Entrevista | “É simbólico a primeira mulher a assumir governo ser professora”

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Foto: Divulgação

Fabiola Rodrigues, Leicilane Tomazini e Vassil Oliveira

Raquel Teixeira é nome ligado instintivamente por qualquer pessoa à área da Educação. Professora universitária, foi deputada federal por dois mandatos, já esteve à frente da Secretaria de Ciência e Tecnologia, quando implantou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), e também da Secretaria de Cidadania. Mas seu maior legado está firmado na contribuição que deu ao governo Marconi Perillo em projetos voltados à Educação nas duas oportunidades em que comandou a Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce). Em abril, deixou a Secretaria para se colocar à disposição do projeto eleitoral da base aliada ao governo, como vice na chapa majoritária ou primeira suplente na candidatura de Marconi Perillo ao Senado Federal. Indefinição que perdurou até o dia da convenção do PSDB, em 5 de agosto, quando Raquel Teixeira foi confirmada na vice de José Eliton. Agora é pé na estrada. Aos 72 anos de idade, longe de se “acomodar em casa”, como diz, quer ser a primeira mulher a assumir o governo de Goiás. Nos próximos 45 dias seu compromisso é levar o nome de José Eliton e as propostas do plano de governo à população do Estado. É o que contou à Tribuna do Planalto na entrevista a seguir.

Tribuna do Planalto: Como uma vice faz campanha?

Raquel Teixeira: Acompanhando o candidato a governador, dividindo as responsabilidades. Nesta eleição, particularmente, vou me desdobrar muito em nome do doutor José Eliton, que não pode tirar licença para fazer campanha como os outros fi – zeram. Ele não tem vice e José Vitti, que é presidente da Assembleia Legislativa, também é candidato. José Eliton vai atravessar os 45 dias de campanha governando. Ele leva isso muito a sério, seu foco é o governo. Fará campanha no intervalo do almoço, depois das 18h e aos sábados e domingos. Ele sabe que pode contar comigo. Vou me desdobrar, estando presente em mais lugares, levando o nome dele, apoiando e com muita vontade de trabalhar. Não tenho preguiça de trabalhar.

Como tentar atingir, na campanha, os 246 municípios?

Começaremos com o comício de Goianésia, que é tradicional, já virou mito. Foi assim desde o primeiro governo Marconi. Teremos esse grande comício de abertura e, a partir daí, sexta, sábado e domingo já teremos várias frentes de carreata pelo Estado. José Eliton dirige um grupo; eu, outro. Marconi, outro; Lúcia Vânia; outro; e Sabrina e Valéria Perillo, outro. A ideia é, em duas semanas, abraçar todas as pequenas cidades, motivando a população, que ainda não entrou no clima da campanha. Eles têm de ver que passou o carro. José Eliton passou aqui, a carreata passou aqui. A ideia não comício, nem parar. É chamar a atenção: ‘olha, gente, a campanha começou, estamos em campanha’. As maiores cidades terá tratamento diferenciado, com reuniões maiores, comícios. Mas há um planejamento para atingir mais de 200 municípios em 45 dias.

Como motivar o eleitor?

Infelizmente a população não está nenhum pouco ligada, o que é ruim para a democracia, que pressupõe a participação. Esse clima de desencanto é perigoso. Foi perigoso antes da Segunda Guerra Mundial, na escolha de Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello como presidentes da República. Nesse espírito de desencanto, surge um salvador da pátria, algum demagogo e depois o país ou o Estado sofre sérias consequências. A gente tem que tentar balançar e levar para o eleitor à consciência de que a omissão não é o caminho. Quem decide a vida do cidadão é a política, é quem decide quanto vou pagar de Imposto de Renda, se vou ter plano de saúde, atendimento em hospital público, escola para meu filho. Escolhe se não vai ter bandido na rua para eu poder caminhar e quanto vou pagar de gasolina. O dia a dia do cidadão, das famílias, é decidido pela política. A omissão, a descrença não são caminhos. A gente tem que entrar nela.

Vinte anos no poder também é uma dificuldade para motivar o eleitor?

