Entrevista | Pais e filhos sem conexão

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Karla Cerávolo – Psicóloga

Daniela Martins

Somos uma geração fragilizada, que precisa reconectar-se para superar a depressão, a ansiedade e os casos crescentes de suicídio

Crianças são transparentes. É olhar para saber que algo não vai bem. A conexão genuína entre pais e filhos permite essa leitura do comportamento infantil e dos adolescentes. Mas essa conexão afetiva tem se perdido em meio à tecnologia, à rotina apertada, cheia de compromissos. Espaço aberto para problemas como ansiedade, depressão e, em casos mais graves, o suicídio. Estatísticas do Suicídio Datasus, do Ministério da Saúde, apontam para uma morte autoprovocada a cada três ou quatro dias em Goiânia. Dados de 2016. Jovens e idosos são a maioria. Essa questão tem preocupado os especialistas das áreas de saúde e comportamento. Nesta entrevista à Tribuna do Planalto, a psicóloga clínica Karla Cerávolo, especialista em Psicologia e Maternidade e diretora da Organização De Umbiguinho a Umbigão, fala sobre como construir ou recuperar essa conexão afetiva com os filhos.

Tribuna do Planalto Dados do Ministério da Saúde (MS) mostram que, nos últimos 16 anos, aumentou em 73% o número de suicídios no Brasil. Jovens e idosos são a maioria das vítimas. O que explica esse aumento?

Karla Cerávolo Suassuna – Somos uma geração de muita desconexão afetiva. Se não nos atentarmos imediatamente, veremos esses casos crescendo cada vez mais e de forma cada vez mais agressiva na sociedade. Temos o avanço das tecnologias, os jogos, tudo isso tem fi cado entre pais e crianças, tem afastado a criança e o olhar atento dos pais. Se não tomarmos cuidado, vamos ver uma piora gradativa. A depressão infantil aumentou em 200%. É um número assustador. Precisamos ligar o nosso termômetro urgentemente. Está faltando conexão afetiva.

O que é essa conexão afetiva?

A gente começa a olhar para essa conexão já na gestação. Pensamos que nós só nos desenvolvemos a partir de quando estamos falando, andando e não é. Desde que o cérebro se forma, na barriguinha da mamãe, já estamos recebendo informações e aprendendo sobre os sentimentos que estão chegando através da mãe. Já na gestação começa essa desconexão. Somos uma geração que trabalha muito. Mulheres que falam: ‘vou trabalhar até o último dia’, pensando no pós-parto mais tranquilo. E há uma perda já ali, na gestação, muito grande. Ainda na barriga, a criança precisa sentir o afeto, ouvir a voz da mãe falando com ela. A pediatria mundial tem esse olhar observador para os primeiros mil dias do ser humano: desde o dia da concepção até os dois anos de idade. Nesse período, tudo o que acontece tem impacto para toda a vida. É nessa fase que já se inicia uma quebra muito grande dessa tecelagem do vínculo de mães e filhos, e de toda a família com as crianças.

Hoje temos muita informação e nos preparamos mais para ser pais melhores. Onde estamos erramos?

Esse tanto de informação também assusta. Se antes não tínhamos informação, hoje temos demais. É importante saber que cada família tem a sua história. Não adianta jogar no Google sobre ‘educação de filhos’ e ter informações do mundo inteiro, coisa que nossos pais não tinham – no máximo tinham as experiências de vizinhos e parentes como referências. Não há como eu trazer tudo para minha casa. Minhas crianças são únicas e nós temos referências únicas também. O caminho é olhar para a educação de nossos pais e atualizar essa educação. Não dá para fazer do mesmo jeito que eles fizeram. Não é porque minha mãe trabalhava o dia todo que eu vou trabalhar o dia todo e ficar sem ver meu filho o dia todo. Temos hoje uma geração mais frágil. Preciso estar mais presente, sim. Os pais devem entender que informação é importante, mas somente esse vínculo, o contato direto com a criança, vai dar uma base sólida para a construção do ser humano e de uma relação bem estabilizada com a criança.

Problemas como depressão entre crianças e jovens têm passado despercebidos pelas famílias?

Sim. Exatamente pela desconexão. Temos crianças que estão dando sinais desde pequenininhas de que não estão bem. Crianças são sempre muito transparentes. Por exemplo, a criança não dá birra simplesmente por dar birra. O choro é a notícia que ela tem, é a ferramenta que ela tem para avisar que algo não está legal. Claro que tem de ter um contorno para saber quando ela está querendo só um pirulito no supermercado, e quando ela está dando notícia de que está afetivamente abalada. Infelizmente, há casos em que a mãe nunca imaginou que o filho estava com problemas, não sabia que a criança estava sofrendo bullying ou estava sendo agredida, que estava triste, que tinha brigado com o namoradinho. Como não vemos? Está faltando você saber que seu filho não está bem só de olhar para ele.

