Artigo | Lenço Branco

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Foto: Divulgação

Faleceu na última segunda-feira, 20, Alaíde Pereira Monteiro, mãe do psicólogo e analista comportamental da Tribuna do Planalto.

E todos tinham um lenço branco no bolso para as despedidas. Este é o momento que todos um dia vamos confrontar, a hora do adeus ou até breve. Hora da despedida.

Quem está pronto para a hora da partida ou para dizer adeus?

Madrugada e segundos viram semanas, travesseiro com espinhos, e no ar um sentimento de que, a qualquer instante, o telefone vai tocar, e que aquela velha voz conhecida vai lhe dar recomendações, conselhos, contar uma piada ou apenas lhe pedir para tocar ao piano aquela velha canção que um dia fiz de presente para ela.

Mas o lenço balança, a janela bate vendaval e o telefone calado está. Calado fica. O peito aperta, lágrima escorre e o navio da vida deixa o porto seguro rumo ao desconhecido. Horizonte incerto, vagas, deriva, turbulências e o lenço balança até cansar o braço, as pernas e a nau sumir no oceano. Quando será a volta? Um dia marcaram a saída e a isto chamamos destino.

“O peito aperta, lágrima escorre e o navio da vida deixa o porto seguro rumo ao desconhecido”

Lenço branco e lágrimas, vontade de gritar, correr de pedir para ficar. Ah, se pudesse agarrar o tempo e o segurar… Mas ao longe um rastro de ondas, que deixam lembranças, saudades. Uma memória que às vezes está em uma xícara, ao fundo de uma prateleira qualquer. Um pedacinho de louça, só matéria e tanto significado. Tanto significado que, de tanto quanto um dia, no arroubo da pressa vai ao chão e em mil caquinhos já não mais o é.

Jorge A. Monteiro de
Lima é analista, pesquisador
em saúde mental, psicólogo
clínico e mestre em Antropologia
pela UFG.
Foto: Divulgação

A pessoa testemunha do ocorrido refaz em gotas o mesmo oceano de uma eterna partida e aquilo que se jurava eterno, como outra matéria, se vai, junto a outra lembrança do ocorrido de ontem. É outra dor, outro lenço branco em riste, que euforicamente balança um corpo em outro rosto, que jamais deixou de ostentar uma lágrima. Quantas despedidas tem a história de um porto? Quanto adeus contém uma saudade?

Larga o lenço, segura minha mão e me deixa sentir seu calor. As rugas do tempo, nas quais os calos são testemunhas da empreita de uma vida. O navio some no horizonte de rastro. Resta apenas o balançar das ondas que o tempo um dia vai acalmar.

In memória de Alaíde Pereira Monteiro de Lima – 16/12/1952 – 20/08/2018

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