É mais retórico do que fato. Os 20 anos desse grupo criaram uma nova era para Goiás. Os que são muito jovens, e já nasceram praticamente conhecendo só Marconi Perillo, não se lembram. Eu estava aqui em 98, fui convidada para fazer o plano de governo de Marconi Perillo. Fizemos um diagnóstico para definir e sugerir as políticas públicas de Educação. Naquela época, o corpo docente do ensino fundamental da primeira à quarta série era formado por 127 professores com curso superior. A maioria tinha ensino médio completo ou incompleto e ainda tinha um contingente com fundamental incompleto. Os índices de evasão e de repetência eram acima de 40%. A Educação era muito ruim. Mães faziam filas e filas para conseguir vagas nas escolas. As pessoas não se lembram disso. Outro exemplo é a Renda Cidadã, criada para se contrapor a um sentimento de humilhação que o pobre recebia porque tinha um espaço central de distribuição de cesta básica. Esse governo trouxe instrumentos de cidadania e de dignidade.

Marconi sempre teve faro e intuição política muito grande, voltados para o futuro, a modernidade. Goiás hoje se projeta como um Estado exemplar, como celeiro de alimentos, com um agronegócio, agricultura e pecuária de ponta e com uma capacidade de exportação que não tinha. Goiás é outro Estado graças às políticas públicas que o Tempo Novo implementou. É claro que as demandas agora são outras. A vida é assim, a casa da gente é assim, na hora que você acaba de pagar a geladeira está na hora de trocar o carro. Na hora que você acaba de pagar o carro, tem que trocar a televisão. O Estado é a mesma coisa. Na hora que se atende uma demanda específica, há outras surgindo. Tanto que o plano de governo que foi entregue à sociedade pelo governador José Eliton tem uma continuidade daquelas políticas todas que foram lançadas em 1999.

Quais propostas podem ser apresentadas para o avanço da Educação?

A parcelada foi importante, agora precisamos do mestrado profissional. O mestrado das maiorias das faculdades é acadêmico, para quem deseja ser pesquisador em Educação. Muito importante e louvável. Só que não atende à demanda do professor em sala de aula. Nos Estados Unidos tem uma diferença que a gente não tem no Brasil: a formação do acadêmico, o teórico que vai ser professor e pesquisador na universidade; e formação do professor para sala de aula. Vamos abrir para os professores da rede a oportunidade de fazer o mestrado como oferecemos a graduação no passado. Em relação ao aluno, hoje eles estão saindo do ensino médio porque precisam trabalhar. Eles fazem até a quinta, a nona, mas no ensino médio têm que trabalhar. Lembrando o Salário Escola, vamos ter uma bolsa para o aluno do ensino médio começando pelas escolas de tempo integral. As demandas agora são essas: socioemocional, permanência com sucesso no ensino médio, capacitação dos professores. Também propomos uma bolsa tipo “Jovem Pesquisador”, “Jovem Cientista” para estimular a iniciação à ciência, e um amplo programa de ensino de língua inglesa, estimulando o intercâmbio dos nossos alunos. Vamos avançar nessas demandas do século 21.

Qual é a estratégia para José Eliton crescer nas pesquisas?

José Eliton não é uma pessoa ainda conhecida, apesar de ter sido vice-governador esses anos todos. Foi um vice discreto e cumpriu importantes tarefas. Foi secretário de Desenvolvimento, da Segurança Pública e presidente da Celg. Onde o governador precisou, ele esteve presente e muito consciente de que o governador era Marconi Perillo. Ele não tem ainda esse conhecimento da população.

Mas o tempo é curto.

Muito curto. Vai ter que ser intensificado com os programas de televisão, com as carreatas, com os comícios, com as redes sociais. Há o problema de não conhecimento de quem ele é. Mas o mais grave é que a população não está ligada na política ainda. Esse 9,9% reflete aqueles que estão ligados. 15% da população é que está muito interessada em política. Então, o universo de quem não está nem aí é enorme. É isso que tem que ser conquistado.

O que poderia ser feito para apresentar novas propostas?

As novas propostas estão todas no plano de governo que foi apresentado. Um plano pé no chão, porque não adianta falar: ‘vou criar isso’, se não tem dinheiro. É muito fácil fazer promessa e depois não ter como cumprir. Goiás já está avançando nesse sentido. O orçamento que vai para a Assembleia Legislativa é o orçamento real, que foi instituído pela ex-secretária Ana Carla. Antes os orçamentos sempre foram peças fictícias, eram baseados no suposto crescimento que nunca acontecia. Hoje, diferentemente da maioria dos Estados, Goiás trabalha com orçamento real. Nós sabemos o que vai ter de dinheiro. Outros candidatos não têm essa informação ou não levam a sério saber exatamente o que é o orçamento real. Estão prometendo coisas que não serão cumpridas.

