Professor: profissão estresse!

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Fabiola Rodrigues

Pesquisa realizada em Goiás indica que haverá aumento da deterioração psicológica dos professores nos próximos anos

Professores desgastados psicologicamente devido à extensa jornada de trabalho, baixo salário, expostos a agressões verbais e físicas. Esse é o retrato desanimador revelado em uma pesquisa realizada pelo professor Maurício Valadão. Os dados levantados para sua tese de mestrado mostram que dos 167 professores universitários entrevistados em Goiás, entre 2015 e 2016, mais de 82% deles estavam esgotados emocionalmente, enfrentando graus médio ou elevado de estresse e ansiedade.

A pesquisa aponta para um futuro sombrio para os profissionais da educação. Condições inadequadas de trabalho em muitas escolas colocam professor entre as três profissões que mais solicitam afastamento e auxílio-doença. E os números só continuam crescentes. Na pesquisa, o professor verificou que de 2015 até agora o índice de docentes que pediram afastamento por problemas emocionais chegou a mais de 38%.

Em muitos casos, o excesso de trabalho, já que professores precisam realizar em casa atividades como correção de prova e planejamento de aula, causa esgotamento, acompanhado de angústia, medo, depressão e pânico. Outros são vítimas de agressões verbais e, mesmo, físicas.

Após concluir a pesquisa, Maurício Valadão constatou que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) prevê que em 2030 os transtornos psicológicos serão o primeiro motivo de afastamento profissional seguido de auxílio-doença. Porém, para ele, essa estimativa está bem mais próxima do que muitos imaginam.

“Na minha opinião, se a sociedade continuar se comportando como hoje, desrespeitando o trabalho do outro, sendo intolerante, ansiosa, acelerada, nem vamos precisar chegar em 2030. Acredito que em 2025 essa realidade já estará batendo à nossa porta”, ressalta o professor.

Maurício Valadão conta que durante a realização da pesquisa percebeu que o papel do professor está indo além de ensinar e instruir, tendo que assumir a função de impor disciplina e limites aos estudantes. Eles têm que atender às expectativas das famílias que depositam neles a responsabilidade da educação que deveria vir de casa, a educação que promove a construção de valores como respeito e disciplina. “As responsabilidades impostas ao educador têm aumentado muito. Certos jovens não entendem o limite do respeito e o professor acaba por assumir tarefas próprias da família. Esse acúmulo, para quem está exercendo a profissão, tem elevado o grau de estresse claramente. É importante esclarecer isso”, diz.

Outra realidade que prolonga a situação de estresse nos educadores é que, mesmo insatisfeitos, continuam dando aula. Alguns enfrentam os desafios emocionais como uma fase, outros por questões financeiras. O fato é que este prolongar para pedir ajuda desenvolve a síndrome de burnout.

Essa síndrome (que em tradução do termo inglês seria algo como “queimar-se completamente”) se manifesta em cansaço excessivo de trabalho, que se tornou comum para inúmeros professores, de escolas públicas ou privadas. Em sua pesquisa, Mauricio Valadão constatou que, de 1.450 professores de ensino fundamental e médio entrevistados, 15% passavam por momentos de estresse na profissão. Mesmo assim continuam tentando prosseguir.

“Nas últimas etapas quando vem o estresse, em geral avançado, a doença se instala. Isso tem acontecido em uma proporção acelerada e, evidentemente, não é nada bom. A pessoa deve procurar ajuda o quanto antes”, esclarece o professor.

“Deve-se buscar união entre professor, instituição e família”

Pedagogo e psicopedagogo, Maurício Valadão é professor universitário e consultor na área de treinamento pessoal. Estudante do comportamento humano, pesquisa soluções que contribuem para o desenvolvimento da saúde mental e diminuir problemas emocionais causados pelo estresse. Atuando como professor desde 2006, ele já ministrou aulas para estudantes do ensino fundamental e médio. Quando percebeu que a atuação como educador era bem diferente das demais profissões, despertou interesse em se tornar pesquisador desse universo, e não parou mais, desenvolvendo inclusive o mestrado em assuntos relacionados. Na entrevista, ele fala dos desafi os atuais de uma das mais nobres profissões.

Tribuna do Planalto – Como o professor deve lidar com as dificuldades da profissão?

Maurício Valadão – O primeiro passo é não desistir dela, pois as causas são externas. Falar que vai largar o curso de Pedagogia não é interessante. Como qualquer outra atuação, tem que lutar sempre para melhoria, principalmente a do nosso sistema educacional. Precisamos de outros fatores envolvidos. Deve-se ter união entre professor, instituição e família. Não adianta o professor tentar se defender das situações, seja de baixo salário ou de agressividade, sozinho.

Quais os caminhos para mudar a realidade dos profissionais da educação?

Mudanças a curto prazo: a instituição precisa urgentemente valorizar o professor, elogiando-o, dando-lhe material adequado para trabalhar, oferecendo um ambiente mais digno para ele exercer suas atividades. Assim ele se sentirá mais apoiado. Isso pode ser feito com pouco recurso, não vai gerar tantos gastos. A médio prazo: o que podemos fazer com relação ao professor é ser verificado um equilíbrio salarial. A longo prazo: é a mudança no sistema educacional; essa precisa de todos os envolvidos nas políticas pública, social e educacional.

Como diagnosticar os problemas emocionais no professor?

O estresse começa a acontecer de forma bem lenta e vai intensificar de acordo com a percepção de cada professor. Os professores enfrentam agressões de diversas maneiras nas escolas. O quanto antes eles perceberem sintomas de esgotamento, melhor será. E devem pedir ajuda de profissionais que entendam do assunto.

Como evitar a síndrome de burnout entre os educadores?

Praticando estratégias de enfrentamento que são importantíssimas na vida de qualquer cidadão, inclusive na do professor que se encontra estressado. Para evitar depressão, tensão, esgotamento, é preciso usar como estratégia o suporte social, que é aquele que a pessoa precisa de tempo com a família, com os amigos. Isso consegue diminuir o estresse, sentimento de angústia. É preciso também optar por uma alimentação mais saudável e praticar exercícios físicos. Além disso, é importante ainda fazer uma reavaliação positiva e exercer isso com frequência, pois apresenta bons resultados para o equilíbrio das emoções. A pesquisa que realizei aqui em Goiás se tornará um livro com base em dados, teses e muito estudo. O lançamento será no fi nal do mês de novembro deste ano.

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