“A depressão infantil aumentou em 200%. É um número assustador. Precisamos ligar o nosso termômetro urgentemente porque está faltando conexão afetiva entre pais e filhos”

Falta tempo junto, diálogo…

Isso. Nossa vida é mais corrida, sim. Mas é possível sentar para almoçar, desligar celular, deixar tudo longe, desligar televisão e ter o momento de olhar no olho do seu filho. Se essa conexão é construída durante os anos, desde o começo, a gente vai perceber se há algo errado. Pelo jeito que a criança olha, você sabe se ela está bem. Não tem outro termômetro senão a ligação afetiva com essa criança. Estamos terceirizando nossa educação até mesmo para os eletrônicos. Não existe isso. Você tem de estar conectado com seu filho por você mesmo, não tem que ter uma ponte. É o coração, é o amor mesmo.

Se não há ou se perdemos essa conexão, como recuperá-la?

É importante os pais reconhecerem os seus erros e fragilidades. Infelizmente, pai e mãe querem mostrar para os filhos que são super-heróis, que dão conta de tudo, que nunca erraram. Mostrar que estão bem no trabalho, nas relações sociais. Se as crianças aprendem que os pais são humanos, que também erram, elas vêm nos pais humanidade e vão conseguir construir essa relação verdadeira com seus pais. Há uma abertura. Se seu filho tem 12 anos e você acha que não construiu isso com ele, comece agora. Senta com ele e fala ‘filho, acho que fiz muita coisa errada. Estou preocupado e quero mudar tudo. O que você quer mudar? Como você acha que eu posso ser melhor?’. Os pais se enganam ao pensar que dando essa abertura perdem a autoridade. Não perdem, muito pelo contrário. Ganham credibilidade e a confiança dos filhos.

“Estamos terceirizando nossa educação até mesmo para os eletrônicos. Não existe isso. Você tem de estar conectado com seu fi lho por você mesmo, não tem que ter uma ponte. É o coração, é o amor mesmo”

Como detectar a depressão?

Os sintomas da depressão para a criança e o adulto são os mesmos. Irritabilidade, nuances de humor, alterações no apetite, no sono, na rotina, no prazer que se tinha em fazer coisas simples. Precisamos detectar isso. Exemplo, eu tenho filhos de 2 e de 4 anos. Quando passo a semana mais ausente, trabalhando mais, eles ficam mais agressivos. A professora dá notícia de que estão mais agitados. E eu sei. Se naquela semana vou ficar ausente, no final de semana preciso resgatar mais, preciso correr atrás do tempo. E explicar ‘a mamãe está trabalhando mais. Eu sei que essa semana, estou mais ausente. Você me desculpa, mas o trabalho da mamãe é assim’. O problema é que nós atropelamos as emoções. A gente não valida, a gente grita com a criança e diz que ela tem que entender, é o meu trabalho… E não é por aí, não é assim que a gente ensina sobre emoções.

Por que é tão importante falar sobre o suicídio, um tema considerado tabu?

Todos fomos adolescentes e já pensamos em desistir. Falávamos ‘vou pular dessa janela, não aguento mais’. E estamos aqui. Hoje o suicídio está como uma ferramenta na palma da mão, uma ferramenta muito simples, prática e eficaz. Há um jogo novo, a Boneca Momo, um paralelo ao Baleia Azul, em que você tem que se enforcar e ficar sem respirar. Em Goiânia, nas últimas três semanas, três crianças se envolveram nisso. A criança, o adolescente quer se testar, provar ao mundo que é capaz de alguma coisa. Quando alguém suicida não o faz porque quer morrer. Ele quer acabar com uma dor muito forte e não vê mais saída. Olha o tamanho desse sofrimento psíquico que faz a pessoa não ver saída senão morrer. E é determinante, não tem volta isso. Ele [o suicídio] está muito mais fácil. Por isso não se falava tanto e agora está se falando mais. Não dá para não falar. Devemos ter um cuidado ao tratar do tema, não contar como foi. Essa é uma preocupação da Organização Mundial da Saúde, mas precisamos falar que está acontecendo, porque os pais não estão percebendo a gravidade. Se a gente não conta que está acontecendo, não chega notícia. Não está tranquilo, a gente está vendo acontecer toda semana.

Como se preparar para falar sobre o tema em casa, na escola?

Quando convidamos para debates, palestras, tentamos evitar a palavra suicídio, porque pensamos que nunca vai acontecer com a gente. ‘Ah, nem quero ouvir um tema desse.’ Acredito muito na ideia de trabalhar os aspectos da ansiedade e da depressão. Se a gente trabalha esses transtornos, conseguimos abordar o tema de forma prática, intensa, delicada e fazer realmente os pais pensarem nisso. Traz os pais para refletirem sobre os sintomas. Se eles reconhecem nos fi – lhos os sintomas, sabem se há um perigo em casa. Somos uma sociedade que está correndo muito risco em relação a isso. É uma sociedade de muita ansiedade.