Esse método mais condizente com a realidade do governo não prejudica a campanha?

Estamos fazendo uma campanha e um plano de governo. O plano de governo não foi feito para ganhar a campanha. Foi feito para ter uma diretriz verdadeira de metas a serem cumpridas. Já foi assim nesse último governo. Goiás já cumpriu 87% das metas. O Brasil está mudando, o mundo está mudando e as pessoas querem o orçamento real. Os portais acompanham, o plano está registrado no Tribunal Regional Eleitoral. A maioria dos estados brasileiros está com problema de prestação de contas, de cumprimento das metas. Tem Estado que cumpriu pouquíssimo e a população está cobrando. Nós temos um plano para ser de fato implementado. O plano tem basicamente dois eixos. Um é a garantia dos avanços conquistados, conseguidos nos últimos 20 anos. Ninguém quer que acabe Renda Cidadã, Bolsa Universitária, Vapt Vupt e uma série de programas vitoriosos que são desse grupo político que está aqui. E o único grupo político que pode garantir a manutenção somos nós. E há uma série de inovações a partir do que já existe, como a Bolsa do Aluno do Ensino Médio, do mestrado para os professores, Jovem Pesquisador, inglês, intercâmbio internacional. Isso é inovação.

Como destacar as propostas em 45 dias?

Está tudo aqui, no plano de governo. É mostrar na televisão, nas redes sociais e se comprometer.

Qual adversário mais difícil: MDB ou DEM?

Todos são candidatos respeitáveis, têm um contingente de apoio. Não sei, não parei para analisar quem é mais difícil. Estou concentrada em trabalhar, em construir nosso projeto, apresentar à população. Candidato não tem que escolher adversário, tem que trabalhar para ganhar.

Ter uma mulher como vice diferencia José Eliton de Caiado e Daniel?

É uma postura de respeito à democracia, de respeito à mulher, de compreensão do século 21, de entendimento das demandas e dar oportunidades a homens e mulheres igualmente. Isso fica visível na própria fotografia das chapas.

Mulher vota em mulher?

Vota. Parte da minha escolha como vice foi resultado da movimentação espontânea que a Educação fez. Em julho fui para o exterior, fiquei 15 dias. Não entrei nessa busca de espaço. A própria Educação se mobilizou e foi uma coisa muito espontânea. Por que? Por ser mulher. Não é qualquer mulher. As mulheres não querem qualquer mulher. Elas se reconhecem na mulher que construiu uma trajetória, lutou, abriu portas, construiu um caminho. Elas querem se espelhar nessas mulheres que tiveram sucesso pelo esforço intelectual, moral. E tem o fato de ser professora. O mundo está carente de Educação. Os professores fizeram essa mobilização porque estão muito orgulhosos de que a primeira mulher a assumir o governo de Goiás seja uma professora. Isso é simbólico, é importante, é uma valorização da categoria.

No caso de vitória, a sra. defende um percentual mínimo de mulheres no secretariado ou a criação da Secretaria da Mulher no governo José Eliton?

Nenhuma Secretaria será criada. Estive com a presidente do Conselho de Mulheres, ela perguntou exatamente isso. Também recebi um pleito de criação da Secretaria da Igualdade Racial, hoje Secretaria da Mulher. Caiado anunciou a Secretaria da Agricultura. Se for atender todos os pleitos de recriação de Secretarias, vamos criar um Estado muito grande que, provavelmente, não dará conta dos compromissos, das tarefas que tem.

E a presença de mulheres no secretariado?

Nunca houve esse pleito, mas acho que o próprio José Eliton tem o desejo de fazer isso. Ele não anunciou ainda. Não sei, não discuti esse assunto com ele.

Eleita vice, voltaria para a Educação?

Eleita vice, cumprirei as tarefas que o governador determinar. Serei um pouco como ele foi com Marconi: preciso de você aqui, ali. É possível que eu volte para a Educação, não sei. Vai ser determinação dele. Pode ser, pode não ser.

