente o cargo e tivemos ainda aqueles que não foram aceitos pela própria comunidade.

Pelas regras, então, o diretor que não obteve os resultados esperados em sua gestão não pode se candidatar?

Sim. Se a gestão dele não foi de sucesso, com base em alguns indicadores, ele nem podia concorrer novamente ao cargo, mas houve casos também em que o diretor até que alcançou bons resultados, mas não tinha uma boa relação com a comunidade educacional e não foi reeleito por ela. Então hoje, na rede pública estadual, não basta ter bons indicadores de qualidade, é preciso ter uma boa relação com a comunidade, que está cada dia mais participativa no cotidiano das escolas.

Marcelo Ferreira de Oliveira Superintendente executivo de Educação (Seduce) Foto: Divulgação

“Hoje não basta bons indicadores de qualidade, é preciso ter boa relação com a comunidade”

 

 

 

O ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, afirmou há poucos dias que a BNCC deve focar também mudanças na formação dos professores. Em que aspecto é preciso avançar?

Se não avançarmos nesse campo ficará muito difícil garantir a execução da Base Nacional Comum Curricular e o próprio avanço na qualidade do ensino na rede. Há algum tempo já temos na secretaria equipes discutindo e estudando novos formatos e um novo modelo de formação continuada. Contamos com a contribuição do Conselho Estadual de Educação e entendemos que a Base, por si só, não resolverá os desafios que temos pela frente. O novo modelo de Ensino Médio exigirá muito dos atuais professores, que precisam estar preparados e bem qualificados. As superintendências de Ensino Fundamental e de Ensino Médio da Seduce já têm todo um trabalho de construção de um novo modelo de formação dos professores.

A BNCC discute alterações no currículo do Ensino Médio e antes disso tivemos a reforma proposta pelo MEC. Qual deve ser a nova ‘cara’ do Ensino Médio brasileiro?

A reforma do Ensino Médio atende perfeitamente os anseios desse novo modelo. Mas Goiás foi um Estado que saiu na frente com experiências muito bacanas já em execução. Esse novo formato do Ensino Médio precisa entender que o jovem é um ser único, que tem direito a construir o seu futuro com liberdade e autonomia. Nesse sentido o protagonismo juvenil e o projeto de vida, disciplinas eletivas das escolas de tempo integral na rede, são uma grande sacada. O papel da escola deve ser o de mediar, respeitar, orientar e facilitar as escolhas de nossos jovens. Só assim o Ensino Médio estará mais conectado com o modelo de jovem que temos hoje.

Isso inclui o Ensino Médio técnico profissionalizante?

Sim, até porque a educação profissionalizante é um dos eixos principais da reforma. Na minha opinião essa foi uma das maiores sacadas da proposta do novo Ensino Médio, porque esse é um caminho já trilhado por outros países que já contam com um bom sistema público de ensino e no Brasil o ensino profissionalizante continuava sendo visto com certo preconceito. Felizmente, a reforma propõe esse novo olhar e caminho, permitindo que a rede pública possa praticá-la de uma maneira ampla.

Há mais de duas décadas a Tribuna do Planalto promove o concurso Goiás na Ponta do Lápis. A Secretaria de Educação é uma parceira importante nesse projeto. Qual a sua opinião sobre o tema deste ano, que é inovação?

Conheço esse concurso desde o início e o conheço de uma maneira muito ampla porque pude participar como professor, coordenador pedagógico, diretor, subsecretário e agora como superintendente executivo. Para mim, sem dúvida alguma, esse projeto pedagógico do jornal é muito significativo porque tem começo, meio e fim quando a maioria de iniciativas semelhantes só começam e nunca terminam. Nessa iniciativa, as escolas são parceiras, os professores participam, os alunos se envolvem, produzem seus trabalhos e depois comemoram os resultados e são premiados pelo esforço. O Goiás na Ponta do Lápis é algo que contribui, que agrega valor e que ajuda na formação dos estudantes.

E sobre o tema do concurso?

Foi uma escolha formidável porque estamos vivendo a era da inovação e inovar é essencial. Quem não inovar ficará para trás. E discutir isso com os alunos é abrir as possibilidades deles pensarem além, de buscarem soluções criativas, caminhos mais adequados para os conflitos, propor coisas novas para resolver velhos problemas. Todos os temas propostos por esse concurso são instigadores e promovem reflexão. A cada ano, como educadores, precisamos sentar, planejar e pensar como iremos inserir o tema proposto nas discussões e deixar os alunos problematizarem. Eles discutem, debatem e produzem não só redações como também feiras científicas e até mostras artísticas e culturais com foco na temática do ano. O tema do concurso adentra o nosso planejamento escolar e contribui muito significativamente para a melhoria da qualidade do ensino.

O senhor integrou a equipe da ex secretária Raquel Teixeira como subsecretário Metropolitano. Como avalia o trabalho feito por ela na Seduce?

Foi um trabalho de excelência. A professora Raquel é uma grande líder, muito preocupada com a qualidade do ensino e focada no papel da escola e da educação. Muito inovadora, criativa e sensível às demandas. Muito articulada, moderna e, sem dúvida nenhuma, grande parte dos bons resultados que alcançamos nos últimos anos está vinculada à gestão dela, que deu importantes contribuições nesse sentido, especialmente nessa última gestão. Raquel Teixeira hoje é um dos nomes mais importantes no cenário nacional da educação pública brasileira não somente por sua história acadêmica, mas por inovar as políticas públicas e pela determinação em realizar mudanças que pudessem representar avanços na qualidade do ensino.

Qual a sua expectativa em relação ao novo secretário, Flávio Peixoto?

As melhores possíveis. Além de demonstrar ter conhecimento da área educacional, ele também possui amplo conhecimento na parte de gestão administrativa. São duas áreas muito importantes e ele consegue unificar isso e ter uma visão macro de todo o processo. Percebo nele também uma preocupação muito grande em fazer uma gestão direcionada às escolas, tornando o trabalho da Secretaria de Educação mais efetivo nas unidades educacionais. Essa tem sido a prioridade dele, e isso é muito importante porque quando você foca a escola, você está pensando no aluno, no pai do aluno, nos professores, nos servidores e gestores. Isso na educação, porque a Secretaria ainda tem a cultura e o esporte como suas responsabilidades.

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