“A gente não tem que ficar lamentando o passado. É andar para frente, fazer diferente. Nós sempre temos tempo. Enquanto nossos filhos estão aqui, nós temos tempo. Se nós os perdermos é que não tem mais o que fazer mesmo”

E na escola, como preparar o educador para tratar esse assunto em sala de aula?

Acredito muito na prevenção. Se a gente pega por esse caminho de mostrar para a criança que ela é diferente, que as pessoas vão pensar diferente sobre ela, que ela pode encontrar vários caminhos para resolver um único problema. Ajudar a criança a pensar. Nosso problema hoje é que as crianças não precisam pensar sobre nada. Você começa a ensinar uma criança a comer com 2 anos, mas não precisa ensinar a ela sobre a vitamina. Simplesmente põe um tablet na frente dela e vai botar a comida para dentro. A criança não pensa mais, não entra em contato com a ideia de ter gostado ou não da beterraba. Simplesmente vai comendo. Tem que fazer um trabalho? Vai no Google e está lá, pronto. É só imprimir. Não faz a criança pensar. Não faz pensar sobre o seu próprio corpo, seus sentimentos, sobre nada. Propomos um exercício com a família que é o seguinte: colocar um papel e falar para o fi lho ‘hoje você está triste ou alegre?’. Se está feliz, faz uma carinha feliz. ‘Ah, mamãe, tô triste.’ Faz uma carinha triste. É trazer para o papel, para o consciente, para o concreto. E a criança, ainda pequenininha, começa a identificar os seus sentimentos e a refletir sobre o que ela sente.

Qual a linguagem?

É simples. É olho no olho, colocar a criança no colo. Fala ‘filho, acho que a gente pode fazer melhor do que temos feito’. Mostrar que é importante estar com eles. É abrir mão da televisão, do computador, do celular. É brincar com as crianças. Abraçar seu fi lho. Se tem jogos, vamos jogar junto. Não deixar que essas tecnologias sejam uma barreira entre nós. Ao contrário, usar a nosso favor. A criança precisa sentir você junto. E você vai perceber [se há algo errado]. A criança está brincando, o adolescente jogando com você, e você vai perceber que ele está mais agressivo, xingando mais ou que está chorando em um jogo nada a ver. Ele vai se mostrar. E, se foi difícil até aqui, se está com um adolescente em casa que você acha que essa construção ainda não foi feita, vai devagar. Não adianta também querer invadir o mundo do adolescente de uma vez. Ele não vai deixar. É devagar, é mostrando a sua preocupação. A gente não tem que fi car lamentando o passado. É andar para frente, fazer diferente. Nós sempre temos tempo. Enquanto nossos fi lhos estão aqui, nós temos tempo. Se nós os perdermos é que não tem mais o que fazer mesmo.

Faltam políticas públicas para tratar do assunto?

Falta coragem. Não adianta a gente guardar na caixinha. Temos que falar. Sei que está todo mundo preocupado, mas preocupado com o que tem dentro de casa. Temos que pensar maior. Meu fi lho pode até estar bem, mas se está brincando com uma criança que estou percebendo que não está legal, a gente precisa falar, chamar a atenção para isso. Não dá para olhar só para nossos fi lhos. Nós somos vila, somos aldeia. É uma sociedade que precisa se ajudar muito.

Perigos gritantes

Debater perigos que muitas vezes as famílias não enxergam, como a depressão em crianças e jovens, é o foco da III Conferência Internacional do Bem Estar Infantil, realizada pela organização De Umbiguinho a Umbigão, com o apoio do Instituto Suassuna. Será dia 22 de setembro, no Castro’s Park Hotel. O tema central é ‘Infância Vulnerável – Os perigos visíveis que não enxergamos’ e entre os palestrantes convidados está a escritora e psicóloga americana, de Ohio (EUA), Mary Fristad. Inscrições pelo site institutosuassuna.com.

“Temos tantos problemas que, no fundo, estão visíveis mas a gente não está vendo. Não estamos olhando para o problema, que está gritando na nossa frente”, ressalta a psicóloga Karla Cerávolo.

Esse ano não estava programada a Conferência, que teve sua primeira edição em 2016. No entanto, a tragédia do Colégio Goyazes fez Karla repensar. “Nosso grande motivador foi o que aconteceu no colégio, e de lá para cá vimos piorar muito e eu falei ‘não vou desistir’”, diz. Caso que ganhou repercussão internacional, a tragédia aconteceu em outubro do ano passado, quando um estudante de 14 anos matou dois colegas dentro da sala de aula e feriu outros quatro. Uma aluna ficou paraplética.

Como lançamento da Conferência, nesta semana, dia 4, às 19h, especialistas participam de uma mesa-redonda para falar sobre o tema ‘Setembro Amarelo’. O evento é gratuito. Inscrições (62) 98124- 1231.

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