Nas conversas sobre estruturação da campanha, onde pode haver dificuldade de diálogo, além da Educação?

Como coordenadora do plano de governo, participei de reuniões com praticamente todos os segmentos: agricultura, pecuária, agronegócio, planejamento urbano. Tivemos um diálogo satisfatório. Todos deixaram propostas por escrito que foram, na medida do possível, incorporadas ao plano de governo. O desafio do governo é grande, é um todo e tem que ter atenção igual para todas as áreas. Goiás é claramente um Estado celeiro de alimento, a agroindústria é importante, merece uma atenção muito especial. Criamos a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), quando fui secretária de Ciência e Tecnologia, e muitos dos arranjos produtivos locais eu que criei. O arranjo produtivo local leiteiro de São Luís de Montes Belos, por exemplo, foi com a Embrapa, com as pesquisas, com os pesquisadores. Particularmente, tenho uma entrada e discussão fácil com praticamente todas as áreas do governo.

Geraldo Alckmim também não está crescendo nas pesquisas. O PSDB não consegue atingir o grande público?

Consegue, vai conseguir. O que interessa é o dia 7 de outubro, vamos esperar. Pesquisa agora é ficção.

A sra. considera que José Eliton a escolheu também por ser conhecida em todo o Estado?

As propostas de escolha de vice eram baseadas principalmente no tempo de televisão, o que nas últimas campanhas tem sido um ativo valioso das coligações, e é importante, claro. Mas o pragmatismo político levou essas coligações a extremos ruins, de efeito ruim. O governador optou por uma escolha que não levava em conta o tempo de televisão, porque sou do mesmo partido. José Eliton considerou a capacidade de trazer novos segmentos, mulher, minorias, esporte, cultura, onde tenho uma entrada realmente. E levou em conta a representatividade, a afinidade. As pessoas em um governo às vezes não pensam isso, no pragmatismo de fazer qualquer coligação, de arranjar tempo de televisão a qualquer custo. Isso precisa ser repensado. A gente nem sabe se a televisão vai ser o instrumento mais importante ou se serão outros meios de comunicação. Mas ele fez uma opção por uma pessoa com quem vai ter confiança e tranquilidade para trabalhar. No governo é muito difícil, e no próximo governo vai continuar muito difícil. Tem a questão financeira e fiscal. A situação do Brasil não é boa, as demandas são grandes. Ele sabe que terá em mim uma vice leal, amiga, conselheira quando quiser. Sabe que vai ter em mim uma pessoa que pode confiar. Já pensou se pelo pragmatismo você escolhe alguém que depois vai dar problema. Quantos casos… Isso não é bom para o Brasil, não é bom para a política. As demandas pelas realizações são mais importantes e requerem um grupo ou pelo menos duas pessoas no comando afinadas. Ele sabe que vou ser o apoio sempre que ele precisar. Para o Estado isso é bom. Em um momento de rachas, divisões, de cá e de lá, a unidade é importante. Essa unidade também é simbólica comparando as chapas.

O que definirá as eleições: rua ou rede social?

As duas coisas, e a televisão. Temos que avaliar. Mas acho que ainda televisão. A gente terá esse tripé de demanda: rua, rede e tevê.

Como utilizar o tempo de tevê?

Esse é outro problema do mundo hoje. A tecnologia é ótima, mas propicia a criação de fake news. As pessoas que não estão acostumadas com as redes tendem a acreditar em qualquer coisa. Esse é um desafio e a gente tem um aconselhamento digital, claro, temos uma campanha digital para isso, para combater essas fake news, tem que ter.

 

Raquel Figueiredo Alessandri Teixeira, conhecida como

Foto: Divulgação

Raquel Teixeira. Professora titular de Linguística (aposentada) da Universidade Federal de Goiás. Mestre pela UnB, Doutora em Linguística pela U.C. – Berkeley – EUA e possuo pós-doutorado em Língua e Cultura pela École d’Hautes Études, de Paris. Pesquisadora do CNPq e consultora do MEC, CAPES, CNPq entre outros. Fui deputada federal por dois mandatos ( 2003/2006 e 2007/2010). Ex-secretária de Ciência e Tecnologia e da Cidadania do Estado de Goiás, foi titular da pasta da Educação Cultura e Esporte de Goiás no período de 2015 a 2018.

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